Há duas semanas aqui noticiámos o início das celebrações dos 500 anos da chegada dos Portugueses à Tailândia. O governo tailandês, através do seu MNE, fez chegar às Necessidades a intenção de comemorar em grande formato o mais antigo tratado de amizade entre um Estado europeu e uma nação asiática. À vinda de jornalistas portugueses convidados pelos tailandeses, junta-se a realização de um grande simpósio, hoje realizado em Ayuthia, capital do Sião até 1767 e onde se fixou durante mais de 200 anos um importante bandel português. Intitulado 500 Anos de Relações entre Tailandeses e Portugueses, o simpósio foi organizado pelo Departamento de Belas Artes de Silapakorn e reuniu um importante friso de historiadores tailandeses. As autoridades governamentais não deixaram de acorrer ao evento: o Vice-Ministro da Cultura, o Director Geral do Departamento de Belas Artes, o governador de Ayuthia e outros quadros superiores dirigentes do Estado marcaram presença, numa manifesta demonstração de interesse e apoio a todas as iniciativas que decorrerão a partir de hoje em solo tailandês evocando a chegada de Duarte Fernandes, enviado ao Sião em 1511 por Afonso de Albuquerque para estabelecer relações com o Rei do Sião.
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Nós, os portugueses, rimo-nos a bom rir neste ambiente de descontração tão característico dos thais. Ao contrário de outras paragens, onde uma inibição quase doentia dos académicos asfixia o prazer de comunicar, aqui prevalece o sanuk - divertimento - e as mais chocantes revelações. Um dos arqueólogos afirmou sem qualquer reserva que durante os prolongados trabalhos de escavação, o maior temor que experimentou foi o de trabalhar com despojos humanos de portugueses, "não fossem estes segui-lo vingativamente de volta a Banguecoque". Para vincar o absoluto convencimento nas forças do além, afirmou em tom de brincadeira assertiva que "os cães da vizinhança uivavam em desespero sempre que um esqueleto era resgatado das entranhas da terra". Prapit Pongman, por seu turno, apresentou um estudo sobre os esqueletos, afirmando que as análises periciais demonstram tratar-se de europeus, rebatendo uma tese chinesa que afirmava terem pertencido os esqueletos a um velho cemitério chinês existente no local antes do estabelecimento do bandel português.
O dia terminou com uma visita de estudo ao campo português de Ayuthia, tendo como cicerone o arqueólogo responsável pelas campanhas dos anos 80. Após oito horas de trabalhos, os participantes deslocaram-se sem deserções ao velho bandel e entusiasmaram-se - como nós - pelas grandes melhorias entretanto realizadas: paredes caiadas de fresco, relva aparada, iluminação eléctrica restituída, limpeza dos baldios adjacentes.
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Mas a história de Portugal na Tailândia ainda não acabou. Um homem de inconfundíveis traços portugueses - o "senôr André", católico luso-siamês - dirigiu-se-nos com um sorriso de orelha a orelha e ali estivemos uma boa meia hora trocando impressões sobre a sua vida e falando dos seus antepassados "que um dia chegaram de Portugal". Ali vive, colado ao campo português, como viveram os seus pais, avós e bisavós, resistindo sempre e agarrado àquela terra que foi um dia o centro do povoado português no velho Reino do Sião..jpg)
No seu perfil, nas marcas profundas que lhe sulcam o rosto, na atitude altiva, queixo levantado e crucifixo ao peito, vejo um velho pescador da Nazaré, um habitante dos bairros populares do casco medieval lisboeta ou um daqueles lobos do mar que até há poucos anos partiam para a Terra Nova em busca do bacalhau. Este é um monumento antropológico vivo, o eco de um tempo em que estes homens serviam como remadores das barcas reais do Sião ou nas primeiras linhas dos exércitos de Ayuthia, batendo-se furiosamente em defesa desta terra que adoptaram e onde deixaram prole.
Quando o tempo terminou, regressados ao carro, o Senhor André seguiu-nos como quem acompanha familiares que há muito não via. Ao nosso Embaixador apertou demoradamente a mão e, depois, ali ficou parado, de largo sorriso acenando um adeus enquanto o carro partia. Foi um dia em cheio.
Minueto, Carlos Seixas

4 comentários:
Devias enviar uma cópia do texto ao MNE.
Obrigado por nos narrar esta bonita história de amizade entre dois povos!
Sou leitor assíduo do seu blog, embora não seja comentador. Hoje, não resisto de comentar para lhe agradecer as suas belas crónicas.
José António
Adorei o seu texto amigo Miguel
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