07 maio 2009

Naufrágios


As fotografias têm muito que contar. Nelas, o tempo parece ter-se imobilizado, mas a enganadora ilusão depressa se desfaz quando a nossa curiosidade em saber o fim da história nos leva a sair da imagem e saber o que aconteceu aos fotografados depois de se fechar a retina da câmara. As fotografias contam vidas, alimentam memórias mas são também excepcionais documentos históricos que raramente enganam aqueles que têm o olhar treinado para as imagens. No caso vertente, a história é memória vivida. Recebi-a do meu irmão Nuno, que as vai guardando como o fogo que os romanos, nossos bisavós, levavam do Lácio para os novos lares nas distantes províncias de colonização. Olho para o retrato de família, tirado em 1970 pelo meu Avô paterno e vejo o Nuno, a Ângela, o Pedro, a Paula sentada nos meus joelhos. Foi na Namaacha, pequena vila fronteiriça perto da Suazilândia, para onde os meus avós se mudaram para aí gozarem os anos da reforma. Como na vida raramente podemos prever o futuro, os meus avós não gozaram na Namahacha o sossego a que aspiravam, nós não ficámos na terra em que havíamos nascido e os nossos caminhos foram brutalmente atalhados pelo imprevisto. Parece que neste retrato dos juvenis da família vejo tantas fotos que fazem dos anos 30 do século passado uma sofrida deambulação pelos sendeiros do sofrimento e de vidas mutiladas pelas tragédias da história. Parece que nela revejo os últimos sorrisos antes da catástrofe iminente, que ninguém previa, muito menos as crianças fotografadas. Quatro anos antes do fim, antes de perdermos o direito à pátria, antes de nos separarmos pelas partidas do mundo. O belo jardim transformou-se num matagal, a casa foi escalavrada, os seus moradores empurrados para a valeta da história. Parece que me vejo metido à força num daqueles contos sem esperança e sem apelo de Virgil Gheorghiu.

5 comentários:

Margarida Pereira disse...

Amo fotos do passado...
Lindos, todos. E tão felizes ali...
Obrigada pela partilha...

Nuno Castelo-Branco disse...

Lembras-te dos guardas fronteiriços de Sua Majestade Shobuza II da Suazilândia? Mesmo ao pé da casa dos avós, separados de nós por uns postes com uma vedação de arame normal, por onde até um bucha passava... Muitos sorrisos e tá-tás* . Vestidos com os trajes tradicionais dos zulus e umas lanças. A bandeira deles, linda e tipicamente africana, com o escudo dos guerreiros. Outro tempo, infinitamente melhor que a África de hoje.

* tá-tás: acenos com a mão dizendo olá ou adeus.

cristina ribeiro disse...

Mais uma página da Tribo Branca da África Oriental, como sempre cheia de história...

cristina ribeiro disse...

P.S Comecei a ler o « Combustões » quando publicava essa série, e fiquei desde logo cliente porque sempre gostei do registo memorialista :)

Jose Martins disse...

Tenho um amigo, o jornalista Helder Fernandes, da Rádio Macau, hoje um rapaz na casa dos 60, que continua dentro do saudismo de Moçambique.
O Helder nasceu lá e as suas raizes jamais se apartam dele.
Não nasci lá mas corri o território desde a Ponta do Ouro ao Rovuma.
Fiz, em 1969, guiando um camião basculante, mais outra meia dúzia de maduros, como eu, do Bilene até Macomia, a fronteira dos Macondes e os Macuas, 21 dias a guiar por picadas e estradas do diabo.
De quando em quando (ainda há poucos dias) por e-mail recordamos coisas de Moçambique, ao calha que podem ser as "catembes" bebidas nos bares do Alto Maé (que ainda as bebe em Macau e levou para lá a moda); as noites meias-loucas da Rua do Araújo e vamos por aí acima até à Baia de Pemba e acabamos em Mocimboa da Praia.
O Helder correu Moçambique de lés a lés, como eu, como reporter do Rádio Clube de Moçambique. Lembranças que nos ficam e jamais saiem de nós...
É o feitiço, de África, que se embrenha em nós e não sai!
River Kai 10.05.09