14 junho 2009

Noite na ópera, com aristocracia e sem "jet set"


Ontem assisti à segunda representação do Freischütz de Carl Maria von Weber, que a Metropolitan Opera of Bangkok levou à cena no grande auditório do Centro Cultural de Banguecoque. Excelente execução orquestral, cenário romântico, adereçagem e figurino que dir-se-ia retirados de aguarelas de princípios de Oitocentos, uma panóplia de bons profissionais do bel canto - a soprano Aude Priya (Agathe) e o barítono Piyawat Pantana (Kaspar) poderiam subir aos palcos de qualquer ópera europeia - tudo atestando a crescente qualificação dos músicos tailandeses. Acresce que o excelente libretto bilingue foi oferecido gratuitamente e que as condições proporcionadas aos assistentes em nada diminuem a Tailândia: bom serviço de cafetaria, livraria especializada e acolhimento que infelizmente já não temos em Portugal.
O interesse pela cultura ocidental, a irrepreensível fluência da língua alemã, um público conhecedor e participante foram as notas dominantes do espectáculo. O que mais se poderia pedir a um povo de cultura tão distante ? É como se entre nós existisse uma companhia de ópera chinesa ou um corpo de actores e dançarinos especializados na representação do Ramayana ! Podemos pedir mais, ou é tempo dos europeus perderem um pouco da sua arrogância e valorizarem o património musicológico erudito de outras civilizações ?


Naturalmente, a música clássica europeia conta aqui com o patrocínio não só das embaixadas (Alemanha, EUA, Índia e França), de empresários e bancos tailandeses, mas sobretudo de figuras da aristocracia local. Esta versão tailandesa do Krassun Pissan ("Franco-Atirador) mobilizou personalidades destacadas da vida social - em Portugal, o chamado jet set só se interessa por festas parvas - e vem demonstrar à saciedade a importância de uma elite responsável. Estou certo que noutras paragens da Ásia - onde triunfou a plutocracia e nada mais há na chamada "alta sociedade" que tolos analfabetos cunhados na escola do fazer dinheiro e exibir Jaguares - uma noite de ópera como a que me foi dado assistir não passaria de quimera. No fundo, as sociedades precisam de gente endinheirada mas culta para manter a oferta cultural de qualidade. Esta minoria mecenática - que na Europa praticamente desapareceu de cena para dar lugar a rufiões da escola de Berlusconi - fez em tempos a vida das óperas e teatros europeus. Ao desaparecer, deu lugar ao que bem conhecemos. Quando as verdadeiras elites morrem, morre a cultura, fenece o bom gosto, entra em eclipse a necessidade de alimento espiritual. Decididamente, no Ocidente o dinheiro está em muito más mãos. Ao iniciar-se a noite, o público levantou-se para entoar o hino real. Este é, de facto, um povo culto.

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