08 junho 2009

Quatro nótulas avulsas sobre as "europeias"


De longe, seis horas avançado sobre o fuso de Greenwich, segui a noite eleitoral portuguesa e retirei conclusões [pessoalíssimas] que só me assustam, pois reconheço ter-me transformado num mau cidadão. Entre a indiferença de um apolitiscismo galopante e o quase desprezo pelos ardores que ainda mobilizam analistas, agitadores de bandeiras e distribuidores de autocolantes, vi de fora, comparei com outros e passou-me pela alma uma sombra.

Parece que Portugal está a ficar para trás, ou antes, poderá estar na dianteira do processo de pinderização e meia-tigelização que se vai instalando por um continente que há quarenta era governado por homens com biblioteca e piano na sala, há trinta por pessoas que ainda sabiam usar os talheres e hoje por uma fulanagem vão-de-escada que tudo diz sobre o ocaso da vida pública. Vi a Bulgária - ali ainda há um antigo rei no pleito - vi o Reino Unido com os seus Tory fato-às-ristas, vi a França, que não obstante o cabotinismo Sarkozy ainda apresenta salas cheias de Descantons de Montblanc, Dianous de La Perrotine, Montaignac de Chauvance e Chevrier de Varennes de Bueil que lembram as melhores adegas vitivinícolas.

1. Manipulação infantil: Os resultados não compaginam com as sondagens. A partir de hoje, recuso crédito e qualquer pretensão a esses auxiliares menores da intrigalhada politiqueira que dão pelo nome de institutos de sondagens. Andaram semanas a afiançar 2% para o CDS e, afinal, o CDS quase atingiu dos dois dígitos. É escabroso, é indecente, é anti-deontológico. Tudo soa a sorteio viciado de quermesse de aldeia.

2. Campanário. As intervenções de vencedores e derrotados foram de uma pobreza só comparável àquelas peças de jornalismo de província que cabiam no Cavaleiro da Imaculada, nas Notícias de Fafe ou no Mafra Regional: uma pobreza de meter dó, umas discursatas à António Silva no clube das costureiras de bairro, com agradecimentos ao Paulo, à Maria e ao José, beijinhos e abraços. Salas pequenas, com direito a coro e estribilhos a meia dúzia de vozes, a demonstrar que os números de "aparelhos" e votantes quase coincidem. A coisa está pela hora da morte.

3. Triqueixização. Já os não via há dois anos. Caramba, como estão velhos, gastos e macerados os homens e mulheres que ainda se agarram à profissão mais bem paga. Foi a custo que os vi aparecer, um a um, uma a uma, na pantalha, com entradas a subirem, sulcos profundos que só canivetes poderiam obrar, comissuras pendentes, barrigas desproporcionadas. Antes falava-se na senilização da brigada do reumático; hoje falaria no triunfo da bordalização do Albúm das Glórias do regime.

4. Vazio quase sem palavras. E o discurso [ou o que dele sobra], de uma dolorosa como inconsciente pobreza, repetitivo, a puxar ao clubismo, à defesa do ordenado e à aritmética da dispensa de secos & molhados ? O que leva aquela gente para as noitadas nas sedes ? Porque se acotolevam atrás dos líderes para aparecerem na tv, como só vejo nos noticiários sobre o Iraque ou o Curdistão ? Acabou a encenação, a pose, a gravidade. Agora é um empurrar para furar, mostrar à família e amigos lá do emprego que se é importante e que se está na ribalta de coisa nenhuma. E a geringonça dos opinadores cativos, com Pacheco e Marcelo quase tão gastos como as cariátides do Vitrúvio ? O que é um ciclo, um contra-ciclo, o início de mudança, um cartão vermelho ? Ouvi-os e desliguei. Chego à conclusão que a política está para mim como os futebóis: não existe.

Compreendem agora o meu afastamento ? Portugal precisa de uma boa mudança ou não volto. Cansei-me e já nem quero saber.

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

ehehehehe, vou fazer JÁ o link!

Vítor disse...

É pena. O país precisa de pessoas como o Sr. Mas também não lhes dá grande margem de manobra...