30 junho 2009

Grande vitória portuguesa na Tailândia


Há duas semanas aqui noticiámos o início das celebrações dos 500 anos da chegada dos Portugueses à Tailândia. O governo tailandês, através do seu MNE, fez chegar às Necessidades a intenção de comemorar em grande formato o mais antigo tratado de amizade entre um Estado europeu e uma nação asiática. À vinda de jornalistas portugueses convidados pelos tailandeses, junta-se a realização de um grande simpósio, hoje realizado em Ayuthia, capital do Sião até 1767 e onde se fixou durante mais de 200 anos um importante bandel português. Intitulado 500 Anos de Relações entre Tailandeses e Portugueses, o simpósio foi organizado pelo Departamento de Belas Artes de Silapakorn e reuniu um importante friso de historiadores tailandeses. As autoridades governamentais não deixaram de acorrer ao evento: o Vice-Ministro da Cultura, o Director Geral do Departamento de Belas Artes, o governador de Ayuthia e outros quadros superiores dirigentes do Estado marcaram presença, numa manifesta demonstração de interesse e apoio a todas as iniciativas que decorrerão a partir de hoje em solo tailandês evocando a chegada de Duarte Fernandes, enviado ao Sião em 1511 por Afonso de Albuquerque para estabelecer relações com o Rei do Sião.

Antes de se iniciarem os trabalhos, o embaixador António de Faria e Maya trocou demoradas impressões com as autoridades tailandesas e exprimiu plena adesão de Portugal à ideia de celebrações conjuntas que se desenvolvam em distintas linhas de investigação e permitam a participação de instituições dos dois países. Faria e Maya ofereceu aos representantes do Estado tailandês trabalhos historiográficos relacionados com as relações entre os dois países, não deixando de apontar com uma das prioridades a publicação de outros trabalhos, nomeadamente fontes documentais, que permitam o desenvolvimento de estudos subsequentes. O Vice-Ministro da Cultura e o Governador de Ayuthia corroboraram as palavras de Faria e Maya, afirmando que tudo se fará em conformidade com o plano que em breve será desenhado pelas duas partes e realizado com o maior empenho, profissionalismo e visibilidade.


Uma grande surpresa aguardava-nos. Julgámos tratar-se de uma reunião de académicos e quadros do Ministério da Cultura da Tailândia. Mas não, ao entrarmos no salão do hotel onde se realizou o simpósio, fomos confrontados com uma verdadeira multidão. Duas centenas e meia de participantes - professores universitários, uma mole de jornalistas, muitos estudantes universitários, investigadores, editores, funcionários do Estado, autarcas, operadores turísticos e curiosos haviam ocupado literalmente o vasto recinto para ouvir falar de Portugal. Pela perspectiva que oferecemos, sem maquilhagem e exercícios de estilo, aqui fica a imagem da grande simpatia que Portugal goza entre os tailandeses e a certeza que das celebrações de 2011 poderá abrir-se um novo e importante ciclo de relações que ultrapassam largamente a contabilidade comercial e assentam numa amizade recíproca jamais maculada. Portugal é, como aqui já o dissemos e repetimos, uma potência histórica, e tudo deverá fazer para se afirmar na Ásia dos nossos dias como um agente de aproximação entre o Ocidente e o Oriente. A boa imagem de que gozamos - com provas que ultrapassam largamente o interesse - é capital que outros jamais disputaram.

Os trabalhos iniciaram-se com uma palestra sobre os Portugueses e a Ásia, da autoria de Suprachai Yimcharoen, professor catedrático da Universidade de Chulalongkorn. O conferencista apresentou o quadro geral da expansão portuguesa, da costa de África ao Extremo-Oriente, seus demarcadores institucionais e administrativos, religiosos e culturais, afirmando peremptoriamente que Estado Português da Índia, de Goa a Nagasáqui, foi o grande agente de mudança no Oriente entre inícios do século XVI e meados do século XVII. A tecnologia bélica, a religião e o comércio de especiarias mudaram para sempre a face do continente. Seguiu-se-lhe a professora Bulong Srikanok, que desenvolveu com entusiasmo contagiante um verdadeiro recitativo das glórias portuguesas. Bulong, mais que uma historiadora, é uma verdadeira amiga de Portugal e possui assinaláveis predicados como divulgadora de qualidade que aplica em documentários sobre história da Tailândia. Ao terceiro conferencista, o padre católico Teerapan, coube enunciar a um público budista o vector religioso e missionário da presença portuguesa no Sião.

