28 junho 2009

Incomunicabilidades


"Os vossos costumes são tão opostos aos nossos: vocês escrevem sobre papel branco, nós sobre papel preto; vocês levantam-se em sinal de respeito, nós sentamo-nos; vocês descobrem a cabeça perante um superior, nós descalçamos os sapatos". (Príncipe Mekkara, tio do rei Bagyidaw da Birmânia ao embaixador britânico Burney, 1830)


Os britânicos arrolavam-nos na categoria de bárbaros. De bárbaros tinham pouco (vide belo catálogo aqui) para além de praticarem periódicas chacinas intra-palatinas e enterrarem vivas pessoas nos pilares dos palácios em construção, seguindo a crença que os imolados se transformariam em nat (espíritos) protectores. Em contrapartida, eram afáveis e diligentes para todos os forasteiros, nunca matavam ou maltratavam um prisioneiro de guerra, exibiam tolerância religiosa digna de respeito, veneravam as florestas e todos os seres vivos, sabiam ler e escrever a partir dos sete anos de idade, possuiam vastas bibliotecas, monumental literatura sapiencial e organizavam sínodos budistas que reuniam centenas de estudiosos oriundos da Ásia do Sul e do Sudeste. Eram os birmaneses (ou birmanes), o mais poderoso e temido povo indianizado do sudeste-asiático. Fizeram a vida negra a siameses e indianos, derrotaram os franceses, esmagaram militarmente os chineses e desafiaram altivamente os britânicos, com os quais se bateram em três guerras, no rescaldo das quais cairam sob o jugo da Union Jack. De bárbaros tinham, realmente, muito pouco. Os letrados da corte rivalizavam com a astronomia ocidental no cálculo dos eclipses lunares e as fórmulas matemáticas de que se serviam batiam os estudos publicados pela Royal Society de Londres.


Em meados do século XIX, durante o reinado de Mindon Min, procuraram a via do Ocidente para se furtarem à pressão britânica: entregaram-se afanosamente ao estudo das ciências e tecnologia ocidentais, converteram-se ao vapor e aos caminhos de ferro, lançaram o telégrafo, entusiasmaram-se pela imprensa, criaram escolas onde se ensinava o inglês, a economia, as ciências naturais e a teoria da evolução, apoiaram missionários católicos e protestantes na criação de dispensários, orfanatos e hospitais, edificaram uma soberba capital segundo o cânone ortogonal iluminista (Mandalay). Em 1871, enviaram à Grã-Bretanha um embaixador de grandes predicados e curiosidade intelectual digna de nota. kwun Mingyi não foi tratado como embaixador, mas como uma raridade exótica. Os ingleses não estavam interessados em manter relações com os birmaneses; só pensavam na teca das florestas do reino de Ava e nas gemas.

Despojos humanos dos artilheiros "portugueses" católicos da Alta Birmânia aos pés dos conquistadores britânicos (1885)
O diário de kwun Mingyi é um raro documento que merece ser lido por quantos pensam que o Ocidente possuiu deveres de civilização perante mundos que desconhece, o tão repetido Fardo do Homem Branco. Muito do que hoje condenamos nas práticas do governo de Myanmar é resultado desse momento em que os britânicos se recusaram dialogar com uma sofisticada cultura que lhes estendia a mão.

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Estes textos sobre o Oriente, deviam ser coligidos como testemunhos e recordações de uma viagem.

shae myanmar disse...

I can't read your language but appreciate that your blog post about Historical records of Burma, thank