18 junho 2009

Generation Kill


Não sei se a série televisiva passou em Portugal e se o livro homónimo que a inspirou teve acolhimento entre o nosso público, mas trata-se indiscutivelmente de um excelente documento sobre a primeira fase da invasão e ocupação militar do Iraque. Num dos canais da tv tailandesa, tenho seguido com curiosidade os sete episódios de Generation Kill, dramatização dos acontecimentos de 2003.

Aqui sempre contestámos o rol de argumentos então invocados para legitimar uma agressão militar que se veio a revelar uma estúpida aventura movida pela cupidez das petroleiras. Aqui, também, soubemos sempre separar o valor incontestado dos militares norte-americanos num conflito que depressa passou a exibir todos os adereços de guerra urbana de baixa intensidade e, logo, de difícil resolução. O Pentágono poderia ter resolvido o problema do Médio Oriente em 2003, mercê de um ataque ao Irão e consequente neutralização militar da Síria e do Hezbolha no Líbano. Mas não o fez, pois os interesses plutocráticos que circulam nos corredores do lóbismo de Washington sobrepuseram-se a quaisquer formulações do problema da região vista à luz do meridiano pensamento geopolítico. A guerra, coisa de militares comme il faut, passou a ser negócio para merceeiros, empresas de segurança, concessionários e júris de concursos internacionais para atribuição de obras públicas.

Generation Kill demonstra as duas faces da aventura iraquiana. Não houve planeamento estratégico, nem planeamento logístico. O corpo de assalto ao regime de Saddam foi incumbido de penetrar profundamente num território hostil, desagregar as defesas iraquianas e atingir Bagdade para apresentar ao mundo uma vitória inapelável. A guerra foi feita com efectivos desadequados à dimensão do território, pelo que as pinças em célere deslocação em direcção à capital deixaram para trás - sem ocupação e controlo do território e das populações - vasto arsenal de armamento depressa apossado por civis e membros das milícias. Não houve planeamento político. Os norte-americanos pretendiam exibir na Operação Iraki Freedom os combatentes democráticos [iraquianos] que traziam no bornal. Estes "combatentes pela liberdade" não passavam, afinal, de simples renegados, aventureiros e canalha recrutada entre o lumpen. Os desmandos, a violência e roubos perpetrados por essa gente são emblemáticos da pior forma de fazer inimigos entre um povo em transe de aflição. Os sucessivos "governos" impostos pela administração norte-americana revelaram a que ponto os EUA levaram a atrevida inconsciência e impreparação dos "académicos" do think tank. Se razões ponderosas havia já contra o ensaísmo light dos "difusores da liberdade, da democracia e do mercado" - que raio de confusão - a loucura da Operação Iraque confunde-se com uma brincadeira de meninos dos cursos de geopolítica e geostratégia.

Outro aspecto que merece atenção é o perfil dos combatentes. A miúdagem americana enviada para o teatro de operações - vencendo prés que invejariam os mais bem sucedidos traficantes de esquina - não conhecia o terreno, nem os costumes e práticas locais, pelo que ali manifestou as características que fazem dos norte-americanos um povo estimado e odiado: crianças grandes e armadas privadas de elementar informação sobre a complexidade e diversidade dos povos. Estivesse a operação provida de aconselhamento psico-social elementar, a aversão dos iraquianos não teria atingido as proporções que assumiu. De libertadores, os ocidentais depressa foram encarados como mais uns invasores, na longa série de ocupantes que o território conheceu desde a Antiguidade.

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Não tenho qualquer pena. Os EUA devem pagar caro o que fizeram em 1979. Refiro-me ao Xá, claro...

Maldonado disse...

Cá em Portugal ainda não foi transmitida essa série.
Passou pela RTP 1 uma com uma temática idêntica:

http://a-terceira-via.blogspot.com/2009/03/over-there.html