04 maio 2009

Revoltante paternalismo


Se o racismo é coisa repugnante que sintomaticamente só parece agarrar seguidores entre os mais desclassificados elementos de uma raça - os que maior número de dúvidas carregam a respeito das suas qualidades individuais, escudando-se numa confortável generalização para não terem de se olhar ao espelho - esse outro racismo que dá pelo nome de paternalismo é revoltante, pois estriba-se num preconceito de superioridade escondido que trata de olhar com altaneira bonomia as restantes raças. Se um é brutal, o outro é hipócrita; se um é grosseiro, o outro é artificial; se um é reles, o outro é mentiroso.

A campanha promocional de Obama e da sua mulher - já tida como cânone universal de beleza - é dessas coisas que fazem o retrato acabado da falsidade instituida como regra. O pensar correcto é, sempre, uma violação das diferenças constitutivas e enriquecedoras da humanidade, pelo que lavrar elogio (ou o seu oposto) a respeito de um homem pelo facto de ser negro, amarelo ou branco constitui insulto ao homem singular e intolerável demonstração de minimização do grupo étnico a que este se vincula por nascimento. Obama terá de ser julgado, elogiado ou contestado pela obra que fará, não por ser negro. O nóvel presidente ainda nada fez, mas as sirenes do paternalismo trompeteiam aos sete ventos os mais descabelados e irrazoáveis panegíricos. A verdade é que, se Obama morresse hoje, nada teria para deixar e dele só ficaria a nota - absolutamente irrelevante para um não-racista - por haver sido o primeiro presidente negro da história do Ocidente.

A ignorância tem destas coisas, pois lembraria aos mais afoitos paternalistas que Portugal teve no século XVI os primeiros bispos negros, no século XVII um grande diplomata e príncipe das letras que dava pelo nome de António Vieira - mulato muito escuro - e no século XVIII o primeiro primeiro-ministro misto da Europa. Obama passa, assim, como produto promocional sem novidade, apenas tido como excepção para os ignorantes da história portuguesa. Lembro que Ronald Daus - historiador de grande foôlego infelizmente pouco conhecido do público português - estudou durante décadas a antropologia racial portuguesa dispersa pelos azimutes do planeta e chegou a conclusões espantosas. O império português foi, durante séculos, mantido, regido e administrado por negros, indianos, chineses, mistos de todos os cruzamentos e até, pasmem-se os ouvidos pudibundos, por escravos. Foi esse o segredo da nossa longevidade. Ao quebrá-lo, em 1820, com a invenção da cidadania - e depois, com a criação das colónias e províncias ultramarinas, acto de estupidez a reboque o colonialismo europeu - perdemos essa grandeza que nos fazia detestados e temidos pelos inimigos de Portugal.

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Miguel, eles são burros que nem portas. Não percebem patavina daquilo que dizes. Quando me refiro a "eles", sabes bem de quem falo. No Brasil ou até na Indonésia, percebem-te melhor.

tribunaonline.net disse...

Excelente post, como habitual.