04 junho 2009

O que não ouvi dizer nestas eleições para a Europa


Nesta campanha eleitoral para o Parlamento Europeu muito se falou sem nada se dizer sobre a Europa e sobre Portugal. A paupérrima esquerda e a não menos esfarrapada direita portuguesa de todos os quadrantes não sabem bem ao que andam, sem um conceito arrimador sobre a civilização em que nos integramos, sem saber identificar o vínculo que nos liga à Europa e sem sequer equacionar o interesse nacional. Ouvi muito, não aprendi nada. Falam por cifras, frases feitas para cada um dos supostos "problemas", tomam a núvem por Juno no alinhavar de lugares comuns carregados de superstição ideológica e de rodriguinhos importados destinados a clientelas há muito estabilizadas; em suma, a campanha não serviu para nada.

Qual é, antes de mais, o problema central a que os cérebros sem leitura não conseguiram chegar ? É, obviamente, o de saber definir o que é Portugal, porque está nesta Europa e que vantagem desta associação conjuntural tiramos. Infelizmente, a tese contratualista e voluntarista de Rousseau prevalece em todos os discursos, com a manifesta ignorância que o homem abstrato não tem direito à existência, pois não existe em parte alguma. Todos somos criaturas com envolvente familiar, social, cultural e histórico: não escolhemos a nossa família de nascimento e não escolhemos a pátria em que nascemos, pois estas são-nos impostas pela natureza no acto do nascimento. As pátrias não são negócios contratuais, existem antes e depois do cidadão, pelo que Portugal não nos pertence, mas somos nós que pertencemos a Portugal. Portugal é uma fundação de destino e a identidade está disseminada pelo passado e pelo presente, nos mortos e nos vivos. Portugal não é um estar aqui negociável, não cabe em programas nem se pode reduzir a "propostas". Não cabe aos portugueses de hoje questionarem-se sobre a viabilidade ou inviabilidade de Portugal, mas cabe-lhes lutar por uma ideia portuguesa na Europa e da Europa. Ora, o que ouvi foi o contrário.

Em primeiro lugar, a Europa não é uma fatalidade nem o fim de Portugal. Fora ou dentro da Europa, poderemos indicar mil e uma alternativas no quadro do interesse nacional sem afrontar a unidade de destino inscrita na história desta comunidade deste o momento da sua criação, há quase novecentos anos.

Todos, da extrema-esquerda à direita extrema, exibem um doloroso seguidismo não português (e muitas vezes até, anti-português) que se contenta em situar os problemas contemporâneos da nação por referência a problemas específicos dos restantes estados do continente. A agenda de todos os partidos parece um químico das supostas "famílias ideológicas" em que cada formação se integra, desconhecendo que o interesse francês, alemão ou italiano colide, quase sempre, com o interesse português, não apenas na identificação dos problemas como na sua resolução. Neste particular, da extrema esquerda à direita extrema, há muita Europa e nenhum Portugal: são cópias de cópias pedindo protecção externa.

Ouviram falar de Portugal, do Portugal fora do portugalinho dos 500X200 km, do Portugal de ontem que está presente em todos os continentes, feito de brancos, mulatos, negros e asiáticos, dessa ideia de fraternidade universal que criámos e fecundámos ao longo de meio milénio ? Ouviram falar do espaço português extra-europeu, que se projectou no Atlântico e tem hoje no Brasil uma potência económica em crescente afirmação ? Ouviram falar em políticas de robustecimento dessa unidade global que carrega na língua o elemento aglutinador que nos condena ao irreversível entendimento ? Não. De facto, não foi Portugal que entrou na Europa, mas a União Europeia que entrou em Portugal.

1 comentário:

cristina ribeiro disse...

Muitíssimo bem!!!