26 junho 2009

A morte de uma certa América



A América da pop culture das indústrias de entretenimento - do consumismo de massas, do lazer programado e da "baixa cultura" - está a desaparecer. É a despedida dos ícones populares dos anos 70, da geração tv e do mito da felicidade colectiva que se exprimia nesses ajuntamentos multitudinários sem precedentes que iludiam a crescente solidão dos homens e anomia imparável das sociedades urbanas. Com David Carradine, Farrah Fawcett e Michael Jackson fina-se o tempo da televisão todo-poderosa - agora uma sombra disputada por milhares de concorrentes servindo públicos à la carte e pelo triunfo da cultura DVD - e cortam-se as últimas amarras de uma cultura familiar que, a custo, conseguira contornar a tão falada incomunicabilidade intergeracional.
Com a morte dos três morre, também, a ideia de uma América do melting-pot em transição para a nova sociedade mestiça e para a pseudomorfose cultural (Spengler) : Carradine tinha ascedência irlandesa, espanhola, italiana, ucraniana e cherokee, Fawcett era católica, reivindicava ancestralidade francesa, inglesa e índia Choctaw e Jackson era negro. Representavam o triunfo dos enclaves étnicos em afirmação ao longo dos anos 60 e 70, a riqueza e a popularidade pelo mérito e respondiam de certo modo a uma necessidade de realização individual à qual os "valores tradicionais" já não conseguiam responder: Carradine com o seu orientalismo bric-a-brac de um monge shaolin em terras do Oeste Selvagem, Jackson e o seu estilo de Geração X fingindo uma infância e ingenuidade eternas que sepultaram Peterpan e Alice, Fawcett lutando pela beleza nas páginas da Playboy após os 50 anos.
O trágico fim deste ícones é, também, sem apelo, a morte dos últimos vestígios do american dream: Jackson transformado numa máscara viva, cortando cerce a mentira da indústria cirúrgica estética, Fawcett destruida pelo cancro e o septuagenário Carradine encontrado estrangulado e em condições deploráveis num quarto de hotel em Banguecoque.



I wanna rock with You (Michael Jackson)

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

E tudo isto uma semana após Obama ter exterminado uma mosca. Incrível...

Miguel disse...

Miguel,

Antes de mais, saudações deste teu amigo e compatriota no extremo da Ibéria. Espero que esteja a correr tudo bem na Tailândia. Aproveita.
Entretanto, confesso que me tinha escapado a notícia da morte de David Carradine. Aliás, não obstante a sua ascendência irlandesa, espanhola, etc., numa América em transição para a nova sociedade mestiça, a verdade é que também ele iniciou a sua carreira cinematográfica à custa daquele que era então o principal candidato ao papel de um monge de Shaolin no Far West: o já hoje lendário Bruce Lee.
De facto, a série "Kung Fu", intitulada, na sua origem, "The Warrior", não teve o último como protagonista devido a "imperativos" de discriminação rácica, levados a cabo pela Warner Bros. Mas há mais: David Carradine também entraria no filme intitulado "The Silent Flute", para o qual haviam colaborado, em termos de guião, Bruce Lee, Stirling Silliphant e James Coburn. Aí, Bruce Lee seria, naturalmente, o protagonista, mas a Warner Bros., apoiada na desistência de Coburn, não avançaria, como é óbvio, com o projecto.
Isto, claro está, é só um pormenor, quiça insignificante, para tomarmos em conta os muitos aspectos em que a América se nos revela e dá a conhecer.

Um Abraço

Miguel Bruno Duarte

PS: miguel.-bd@hotmail.com