14 maio 2009

Ficamos sempre de fora ou "caramba, o que andamos a fazer neste mundo ?"

Visito com assiduidade as exposições de artes plásticas que aqui se realizam, pois não há melhor forma de apreender o espírito de um povo ou de uma época que a de lhe conhecer os sonhos, fixações, pesadelos e recorrências expressas pelos artistas. Entrei hoje, após as aulas, no Bangkok Art and Culture Centre, para percorrer as galerias da Segunda Trienal Internacional de Artes Gráficas, promovida pela Universidade de Belas Artes de Silpakorn e patente desde anteontem ao público. Mil trezentas e oitenta e três obras expostas, duzentos e oitenta artistas e oitenta e nove países oferecem uma vasta panorâmica do que pelo mundo se vai fazendo neste domínio profundamente disputado pelas indústrias da publicidade e informação.


Obras soberbas, umas carregadas de azeda ironia, outras verdadeiros manifestos aos gritos, outras ainda de onírica fuga ao mundo cada vez mais igual, cada vez menos mágico em que a globalização do espírito e mercantilização se vão impondo como uma doença. Procuro, em vão, Portugal. Pelo caminho, lá estão autores sérvios, gregos, lituanos, japoneses, indianos, britânicos, chineses, australianos. Até a Eslováquia, a Bulgária e a Roménia - países riquíssimos como se sabe - não quiseram faltar à chamada. De Portugal, nada.

Não estava, pois pedi o catálogo e percorri com o dedo a relação de países e artistas. Nada. Perguntei a um dos organizadores como fora promovida a mostra internacional. Disse-me que os ministérios que tutelam a cultura são informados com dois anos de antecedência e que cabe aos países escolherem os seus artistas. A Tailândia não é propriamente o Alto Volta, o Bophuthatswana ou a Moldova: é um dos mais disputados palcos do competitivo mercado mundial de arte e uma ponte entre o Ocidente e o Oriente. Ora, com tantos "observatórios" das artes à solta por Lisboa, parece-me no mínimo vergonhoso que de Portugal não viesse uma só obra candidata ao galardão. Mais, o responsável disse-me que as obras são enviadas ao cuidado do Estado tailandês, com seguros pagos pelos thais e protecção contra todos os riscos cobertos pelos organizadores da efeméride. É triste, revoltante, amesquinha-nos, cobre-nos de ridículo esta invisibilidade de Portugal em tudo. Parece estarmos, decididamente, apenas despertos para as futeboladas. É assim que vamos desaparecendo, indigna e miseravelmente, da vida internacional. Somos as folhas mortas da Europa. Caímos da árvore e já não dão por nós. Depois, pensei, a ausência tem uma explicação. O convite deve ter sido enviado para Portugal. Foi aberto por uma dessas mulheres (ou homens) insignificantes e quase iletrados que, de artes, só sabem da existência daquela Feira da Ladra de Madrid - a Arco - e da Tailândia só conhecem o tal resort em que passaram umas férias de quatro dias trancados entre a praia e as compras. Com autoridade pontifícia terão atirado a coisa para o cesto de papéis e partiram para uma importante inauguração de aguarelas promovida pela câmara de Cestas de Cima. O resto não interessa.


Les Feuilles Mortes (Charles Aznavour)

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

ehehehehehehehehehehehe, é uma grande verdade!

nunokyoto disse...

É verdade. Foi esse o panorama que tive oportunidade de assistir aí, com raras excepções. Mesmo nas "simples" mostras de trabalhos de finalistas de pintura, gravura, escultura, fotografia, projectos de arquitectura que decorriam em átrios universitários e cafés ou mesmo no National Convention Center, surgiam regularmente trabalhos bastante criativos e alguns de excelente qualidade. Agora de volta ao "puto", fico com a ideia de que a maior parte do que se mostra por cá não são artistas escolhidos pelas suas obras, mas NOMES, produzidos na américa ou no centro da europa (ainda que a origem possa ser diversa) e depois enviados em pacotes para consumo em mini-mercados provincianos (tipo Cestas de Cima) que optam por vender produtos seleccionados por outrem, "um estrangeiro", de preferência francês, inglês ou americano.
Quanto à divulgação de eventos como esse... tenho a ideia de que a maior parte das nossas instituições sofre de uma disfunção sistémica que prende na teia da sua mole de funcionários anónimos qualquer asunto que seja suspeito de poder vir a incomodar a sua santa inércia. O culto do nada vale a pena, muito menos a mudança ou o arriscar, parece ser típico do funcionário que se eterniza na sua cadeirinha e que já sabe tudo, mesmo antes de ver.
O quê? Arte? Tailândia?!? Nunca se viu! Nunca se fêz...

Não vale a pena esperar pelos veículos oficiais.
Obrigado e bem hajas.

Luís P. disse...

Absolutamente!

Mas um país que não tem representação do Instituto Camões em Madrid (em Madrid, Senhor! Em Madrid!), não me admira que não se faça representar em parte alguma do mundo... Infelizmente!

Já para não falar do abandono a que, desde 75, votou os territórios do seu antigo ultramar! É uma vergonha que todos carregamos pelo sangue e pelo passaporte! Mas - há que acreditá-lo! - há-de ter um fim! Aguardemos.

Abraço