06 maio 2009

Racismo e xenofobia: dois fenómenos raramente associados


Desde há alguns anos que o disparate é repetido dia e noite pelos palavrosos da estupidez culta: "racista e xenófobo", "racismo e xenofobia" surgem amiúde como sinónimos ou com grau de parentesco que lhes garante a quase homonimia. Porém, raramente o racismo vive associado à xenofobia. Há pessoas racistas - aquelas que acreditam na superioridade de uma raça - que não são xenófobas, pois é entre os racistas que se encontra o maior número de xenómanos. O racista vê as sociedades a partir de um identificativo biológico, presumindo que as características psicológicas, a inteligência, a cultura e as instituições são mero complemento de uma diferença biológica - e ontológica - que separa e diferencia pessoas. O racista vê, pois, as sociedades a partir de uma categoria subordinante, desvalorizando as diferenças culturais. Um racista branco associa o Ocidente à tez clara, dita "caucasiana", relegando a dimensão cultural da diversidade "caucasiana" para um patamar secundário. Um racista branco vê em qualquer branco um indivíduo que carrega o peso genético da superioridade, seja este finlandês, grego, irlandês ou romeno. O racismo, enquanto doutrina, é universal na presunção da unicidade dessa característica sobredeterminante. O grande sonho dos racistas novecentistas foi o de destruir o nacionalismo e as pátrias, substituindo-os por uma irmandade racial. No fundo, quando os nazis proclamavam a necessidade de um Estado racista - o Estado ao serviço de uma raça - faziam-no com claro propósito de juntar os brancos sob uma bandeira. Neste particular, o maior inimigo do nacionalismo europeu do século XX foi o nazismo. Só se pode afirmar adepto do nacionalismo e do nacional socialismo quem nunca leu ou sequer meditou por dez segundos sobre esta contradição nodal.


A xenofobia, por seu turno, atém-se, sobretudo, a características culturais como elemento justificador da superioridade de uma cultura sobre as restantes. A xenofobia pode ser mero movimento defensivo - um fechar-se sobre a sua especificidade, o medo de se tornar outro ou o terror de se dissipar - mas pode também ser atitude expansionista pretendendo que os outros sejam como nós, convertendo-os à cultura do nosso grupo. Há sobejos casos daquela xenofobia defensiva para que com eles nos prendamos. Cito, ilustrativamente, os thais, os birmaneses, os zulus, os chineses e muitos outros povos que foram confrontados com forte desafio à sua integridade cultural e que criaram uma identidade defensiva e agressiva face aos estrangeiros. Os thais, por exemplo, parecem ser xenómanos, mas a sua estratégia de sobrevivência enquanto "Sociedade Antiga" foi, sem contradição, a de adoptarem adaptando à cultura thai tudo o que precisam para manter a sua diferença. Só quem nunca meditou sobre isto poderá querer ver na "ocidentalização" - que joga com Estado moderno, constituições, separação de poderes, lei escrita, democracia, direitos humanos, economia de mercado, etc - uma aspiração nodal da sociedade thai. Eles sabem fazer fachada. Como dizia Mongkut (Rama IV), há que oferecer aos farangues (europeus) uma bela montra com tudo o que eles estimam marcas de civilização [ocidental], por forma a que eles [farangues] nos deixem em paz.

Porém, a outra xenofobia, é assunto que nos toca de perto. Os portugueses não são nem jamais puderam compreender o racismo. Fomos, sempre, uma tão grande mescla de sangues e cargas hereditárias que tornaram o racismo uma coisa abstrusa. Temos no sangue resíduos de celtas, latinos, árabes, berberes, judeus, negros, chineses, japoneses, índios e australóides que nos impedem de proferir o palavrão horrendo do racismo. Portugal foi, sempre, xenófobo. Não gostamos dos estrangeiros, pronto, e só os queremos se gostarem da nossa cultura, da nossa língua, da nossa maneira de estar e viver; isto é, só os queremos se quiserem fazer parte de nós. Aliás, o que é a ideologia da expansão portuguesa senão esta afirmativa e obstinada vontade de universalizar a cultura portuguesa ?

Os ingleses, os alemães, os espanhóis e os holandeses - sim, aqueles que pela voz de Hugo Grócio consideravam os portugueses inferiores "pois até se misturam com os animais" - são racistas. Por seu turno, os portugueses não são racistas, mas são absolutamente xenófobos. Entre nós não se vislumbra o menor vestígio de curiosidade intelectual face ao estranho. O português só fala de coisas portuguesas, só lê, investiga e produz obra que tenha a ver com Portugal e aqueles que parecem xenómanos fazem-no, estimo, só por afectação. Por isso, nunca desenvolvemos escolas de linguística, nunca tivemos orientalismo profundo, nem arquelogia virada para o mundo, nem teoria sobre as artes, nem Filosofia. Somos como os Judeus. Temos a ideia de uma vaga fraternidade universal, abraçando todos os homens e todos os continentes, uma derradeira esperança de paz e concórdia entre os homens. Essa ideia dá pelo nome de Portugal ou, agora, de lusofonia. É por isso que nunca seremos tribalistas, racistas, europeus. Somos ocidentais porque o nó dessa civilização - o cristianismo - cedo foi utilizado pelos portuguses como característica indissociável do ser e destinação de Portugal. Sempre quisemos dar exemplos ao mundo. Que maior prova de xenofobia senão essa ? Só não o vê quem não quer: os racistas xenómanos e os escravos da estupidez inteligente.

5 comentários:

NanBanJin disse...

Finalmente, alguém que soube com impecável poder de síntese tratar este assunto EXACTAMENTE como ele tem de ser tratado, a dizer o nome das coisas como elas REALMENTE são.
O meu mais sentido aplauso.

L.F. Afonso, NanBanJin,Fukuoka, Japão.

Nuno Castelo-Branco disse...

Limito-me a um copy-paste do comentário anterior:

Finalmente, alguém que soube com impecável poder de síntese tratar este assunto EXACTAMENTE como ele tem de ser tratado, a dizer o nome das coisas como elas REALMENTE são.
O meu mais sentido aplauso.

Jacinto disse...

Um texto luminoso.
Será atrevimento meu,ou perpassa aqui "um pouco" de António José Saraiva?
Cpmts.

João Pedro Ferrão disse...

Mas que grande texto! Conseguiu finalmente explicar-me o porquê de ser tão difícil encontrar traduções para português de textos chineses, japoneses, sânscritos, sumérios, entre outros, a partir do original.

Freire de Andrade disse...

Exactamente. Era o que eu já pensava sem o saber definir tão bem.