25 julho 2009

Ecos do velho Sul

Jefferson Davis
A Guerra da Secessão, suas causas e consequências, continua presente na vida americana, pelo que não é de admirar que as editoras do outro lado do Atlântico inundem as livrarias com títulos sobre essa tragédia que enlutou o jovem país durante quatro longos anos. Habitualmente, o conflito é apresentado como um embate entre a liberdade e o esclavagismo, o Norte progressivo, industrializado e urbano e o Sul conservador e rural, abordagem redutora que falseia a riqueza de perspectivas. O tema é quase proibitivo, mas fascinante pela inversão dos papéis que a mitologia distribuíu a vencedores e vencidos.
General Lee
"There are few, I believe, in this enlightened age, who will not acknowledge that slavery as an institution is a moral and political evil”. (General Lee)
É certo que o nó do problema, jamais tratado - pois ofende um princípio de unidade que depois se quis projectar no passado da União - é de natureza constitucional. Para os sulistas - 60% dos quais não possuiam escravos - tratava-se de defender um princípio que vinha da declaração da independência e dos textos dos Pais Fundadores. Os Estados Unidos eram produto da afirmação da liberdade dos homens e de um contrato entre comunidades organizadas em Estados que voluntariamente abdicavam de parcelas de soberania e a depositavam nas mãos do governo federal, conquanto este respeitasse a especificidade de cada Estado. A questão da escravatura foi intencionalmente empolada no imediato pós-guerra e serviu de moldura moral para justificar uma grave entorse e mutação da ideia que Washington proclamou em 1776. Ao aristocrata fundiário e esclavagista que era Washington - em Mount Vernon possuia 300 escravos negros - não passava pela cabeça colocar em risco a república, se bem que formulasse em testamento o desejo de libertação dos seus escravos após a morte da sua mulher; ou seja, a questão da emancipação dos escravos era colocada como responsabilidade moral individual e nunca como um valor ou uma obrigação da nova comunidade política.

Frank Loper (por George Biddle, 1937)

É claro - como o era no Brasil da Casa Grande e Senzala - que os negros do Sul não eram tratados com os extremos de brutalidade que a Cabana do Pai Tomás, estereótipo próprio do panfletismo radical que teve sempre reduzido eco entre a população do Norte, quis fazer crer. Aliás, o radicalismo de John Brown e da sua associação teve sempre menor apoio que a American Colonization Society, que advogava o simples reenvio dos escravos para África. O Sul dos anos 40 e 50 conheceu grandes iniciativas de promoção dos negros. Ensinar a ler um escravo, dar-lhe formação religiosa, atribuir-lhe funções de acordo com as suas capacidades parecia ser, para muitos esclavagistas, um objectivo em que se cruzavam a prática do bem e o robustecimento económico das explorações agrícolas. Os líderes confederados - o seu presidente à cabeça - eram entusiastas de uma fórmula reformista que permitiria ao Sul fazer frente à pressão do Norte industrializado. Não deixa de ser sintomático o facto dos mais empenhados abolicionistas se encontrarem entre os contratadores das fábricas do nordeste, à míngua de mão de obra. A guerra e o esmagamento militar do Sul funcionou, assim, como anulação de um modelo de sociedade que travava o crescimento industrial e a divisão do trabalho. Para o Norte, um escravo era duplamente inútil: tinha de ser alimentado, vestido e instalado, fazia parte da propriedade e aí vivia do nascimento à morte. Ora, numa sociedade industrializada, o proletário e o trabalhador braçal era contratado e despedido de acordo com as necessidades da empresa, pelo que a escravatura seria, por absurdo, um freio à irresponsabilidade social dos empresários.
Exército negro da Confederação
Esta curtas notas vêm a propósito de Jefferson Davis: The Essential Writings, que me chegou às mãos e folheei com interesse, pois fornece interessante despistagem de lugares-comuns e imprecisões e apresenta o presidente da Confederação à luz do seu tempo. Davis foi sempre um grande protector dos escravos. Na sua exploração agrícola, atribuiu funções dirigentes a escravos, desenvolveu obra social que arrepiaria os cabelos dos barões das indústrias do Norte e estimulou a criatividade. O seu colaborador dilecto dava pelo nome de Ben Montgomery, um homem notável, inteligentíssimo e bem sucedido que foi o primeiro negro americano a patentear uma invenção mecânica. Quando a guerra se aproximava do fim, a família Davis vendeu ao seu escravo a propriedade, transação orçada em 300-000 dólares. Outro caso relacionado com Davis. Frank Loper, o mordomo da mansão da família, recebeu a libertação com pesar e lágrimas e lembrou sempre o ex-presidente do Sul como um pai. Morreu idoso e trabalhou até aos últimos dias como empregado de um hotel. Ora, para os menos avisados, importa relembrar que a Confederação iniciou o seu processo de libertação dos escravos negros em finais de 1863, ainda a guerra não tinha vencedor certo, e que nos meses derradeiros do conflito o exército Confederado utilizou em larga escala forças de choque constituídas integralmente por combatentes negros. Estranho, não acham ?

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

A história é sempre contada pelos vencedores. com este post, arriscas-te a que uns fulanecos tirem aqui e ali uma frase e te apontem como um exemplo de saudosista da escravatura! E o mais engraçado é que serão exactamente os mesmos que patrocinaram a entrega "dos pretos do Ultramar", retirando-lhes o BI nacional. Coisas...