29 abril 2009

Os peritos em ingerência


O governo do Sri Lanka recusou concessão de visto de entrada a Carl Bild, ministro sueco dos estrangeiros, invocando parcialidade, intromissão nos assuntos internos e violação do código deontológico requerido a diplomatas. A UE reage com violência, ameaçando com represálias. As represálias europeias, bem visto, não passam de atoarda sem outro valor que o do dinheiro - a única coisa que a Europa possui - e que certamente irá fectar a cooperação com aquele país do Índico. A coisa é simples: os europeus, que durante décadas sentiram como indigna chantagem o duelo das superpotências da Guerra Fria, continuam agarrados a uma visão da diplomacia baseada na desigualdade. Onde antes havia colónias, agora há a tão beatífica "ajuda económica", sinónimo de "se não fazes o que queremos, cortamos o dinheiro". A UE apresenta Carl Bildt como um perito em assuntos relacionados com o Ceilão. Ora, Bild, que não tem formação académica de qualquer tipo, até podia ser perito em problemas cingaleses, mas para tal seria requerida obra publicada. Bild não tem um livro que preste. As suas obras são vagas, diletantes, insignificantes cientificamente. Fala cingalês ? Estudou o conhece o Sri Lanka, a sua história e a sua cultura ? Bild é um negociante - um testa de ferro e procurador dos interesses energéticos russos na Europa - pelo que nada do que fez até ao momento se cruza com a densa e difícil problemática do subcontinente indiano. Fez um trabalho perfeitamente indigno na desagregação da antiga Jugoslávia. Intrigou, tomou partido, precipitou conflitos. É protagonista conciliador ou agente de discórdia ?

Os suecos são assim. Querem aparecer aos olhos do mundo como campeões da cooperação e da solidariedade, mas cobram caro as esmolas que debitam para as chamadas "causas justas". No passado, deram armas à Frelimo, ao MPLA e ao PAIGC, ao mesmo tempo que investiam forte no milagre económico português dos anos 60 e princípios de 70; ou seja, davam aos "movimentos nacionalistas" parte dos lucros que realizavam com as empresas multinacionais suecas estabelecidas em território português, jogando na duplicidade para, no momento certo, mudarem de campo e investirem em concessões recebidas como pagamento pela sua ajuda àqueles que queriam a independência das províncias ultramarinas portuguesas.

No fundo, é esta a Suécia que esteve sempre próxima dos negócios mais lucrativos - nomeadamente o tráfico negreiro africano entre os século XVII e XIX, destinado às colónias açucareiras das Caraíbas - mas profundamente convencida da excelência dos seus propósitos. Lembro que durante a Segunda Guerra Mundial mantinha as mais lucrativas relações com a Alemanha - permitindo até que empresas alemãs ali se estabelecessem e produzissem armas para o esforço de guerra do Reich - ao mesmo tempo que tinha um senhor chamado Bernadotte a fingir que se interessava pela sorte dos judeus húngaros ameaçados pela política de extermínio nazi. A Suécia, importa lembrá-lo, foi também um aliado precioso de Pol Pot, antes e depois da sua saída do poder em Phenom Phen. Estes suecos conseguem ser tão malignos como os suiços. Quem veja o Ingmar Bergman e aquelas fitas longas, chatas e afectadas não pode imaginar que gente desta vive exclusivamente para o dinheiro. Assim até dá gosto ser benemérito, humanitário, filantropo e santo laico.

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Um dia, numa troca de palavras azedas com um sueco, terminei a discussão com um brutal ..."espero que a bala que matou o Palme tenha sido financiada pelo vosso governo!".
O homem ia tendo um ataque cardíaco, mas percebeu.

Joao Quaresma disse...

Nuno: Você também não é para meias medidas, irra! :))

Em vez de criticarmos, devíamos parar para examinarmos e, nalguns casos, seguirmos o exemplo da política externa sueca. A Suécia é uma das potências mais influentes em África: eles obtêm o que querem (nomeadamente matérias primas), exportam imenso (em Angola por exemplo, onde a Volvo farta-se de vender) e ainda fazem figura de santos.

Sem precisarem de laços históricos, de relações de sangue, de Suecofonia, de porta-aviões ou de cooperação militar, e sem terem de dar banquetes em Estocolmo a Ninos, Xananas e outros sacanas.

A política sueca durante a 2ª Guerra Mundial não é de facto honrosa, mas nesse caso penso que terá sido a possível. Estavam numa posição muito ingrata, mas tiraram bons dividendos da guerra (tal como nós). É também por causa disso que depois da guerra quiseram limpar a imagem, frequentemente à nossa custa.

Ainda ajudaram a Finlândia contra os russos, dentro das escassas possibilidades.