10 maio 2009

Que bom não poder votar

Parece que as eleições para o Parlamento Europeu se realizam dentro de semanas. Por mais que tente compreender a finalidade de tal ajuntamento multitudinário de pequenos políticos pagos regiamente para fazer pouco mais que nada, ainda não consegui lobrigar a utilidade de tal orgão, pois a Europa não é uma democracia, mas uma sinarquia servida por uma oligarquia de quase inimpútáveis colarinhos brancos e novos príncipes eleitores que fazem a bel prazer o que lhes vai na plebeia veneta. Aliás, a Europa não tem um rumo, uma ideia mobilizadora, como também não tem liderança. A Europa da União é um caos que só se explica pelos imensos privilégios que foi argamassando, distribuindo e mantendo. A União é um aquário. Vive fora do mundo, da vida e do quotidiano das pátrias, das sociedades e das pessoas. Como um deus louco, vai produzindo torrentes de papel, animando debates que ninguém segue e ficcionando uma união que só se explica pela indiferença que lhe votam os centos de milhões de europeus. Aquilo foi crescendo como um tumor, já não tem forma, já não tem objectivos, nem obra, nem sequer um estilo.

Falam-me de "famílias políticas". Quais famílias ? Que convergência haverá entre um eurodeputado português e um sueco, um eslovaco ou um búlgaro ? Só há, por ora, uma coisa em comum: o Euro. Ora, não é uma moeda que faz a união. Todos sabemos como essa adesão foi negociada e imposta, o mal que fez às economias, às bolsas individuais e às políticas nacionais, submetendo-as a diktats absolutamente neocoloniais. Formal e tecnicamente, a União impôs a figura do protectorado. Hoje, dessa União já não se pode sair, como ninguém se pode furtar às suas exigências e caprichos, à sua errância e improvisos. Mas por esta União ninguém está disposto a morrer. Acreditei, durante muito tempo, num império pacífico. Mas a um império faz falta espírito. Ora, a Europa dos eurocratas não é coisa pela qual valha a pena empenhar um botão, muito menos a vida.

Por mim, se fosse decisor político português, deixava a coisa correr, mas ia preparando outra vida fora da doentia ficção. Há tanto onde podemos intervir, negociar, encontrar parcerias. Fazer uma diplomacia absolutamente autónoma, aprofundar a lusofonia, incentivar e precipitar a bilateralidade - se possível com os Estados considerados indesejáveis e alvo da mania das sanções europeias - favorecer (como outros fazem) a fixação de capital e investimentos de terceiros no espaço português europeu, permitindo a chineses, coreanos, japoneses e americanos competirem dentro da fronteira económica sob bandeira portuguesa. Assim, talvez, essa Europa dos dinheiros e das bizantinas discussões que só nos penalizam pudesse trazer alguma vantagem. De outra forma, nem vale a pena votar.

6 comentários:

António de Almeida disse...

Caro Miguel Castelo-Branco, imagine o que significa poder votar em alguém que assume ir apenas "picar" o ponto, ou que o dinheiro do Estado pertence ao PS.

http://jn.sapo.pt/paginainicial/Nacional/interior.aspx?content_id=1226299

cristina ribeiro disse...

Estou nessa. Votar? Não sei, não...

Nuno Castelo-Branco disse...

Andamos a dizer o mesmo há 25 anos e se altura éramos considerados como uns "miúdos imbecis", hoje tentem provar que não tínhamos e temos razão...?

Nuno Castelo-Branco disse...

Andamos a dizer o mesmo há 25 anos e se altura éramos considerados como uns "miúdos imbecis", hoje tentem provar que não tínhamos e temos razão...?

DMSR disse...

Entre a Suécia e a Bulgária nem há nada em comum (ambos possuem moeda própria) e a Eslováquia tem o euro há 5 meses.

Cumprimentos

Combustões disse...

Em suma, coisas importantes como o dinheiro !