O campo arquelógico de Ayuthia mereceu duas intervenções. De Patipat Poompongpat, uma longa como bem humorada Investigação Arqueológica em Ayuthia, onde não faltaram hilariantes comentários sobre as atribulações por que passaram as ruínas do ban portuguet: chuvas, inundações e lama que misturaram os ossos do cemitério onde repousam duzentos dos nossos, numa tal confusão de restos que "as almas passaram um mau bocado para encontrarem os respectivos corpos". A análise dos despojos mortais indiciou que a generalidade dos sepultados morrera por padecimentos vários, à cabeça dos quais os surtos de varíola, mas também a insidiosa sífilis, "posto que nas proximiddes do bandel existiriam as casas de prazer da capital do Sião".Nós, os portugueses, rimo-nos a bom rir neste ambiente de descontração tão característico dos thais. Ao contrário de outras paragens, onde uma inibição quase doentia dos académicos asfixia o prazer de comunicar, aqui prevalece o sanuk - divertimento - e as mais chocantes revelações. Um dos arqueólogos afirmou sem qualquer reserva que durante os prolongados trabalhos de escavação, o maior temor que experimentou foi o de trabalhar com despojos humanos de portugueses, "não fossem estes segui-lo vingativamente de volta a Banguecoque". Para vincar o absoluto convencimento nas forças do além, afirmou em tom de brincadeira assertiva que "os cães da vizinhança uivavam em desespero sempre que um esqueleto era resgatado das entranhas da terra". Prapit Pongman, por seu turno, apresentou um estudo sobre os esqueletos, afirmando que as análises periciais demonstram tratar-se de europeus, rebatendo uma tese chinesa que afirmava terem pertencido os esqueletos a um velho cemitério chinês existente no local antes do estabelecimento do bandel português.

O dia terminou com uma visita de estudo ao campo português de Ayuthia, tendo como cicerone o arqueólogo responsável pelas campanhas dos anos 80. Após oito horas de trabalhos, os participantes deslocaram-se sem deserções ao velho bandel e entusiasmaram-se - como nós - pelas grandes melhorias entretanto realizadas: paredes caiadas de fresco, relva aparada, iluminação eléctrica restituída, limpeza dos baldios adjacentes.

Mas a história de Portugal na Tailândia ainda não acabou. Um homem de inconfundíveis traços portugueses - o "senôr André", católico luso-siamês - dirigiu-se-nos com um sorriso de orelha a orelha e ali estivemos uma boa meia hora trocando impressões sobre a sua vida e falando dos seus antepassados "que um dia chegaram de Portugal". Ali vive, colado ao campo português, como viveram os seus pais, avós e bisavós, resistindo sempre e agarrado àquela terra que foi um dia o centro do povoado português no velho Reino do Sião.

No seu perfil, nas marcas profundas que lhe sulcam o rosto, na atitude altiva, queixo levantado e crucifixo ao peito, vejo um velho pescador da Nazaré, um habitante dos bairros populares do casco medieval lisboeta ou um daqueles lobos do mar que até há poucos anos partiam para a Terra Nova em busca do bacalhau. Este é um monumento antropológico vivo, o eco de um tempo em que estes homens serviam como remadores das barcas reais do Sião ou nas primeiras linhas dos exércitos de Ayuthia, batendo-se furiosamente em defesa desta terra que adoptaram e onde deixaram prole.

Quando o tempo terminou, regressados ao carro, o Senhor André seguiu-nos como quem acompanha familiares que há muito não via. Ao nosso Embaixador apertou demoradamente a mão e, depois, ali ficou parado, de largo sorriso acenando um adeus enquanto o carro partia. Foi um dia em cheio.

4 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Devias enviar uma cópia do texto ao MNE.

Pedro Leite Ribeiro disse...

Obrigado por nos narrar esta bonita história de amizade entre dois povos!

Raimundo_Lulio disse...

Sou leitor assíduo do seu blog, embora não seja comentador. Hoje, não resisto de comentar para lhe agradecer as suas belas crónicas.

José António

M Isabel G disse...

Adorei o seu texto amigo Miguel