21 junho 2009

Iranologia sem americanice

Os estudos iranológicos são praticamente desconhecidos entre nós, se bem que testemunhos históricos de grande relevância atestem um intenso passado nem sempre pacífico nas relações entre Portugal e a Pérsia, do século XVI ao XVIII. A Pérsia dos Safávidas , o império Mughal e Omã foram os mais sérios obstáculos à fixação dos europeus no Índico, tendo-nos feito frente e, até, derrotado por várias vezes na disputa de zonas-chave do comércio internacional. Em 1972, a Fundação Gulbenkian publicou um importante catálogo sobre as relações luso-persas balizado cronologicamente entre 1500 e 1758. Depois, as vicissitudes políticas portuguesas, e logo de seguida as iranianas, deram por encerrado um auspicioso relacionamento entre os académicos dos dois países.

É pena, pois a ausência de uma forte escola portuguesa de estudos orientais - que continua a subsistir graças a investigadores de excepção trabalhando isoladamente ou animando institutos pouco apoiados pelo Estado: Luís Filipe Tomás, António Vasconcelos de Saldanha, João de Deus Ramos e Jorge Flores - tem impedido a formulação de uma teoria geral portuguesa sobre as relações internacionais no Índico até à afirmação do Raj britânico em meados do século XIX Com excepção dos autores contemporâneos acima referidos, os "estudos orientais" em Portugal continuam a ser confundidos com monografias sobre Goa e Macau, retirando compreensibilidade à incontestada presença e influência globais dos portugueses nas "ásias" (média, do Sul, de sudeste e extrema) e obrigando-nos a aceitar modelos interpretativos e até preconceitos profundamente instalados na perspectiva anglo-saxónica e, até, francesa.


Quando há dois meses o Professor Vasconcelos Saldanha aqui proferiu em Banguecoque uma conferência sobre o Bandel Português de Ayuthia, senti incómodo e crispação entre muitos assistentes, pois o conferencista ofendeu as crenças historiográficas de muitos europeus [e norte-americanos] que continuam a fixar os momentos altos das relações Ocidente-Oriente nas mal sucedidas tentativas francesas dos séculos XVII (Índia e Sião) e XVIII (Birmânia) e na consolidação do poder britãnico na Índia, só definitivamente selado após o Grande Motim de 1857.
Hoje passei a tarde na maior livraria da capital tailandesa e deparei com uma verdadeira exposição de títulos referentes ao Irão. Serão mais de cem as obras que versam a história iraniana, demonstrativas que o interesse dos académicos sobre o país dos Aiatólas acompanha a escalada de enfrentamento entre o Ocidente e a antiga Pérsia. Sentei-me, consultei índices e folheei passagens das obras que evidenciavam melhor compleição. Afinal, para os americanos, o Irão resume-se ao islamismo radical, à proliferação nuclear, aos "estudos do género" e da sexualidade, ao sequestro dos diplomatas americanos em Teerão e a patéticas tentativas de biografar os fundadores da República Islâmica. Tal como em relação ao Vietname, os americanos são falhos no labor historiográfico, desconhecem fontes documentais anteriores ao século XIX, não compreendem que é a espessura do tempo longo que dita o comportamento dos estados, sociedades e indivíduos, pelo que os "estudos" produzidos nos EUA se limitam à factologia, ao opinarismo jornalístico ou mesmo ao sensacionalismo mais escancarado.

Reparei, também, que a vaga de papel cobre conflitos genericamente marcados pelo jihadismo, do mahadismo do Sudão de finais do século XIX aos separatismos islâmicos nas Filipinas, na Tailândia e Índia, são ligeiramente interpretados como o pan in herbis de Ossama bin Laden, do talibanismo e do Estado teocrático iraniano. Esta cegueira, confusão de planos, locais e povos de diferentes níveis e fases de islamização parece sintomática da incapacidade americana em percepcionar um mundo diverso daquele que o ideologismo estreito e simplificador aponta. Afinal, a incapacidade ocidental em lidar com os fenómenos do tempo presente deve-se a mais esta exibição de imaturidade cultural dos EUA.

Tudo isto acaba por produzir uma deplorável política regional dos EUA, trágicas confusões como aquela que teimou em ver nos "reformistas" iranianos a anunciada vaga democrática e incapacidade para influenciar o curso dos acontecimentos. Os EUA teimam em impor um figurino que não joga com os dados e em tudo ver aquilo que não existe, pura e simplesmente, na fenomenologia inerente à região.



Goudarz Khorassani: Iranian Wedding Music n.1

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

E deram-nos o mesmo tipo de tratamento, num longo processo que começa logo na questão do Havaí, ainda no século XIX. Estou a começar a ficar farto destes infelizmente necessários aliados.