11 maio 2009

Nepal (I). A Europa e China especializam-se na deposição de monarquias


Nunca compreendi a misteriosa deposição do rei Gyanendra do Nepal. Durante anos acreditei na versão propalada aos sete ventos da implicação do Rei no massacre ocorrido no palácio real de Narayanhity, banho de sangue que ceifou a vida ao anterior monarca Birendra e filhos. Surgiram na imprensa sensacionalista e nos escaparates obras provando o criminoso complot de Gyanendra. Contudo, da leitura de Blood Against the Snows, de Jonathan Gregson, revelou-se-me um Gyanendra absolutamente diferente daquela caricatura de cínico invejoso e brutal que depressa passou a doutrina da imprensa manipuladora e trituradora de reputações. Gyanendra foi sempre um íntimo colaborador do seu irmão Birendra, nunca mostrara apetência e interesse pela vida política e disso fazia alarde. Acresce que é homem de cultura e formação académica provada - foi aluno dos Jesuítas e de Eton - um trabalhador esforçado - já rei, dedicava às suas funções dezasseis horas por dia - e um homem de sucesso em todas as actividades empresariais a que se dedica, motivos suficientes para dele fazerem objecto de inveja e suspeição. A rainha mãe - sua mãe e do defunto Rei Birendra - afirmou que a simples suspeita do envolvimento do filho Gyanendra em qualquer atentado era uma mentira e uma monstruosidade. Que mãe neste mundo o afirmaria de forma tão peremptória ? Gyanendra, já entronizado, mostrou sempre grande dor quando confrontado com os trágicos acontecimentos e recusou sempre fazer do palácio a sua residência. Importa aduzir algo que se revela transparente em toda esta história de difamação. Gyanendra tem um filho, Paras de seu nome. Ora, logo que Gyanendra foi entronizado, o príncipe Paras foi alvo persistente das mais soezes e violentas calúnias, estratégia de intoxicação que aqui também conheço a respeito de um príncipe thai e que visava, tão só, impedir que a sucessão dinástica ocorresse caso Gyanendra falecesse. De facto, o paralelismo é motivo de analogia e dos mais negros prognósticos !

Ao longo da última década, o Nepal fora assolado por uma vaga de violência perpetrada pelos maoístas supeditados por Pequim. Ora, numa guerra sem resolução à vista, importava diminuir o peso da instituição real, destruir o prestígio do monarca e reduzir-lhe a capacidade funcional. Alguém terá sugerido que o Rei era um entrave à instalação da democracia, do mercado e do investimento estrangeiro. Para isso, o Partido do Congresso, pró-Ocidental (ou seja, pró-Índia) abandonou o governo, obrigando Gyanendra a chamar a si responsabilidades executivas. O Rei caíra na armadilha. Era, a partir desse momento, Rei e responsável pelos acidentes da governação. Os maoístas rejubilaram. Se o Rei falhasse, falhava como governante e como Chefe de Estado. Não deixa de ser sintomático o facto de, durante o seu curto reinado como "ditador", a União Europeia fazer tábua-rasa da cultura diplomática e envolver-se na refrega, tomando partido dos opositores do Rei, recusando-se os representantes da UE comparecer em quaisquer actos públicos protocolares a que o Rei acudisse e, até, lavrando repetidas ameaças. É assim que a EU trabalha na estratégia chinesa de apossamento dos Himalaias. Em troca, ganha concessões nos faraónicos concursos internacionais para auto-estradas, telecomunicações, barragens e outros projectos de Pequim.

Uma dor de cabeça para os europeus e chineses é como se podem definir os primeiros actos de Gyanandra como Rei do Nepal. As forças armadas lançaram grandes operações militares e quase levaram os guerrilheiros ao colpaso. Aos maoístas não mais restava que negociar com os partidos "democráticos" - fora do governo; ou seja, do acesso à corrupção - para realizar uma coligação anti-monárquica que surgisse aos olhos do mundo como solução de paz. O acordo de batidores foi feito e os "partidos democráticos" exigiram ao Rei que lhes devolvesse funções executivas. O Rei acedeu e, logo, maoístas e "democráticos" começaram a falar no fim da monarquia como solução para um governo de união nacional. O Rei foi deposto, a república implantada sem referendo. Contudo, "democráticos" e maoístas depressa perderam o inimigo comum, entrando em rota de colisão. Os recentes acontecimentos provam que o Nepal se abeira de um novo período de grande instabilidade e violência. Apoiados pelos chineses, os comunistas vão tentar impor um Estado comunista. Apoiados pelo Ocidente, agora já dubitativo do milagre chinês e em viragem para um novo oásis de prosperidade e negócios na Índia, os "democráticos" vão tentar destruir os maoístas.

De fora está o Rei deposto e a sua família, agora sempre rodeados de grande simpatia popular em todas as ocasiões em que se propicia o encontro do povo com a sua família real. Ou estou muito enganado, ou Gyanendra vai ser assassinado ou vai ser, de novo, o Rei do Nepal. Esperemos.



Para saber mais, ler com atenção as entrevistas dos líderes monárquicos no sítio web do Rastriya Prajatantra, partido monárquico do Nepal.


Potpourri música nepalesa

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Seria melhor ir passar umas férias por período indeterminado. Na Tailândia, onde estará protegido. Não estranhemos muito se um dia destes os do costume - com o beneplácito da mastronça "UE" - o eliminarem. Como aconteceu no Laos. No Camboja a monarquia foi restaurada, mas a que preço?

* Desejo uma esmagadora derrota da "Europa" nas próximas eleições. A abstenção é uma boa ideia.