18 maio 2009

A fatalidade histórica do Ceilão: o português Fonseka derrota os comunistas



Finalmente, a brutal guerra que os Tigres Tamil impuseram ao Sri Lanka chegou ao fim. De um lado, o Estado da maioria cingalesa, budista e de grande abertura à realidade multiétnica que tanto faz lembrar a generalidade dos Estados do sudeste-asiático; do outro, os secessionistas hindús Tamil, cuja proverbial agressividade e brutalidade, o nacionalismo paroxístico e uma vaga ideologia inspirada no "socialismo revolucionário" e numa "sociedade sem classes" era vazado da fôrma do sovietismo com aclimatação tropical. Foram décadas de assassinatos, bombas, massacres e escaramuças. Os Tigres Tamil socialistas tiveram sempre o beneplácito concedido aos "movimentos de libertação" pela imprensa bem-pensante ocidental: quando perpetravam os mais repugnantes banhos de sangue, os noticiários calavam; quando sofriam retribuição das forças governamentais, o carpideirismo excedia-se em campanhas de solidariedade, pressões sobre o governo e outras formas bem conhecidas de chantagem. Como pode o Ocidente condenar o terrorismo se abre tantas excepções, do Curdistão ao Sri Lanka, do País Basco à da Irlanda do Norte, do Saara Ocidental ao Kosovo e ao Nepal ? Certamente, a factura retardada de tanto patrocínio dada durante anos às "justas causas" tornou-nos campeões da duplicidade; logo, indignos de lavrar protesto.

As forças armadas cingalesas mataram hoje Velupillai Prabhakaran, impiedoso comandante dos Tigres. Prabhakaran escudava-se no argumento do catolicismo da sua família para ganhar simpatias entre os desinformados no Ocidente, mas é evidente que o seu movimento não fazia a mais leve alusão ao catolicismo, antes pugnando por um Estado homogéneo submetido à tradição hindú. Ainda há dias aqui alinhavámos algumas reflexões sobre a mediação de última hora tentada pelo sueco Carl Bild, conhecido caixeiro viajante das causas justas. É evidente que essa mediação era ditada pelo desespero. Era como se alguém tentasse uma intermediação entre os Aliados e Hitler em Abril de 1945 ! Por detrás dessa arremetida benemérita estava, claro, a intenção de agradar à Índia, nova gruta de Alibabá dos investments, opportunities e demais nobres modalidades com que o Ocidente exporta empresas, abre mercados e explora e faz milhões. Felizmente, o Sri Lanka não se deixou vergar. As suas forças armadas venceram metro a metro o inimigo, derrotaram-no inapelavelmente e - contradição das contradições - lançaram grande campanha de apoio às populações tamil utilizadas como escudos humanos pelos bravos Tigres. O grande vitorioso desta contenda, o artífice desta paz pela vitória sobre o terrosrismo, é Sarath Fonseka, Tenente-General cingalês de ascendência portuguesa. Deve ter por antepassado um desses "casados" que viveu, deixou prole e combateu por Portugal até ao fim da nossa presença (1505-1658). Estes Fonsecas, Sousas, Britos e Silveiras, capitães ou simples soldados deixaram sulco profundo. Quando sobreveio a invasão holandesa, estes "burghers" refugiaram-se no centro montanhoso da ilha e mantiveram desafiante atitude para com os ocupantes. Depois, regressaram à costa, instalaram-se e ensinaram os holandeses a falar o português, língua franca do Índico entre os século XVI e XIX.

Aqui está um caso em que Portugal poderia tomar posição, explorar esse veio de dedicação e memória, estreitar laços e ganhar vantagem. Haverá quem o queira ou saiba fazer ?

8 comentários:

Luís Bonifácio disse...

Não se esqueça dos "Fernandes", também conhecidos pelo nome de Bandaranaike (Pai, Filha e Neta)

Nuno Castelo-Branco disse...

Achas que esta gente sabe sequer o que é o Ceilão, nome caído em desuso por "colonialismo"?
Precisávamos de uns dois ou três Fonsekas por cá, a lembrar os valorosos que tanto resistiram em Colombo (1641).

cristina ribeiro disse...

Momentos que nos lembram que os portugueses passaram ainda além da tapobrana.

PubEd disse...

Esse general pode ser português, ou de ascendência portuguesa. Mas, pelo que se lê acerca dele e da imagem que tem no país, não nos deve encher de orgulho. A começar pelas afirmações que faz acerca de como se deve governar o país e quem o deve governar…
Por mim, não me deixa orgulhoso de partilhar o mesmo sangue…
Defende que os da sua etnia, porque representam 75% da população, devem ser quem governa. E, quando às minorias, podem viver no Sri Lanka, desde que obedeçam à maioria!
Por mim, portugueses destes não, obrigado!
De resto, o seu trabalho é bem fundamentado e bastante informativo, obrigado pelo que nos vai trazendo.

João Pedro disse...

O "socialismo" dos tigres tâmil era um artifício para ganhar o apoio dos países comunistas nos anos oitenta. Por trás, o que estava realmente era o nacionalismo extremo e fanático de um tirano que só a morte travaria. A causa dos tâmil poderia à partida ser justa, mas a vaga de mortandade que lençaram tirou-lhes qualquer razão. São os percursores dos atentados suicidas, depois copiados pelos islâmicos. tiveram a sorte costumeira: passados pelas balas, e nem a cápsula de cianeto conseguiram usar.
Uma discordância ao texto: a Índia há uns vinte anos que não lhes prestava qualquer apoio, pelo contrário, e isso acentuou-se ainda mais com o assassinato de Rajiv Gandhi. Ironicamente, no mesmo fim de semana em que acabou a saga dos tigres, o partido do congresso, da viúva e filho de Gandhi, reofrçou a maioria nas legislativaas.

Nuno Castelo-Branco disse...

Quem diria que hoje em dia, olho com alguma simpatia para o partido responsável pela invasão de Goa, Damão e Diu? Sinceramente.

Jose Martins disse...

Pretendo deixar aqui um esclarecimento ao Miguel.
Em 1980 corri Sri Lanka desde Colombo, a Baticola, Jafna e um pouco mais ao norte até Kenkansanturai (nominado KKS).
Sri Lanka o antigo Ceilão está cheio de nomes portugueses inclusivemente as lojas ou oficinas.
Nomes mais vulgares são os Sousas, Gamas e outros de portugueses de quando permaneceram na Ilha da Canela.
No Ceilão ficaram largas tradições dos portugueses onde se contam peças de teatro e 274 palavras adaptadas à sua linguagem.
Embora 1980 a paz fosse relativa notei os odios entre os singaleses e os tamiles.
Recomendo o livro se não está esgotado: "Portugal na História e na Arte de Ceilão - Tombos of Ceylon (Arquivo Histórico Ultramarino) - Ceilão e Portugal - Relações Culturais" De B. Xavier Coutinho - Lisboa 1972.

scheeko™ disse...

E passado pouco mais de um ano, o General Fonseka foi preso, condenado e destituído de todas as suas condecorações...