22 junho 2009

Da burca e dos calções curtos


Sarkozy pronunciou-se pela pragmática do trajar à ocidental no Ocidente, recusando o relativismo civilizacional e afirmando que especificidades não cabem no corpo da república francesa. É a velha questão da soberania do Estado sobre os cidadãos que o liberalismo francês sempre afivelou. Não há cidadania sem o acatamento do império da lei, lei que é para todos e não tolera excepções. No discurso de Sarkozy está, sem tirar, tudo o que a Revolução impôs como dogma do contrato político: o Estado é a instância de autoridade certificadora e produtor de direitos e liberdades a os cidadãos se devem submeter, no pressuposto que a vontade geral produziu um determinado tipo de comunidade política organizada em Estado. Estas questões não se punham no tão insultado Antigo Regime, onde os súbditos detinham as liberdades decorrentes das suas especificidades - regionais, profissionais, religiosas - e delas podiam fazer uso conquanto não ofendessem a ordem pública.

A burca é um pretexto e não podemos exagerar-lhe a importância. Quem diz a burca, diz a djebala, a exibição de crucifixos ao peito, o kipá judaico, as botachas madeirenses ou a branqueta e o saiote dos sargaceiros da Apúlia. O trajo "europeu" é invenção da burguesia e não me parece que é no trajar que se pode ofender a ordem pública. Quando a vaga ocidentalizadora se abateu sobre os Estados em busca de respeitabilidade e reconhecimento pelas potências ocidentais, as autoridades locais impuseram a pragmática ocidental no trajar, da Turquia ao Egipto, do Sião ao Japão. Estar vestido à ocidental era exibir civilização.

Contudo, a verdade é que a burca passou a ser nos últimos dez ou quinze anos um elemento carregado de intencionalidade para quem o veste. Na Europa, quer dizer : "eu não me submeto às vossas leis", "sou contrária às leis que proclamam a igualdade da mulher e do homem", "a minha tradição específica está acima do império das vossas leis". É um declarado acto de provocação, sem dúvida, podendo ser interpretado como auto-exclusão e, até, recusa de um tipo de sociedade e dos valores sobre os quais esta se estabelece. No sudeste-asiático anterior à recepção do fundamentalismo islâmico, as mulheres há muito que haviam deixado de exibir os véus, os crepes e as máscaras. Só quando as multimilonárias fundações árabes iniciaram a política de difusão de um certo modelo de islão - o wahhabita - as falsas "raízes" do Islão voltaram a fazer moda entre populações com substrato absolutamente distinto do árabe.

Vejo, com frequência, aqui na Tailândia, milhares de turistas oriundos do Golfo. Eles, de calções e camisas de alças, cuspindo altaneiramente na tradição do "trajar à árabe"; elas, cobertas de negro da cabeça aos pés, com mascarilha ou véu, docilmente submetidas à tradição. Aqui reside a certeira crítica. Para o Islão dito moderno, a mudança é aceite pelos homens e para os homens. Para as mulheres, o chicote da tradição. Neste aspecto, Sarkozy tem plena razão. Felizmente, a "revolução islâmica" parece estar a aproximar-se do fim. Teve o seu período de expansão e contaminação, mas no seu elã não conseguiu evitar discutir com o mundo moderno aquilo que não é específico e local, mas universal. O Islão vai perder, pois não mais fez que agarrar-se desesperadamente a um tipo ideal sociedade e à mítica ideia a-histórica da superioridade da "civilização árabe". Podem estar certos que ainda veremos de novo as iranianas de calções e as muçulmanas do sudeste-asiático de cabelos ao vento. A hipocrisia acaba, sempre, por perder.

8 comentários:

Paul disse...

Quand les Français se gargarisent de "laïcité", les Belges disent "neutralité". Quand la France débat de liberté religieuse et autres masturbations intellectuelles, la Belgique n’autorise les masques que pendant le temps du carnaval. Pourquoi les Français raffolent donc d’histoires belges ? Un Belge répondra : "parce qu’elles sont faciles à comprendre". La vertu majeure de l’humour est d’asséner les vérités les plus cruelles, avec ou sans masque.

Carlos Pires disse...

Espero que tenha razão e que nos países islâmicos a mudança social também chegue às mulheres.

Mas enquanto isso não sucede... O que devem fazer os países ocidentais relativamente aos muçulmanos que cá vivem? Proibir os seus costumes?

Julgo que devem proibir alguns: como a excisão e o direito do marido bater na mulher. Não o fazer é cair num relativismo inaceitável. Podemos justificar a proibição arguementando com violações objectivas dos direitos humanos e dos interesses das mulheres - mesmo que elas eventualmente declarem não se importar.

Mas será o caso da 'burqa' e do 'chador'? Eu considero que se trata de roupa incómoda e humilhante para as mulheres. Mas não é possível estabelecer com tanta objectividade, como no caso da excisão, que há violação dos direitos humanos 8que de qualquer modo é menor).
Se algumas mulheres muçulmanas a viver em França disserem: queremos usar burqa, escolhemos usar burqa, o sr. Sarkozy terá o direito de as impedir? Impedi-las não será limitar a sua liberdade... em nome da sua liberdade?

Nuno Castelo-Branco disse...

OXALÁ!

Maldonado disse...

Concordo com a medida de Sarkozy, não obstante a controvérsia.
É uma questão de justiça prática: se os ocidentais que vivem em países islâmicos são obrigados a respeitar as leis, usos e costumes locais, então os muçulmanos deverão fazer o mesmo no Ocidente.
Quanto às outras questões, é tudo uma questão de opinião...

Nuno Castelo-Branco disse...

O Sarkas vai nomear "um dos nossos", o royaliste Mitterrand II, como ministro da Cultura. Lá se vai a parafernália republicana pelo esgoto abaixo.

Lura do Grilo disse...

Em Inglaterra os siks também quiseram continuar a usar o seu longo cabelo enrolado em cima da cabeça e andar de mota sem capacete. Não lhes foi permitido pois havia um conjunto de regras sobre a segurança rodoviária que tinham que ser cumpridas.

A burka é uma imposição (a cruz ao peito não é): submissão e posse de um ser humano pelo outro (com base no sexo). Associado à Burka está ainda a obrigação de caminhar na retaguarda. Não estamos no tempo da escravatura além de que esta prática prejudica a saúde.

Em locais públicos as mulheres não devem usar a burka até por razões basilares de segurança pois não é a primeira vez que criminosos tentam escapar debaixo dela.

João Amorim disse...

caro Miguel

.. em Roma sê Romano? Não será também hipocrisia a diluição das nossas vontades face às leis (e que leis)? Não vejo com bons olhos o carácter de "exaltação" para com a indumentária "islâmica" quando por todo o lado a referência a outras afirmações politico-culturais de cariz "africano", por exemplo, não levantam objecções.

Paul disse...

Sans masque, ni burka, Frédéric Mitterrand se dévoile dans un livre magnifique : "La mauvaise vie", paru le 23 mars 2005 chez Robert Laffont. Un chapitre entier, "Bird", est consacré à ses aventures bangkokoises. Trois jours avant, le dimanche 20 mars 2005, il livre ses confidences à Marc-Olivier Fogiel dans l’intimité de l’émission, alors vedette du PAF, "On ne peut pas plaire à tout le monde".