22 abril 2009

"Os maridos que beijem as mulheres " (...)


Na Itália de Mussolini, uma saraivada de decretos propostos pelo Secretário-Geral do PNF, Achille Starace, impôs sucessivamente o "sábado fascista", a proibição do aperto de mão, substituído pela saudação romana, o banimento do tratamento pessoal por "lei" em benefício do "voi", a obrigatoriedade da afixação de slogans e citações do Duce em todos os edifícios públicos e privados, a aposição na correspondência institucional e privada de um sonoro Viva il DUCE, a italianização de expressões estrangeiras - o Cognac foi crismado Arzente, o ténis pallacorda, os bares passaram a mescita, o cocktail "coda di gallo" - e o uso de fardamento para todos os grupos profissionais. Os italianos encontraram em Starace o bode expiatório para todos os males do regime, cobrindo-o de ridículo. Mussolini só se deu conta da gargalhada e indignação gerais quando confrontado com uma nota oficial enviada a uma viúva sem recursos, carta que terminava com um estranho "não nos sendo possível responder à solicitação de uma pensão por morte do seu marido, queira aceitar o nosso vibrante Viva il Duce". Tão anedótica como o hierarca foi a desculpa para a sua exoneração. Starace era um homem probo, incorruptível e frugal. Ora, não sendo possível encontrar motivo maior para o seu afastamento, soube-se que mandava o seu ordenança passear o cão após a refeição. Foi demitido por utilização indevida dos serviços de um militar para fins estranhos ao interesse do Estado.



A Tailândia também teve a sua voga staraciana. O governo fascizante do general Phibun Songkram (1938-1944), pensou poder acelerar a criação da nova identidade thai através de torrente produção legislativa destinada a inculcar o sentimento de pertença à comunidade nacional. Tudo começou em Junho de 1940, quando inopinadamente o governo mandou mudar a designação do país de Sião para Tailândia. Dois meses volvidos, proibiu-se a mais leve referência às diferenças regionais da etnia thai - "thais do Nordeste, thais do Sul e thais islâmicos" - a que se seguiram decretos menos impressivos sobre o hino e a bandeira. Quando parecia ter sossegado o afã de moldar convicções, veio o pior: nova vaga de decretos pediam vigilância contra as minorias étnicas e religiosas (incluindo os portuguet católicos), impunham o "trajo civilizado" - com abolição da indumentária tradicional - a proibição de instrumentos musicais "não-thais" e uma safra impressionante como detalhada de "normas de decoro", com regras minuciosas sobre o comportamento caseiro das famílias e a obrigatoriedade dos maridos beijarem as mulheres quando partiam de casa, o uso obrigatório de luvas para as senhoras e a indispensabilidade do uso de chapéu para cavalheiros. Os thais eram igualmente proibidos de sairem de casa descalços, mascarem betel, sentarem-se no chão e contarem anedotas. Até as formas de tratamento foram impostas. O hoje tão usado tratamento por khun (senhor/senhora) nasceu em 1938, assim como a saudação kop khun krab (obrigado) e sawadti krub (bom dia).


É claro que estas coisas, ao invés de serem acatadas e cumpridas, só serviram, na Itália como na Tailândia, para ridicularizar o poder, oferecendo de bandeja aos adversários desses regimes autoritários largos recursos de irrisão. Parece ser esse o destino da decretomania da União Europeia a respeito de tudo o que faz o quotidiano das pessoas. Há em todos os regimes, qualquer que seja a sua natureza e valores proclamados, a ingénita pulsão para controlar e intrometer-se na vida dos homens. É contra esta pulsão que devemos estar bem alertados. O poder deve ser respeitado, não por inércia, mas pela obra que realiza. Quando, por ausência de obra, passa a confundir-se com prepotência e ingerência, merece uma valente gargalhada.


Carlos Gardel: la ultima copa (1927)

5 comentários:

Helena Branco disse...

Portuguet?...com mais um -o- chamar-nos-iam residentes de um gueto! não é que por vezes a ideia não nos assalte!...

este tipo de imposição é também uma forma arredondada de escravatura...o culto nazi embutido e resistente!
Enfim os homens á procura de claridade...atolados em obscurantismo.

Obrigada pelo que nos acrescenta.

Nuno Castelo-Branco disse...

E dessa forma caíram alguns impérios. A propósito de Staracce, os romanos diziam que a Via Galillei passava a chamar-se Via Galivoi!

caramelo disse...

Engraçado. Algumas dessas "normas de decoro", que agora ridiculariza, e de que os tailandeses se riem, segundo parece, não são precisamente alguns dos hábitos tailandeses que o Nuno subscreve, como já aqui tinha dito, e que tornariam a sociedade tailandesa um espantoso exemplo de civilização para o mundo?

Pedro

Combustões disse...

Caro Caramelo
O beijo social é coisa desconhecida entre os tailandeses. Aqui, o beijo tem uma clara conotação íntima/sexual, pelo que pedir às pessoas que se beijassem era objecto de gargalhada. A ideia era, pois, retirada dos filmes americanos. Ao pretenderem exibir uma imagem "civilizada" dos tailandeses, pedia-se-lhes que fizessem algo tido por impróprio às normas sociais thais. Contradições do nacionalismo ...importado !

caramelo disse...

Nuno, não é só o beijo, ou não é sobretudo o beijo. Não me fiz entender. O que queria dizer é que certas coisas que o Nuno apresentava anteriormente como modelares para os europeus bárbaros, como as formas de tratamento cerimoniais e ritualizadas, mas não só, aparecem agora aqui como impostas e ridicularizadas por si e pelos próprios tailandess. Mas eu bem que eu desconfiava que os tailandeses não eram propriamente monges em levitação, com pouco mais para conversar do que a meteorologia, com alguns intervalos de trouble in paradise que se resolviam rapidamente através da ntervenção patriarcal do seu mui sabio rei, como chuvinha passageira..
Mas acho o seu blogue muito interessante e leio-o com frequência, porque me permite conhecer uma sociedade tão diferente como esa. Dsesculpe o meu tom algo sarcástico neste caso.

Pedro