03 junho 2009

Quando um blogue se faz papel


O João Gonçalves dispensa apresentações, mas certamente merece ser apresentado ao outro país - o que não lê blogues nem tem internet - por aquilo que vai infatigavelmente fazendo ano após ano, inacessível ao desalento, sem medo e sem meias-palavras. É, decerto, coisa rara entre os portugueses. Dele dizem muito mal e muito bem. Ora, sempre senti atracção especial por pessoas mal vistas, criticadas, difamadas até, pois nesse vozerio eriçado de indignação postiça esbarro sempre com meia dúzia de palavras que nunca se confessam mas estão por toda a parte: inveja e ciúme, imbecilidade fingida em boas maneiras, iletrismo camuflado em pronto-a-pensar, bajulice à procura de umas moedas caídas da mesa das secretarias e dos ministérios; no fundo, a pequena arte de arranjar cabidela, um patrocínio, uma tença. A política portuguesa fez-se e faz-se com essa feromona com que as pequenas potestades impregnam todos os cantos da teia que os ampara, das juntas de freguesia aos lugares de alta direcção, da mais pequena sinecura a Belém e S. Bento: dar dinheiro, calar pelo suborno, dar um lugar a cicrano, fazer um favor a beltrano, promover o medíocre, amputar o homem de valor. Ora, leitor atento do Portugal dos Pequeninos desde 2003 ou 2004, não concordando com tudo, mas com tudo concordando na indignação, impaciência e exasperação que revolve de cima a baixo o João na sua demolidora dissecação do país político, só posso confessar a minha alegria por ver o Portugal dos Pequeninos subir às estantes onde se preserva o pensamento que fica. Talvez, dentro de setenta ou oitenta anos, quando se fizer a história da prosa doutrinária e do "inquérito à vida" no Portugal dos primeiros anos deste século, o João possa ser relido como referência de uma atitude, de um estilo e de um pensamento odioso para aqueles que vai acusando, provocando e fazendo em tiras. Não sei porquê, mas ao olhar para a capa do seu livro, só me acode o nome de Fialho. No fundo, o João é um poeta, acredita no valor das palavras armadas, na razão furiosa e no voltar da página sobre a noite que caiu sobre Portugal. Talvez um dia se levante o sol e os portugueses vejam que têm duas pernas, duas mãos e uma voz. Y ya tu canto es de todos los hombres /

2 comentários:

M Isabel G disse...

Credo!! Parece que lá esteve:)
OPacheco Pereira não esteve muito longe das suas palavras nomeadamente quando falou sobre a coragem do João Gonçalves sem medinhos nem favores.
Lá estivemos, tal como no seu restaurante, e ainda houve tempo para meias, creme e um gelado maravilhoso. Foi uma excelente tarde.
Beijinhos
saudades.

joshua disse...

Não podia estar mais de acordo, Miguel.

Abraço