24 abril 2009

O país parado


Evito arreliar-me com as coisinhas da política portuguesa, particularmente quando se abeiram efemérides. Estou cansado de louvaminheirices, como me cansam as diatribes a favor e contra o tal 25 que, já velho, teima em ficar, concitar duelos e paixões, tomar posse da agenda, confiscar o presente e reclamar dos portugueses umas quantas velas no altar das devoções profanas.


O discurso de uns é um não-discurso: apoia-se numa crença salvífica, nas efusões daquele dia distante em que os que hoje contam 70 anos tinham metade da idade, em que os que tinham 50 já os levou a Parca e os que se abeiram dos 40 ainda nem tinham nascido. Creio, sinceramente, que é uma perda de tempo; mais, um exercício de nostalgia egoísta, possessiva e exclusivista que nos manda calar, não pensar, não atrever e jamais contestar. O discurso dos outros é um rememorar de recriminações azedas, de lembranças trágicas, medos sublimados, furibundas acusações fulanizadas. Os primeiros, fechando os olhos ao que semearam, falam com cândidas cintilações de uma revolução feita à portuguesa, isto é, sem pés nem cabeça, entregue ao Deus dará do improviso, do amadorismo e da irresponsabilidade tantas vezes criminosa. Mortos, claro, não os houve, pois quem fez a tal revolução já tinha bens e poupanças no antes da revolução e continuou a tê-los, pois é a mesmíssima gente que governa, que manobra, distribui, paga e retribui favores nesse país há mais de cento e cinquenta anos. Os mortos ficaram longe dos olhos e dos corações. Foram dois milhões, milhão e meio ? Quem se interessa por estatísticas quando os números se tornam quase incontáveis ?


Depois, foi um ver-que-te-avias para enriquecer, brincar à Europa e às elites, aos montes alentejanos, às revisões constitucionais, às bancas e às Donas Brancas, aos futebóis e às viagens aos Brasis e às Caraíbas, iludir a desorganização e a turbamulta dos espertos feitos expert em direitos, gestões e marketings, distribuir dinheiro a rodos por amigos, fazer uma ponte aqui e uma auto-estrada ali, deitar abaixo a frota pesqueira e a marinha mercante, pagar aos lavradores para não produzirem, promover generais e brigadeiros, constelar o céu medalhado das notabilidades como manda o cardápio dos regimes latinos, abrir lojas e lóbis em cada esquina, deitar abaixo a Educação, a Justiça, a Defesa, a Segurança e a Cultura, substituindo-as por honorários, progressões na carreira, despachos, contagens de tempo, remunerações extraordinárias, regimes particulares e extraordinários. Nós somos assim, um pouco como o arrombador do cofre: um dia de atrevimento dá renda cativa vitalícia. É a esquerda portuguesa, bisavó de si mesma, sem graça e sem lustro, movida pela inveja e ganância de dinheiro e respeitabilidade.


Quem contra a revolução fala também não fez melhor. Saíu à rua, evitou o que estava escrito antes de acontecer, pôs travão ao assalto do poder pelos meninos ricos brincando às revoluções e acicatando a ralé, deu provas de adaptação inteligente ao novo regime, transformando em votos o descontentamento e o desencanto ? Olhando para o discurso dos contra - que não mudou uma linha desde o 28 de Setembro de 74 - parece nada ter acrescentado àquilo que o Diabo, a Rua e o Dia diziam em 1975, 76 ou 77 . Soube o contra fazer a dedução à democracia, compreender os sinais do tempo, retemperar argumentos, servir a Nação, manter a dimensão global do "fenómeno português", esquecer as Frelimos e os MPLA's e acreditar numa solução de continuidade, esquecer os Soares, os Otelos e Cunhais, os Vascos Gonçalves e toda a ganga de liliputianos ? Não, ficou igual ao que era, com a agravante de ter transmitido a filhos, netos e bisnetos um medo político quase paralisante, um paupérrimo arsenal de escusas e condenações sem sentido, fora de tudo e contra tudo. É a direita portuguesa, sem dúvida a "mais estúpida da Europa".


Foi há 13.000 dias e o país continua à espera do futuro ! Para mim, tudo teria sido diferente se tivessem deixado o Palma Carlos no governo - o mal menor, pois o fulano até tinha um ar de cavalheiro e até sabia usar os talheres - mais o Spínola na palácio rosa, mais os Bulhosas e os Champalimauds a manejar as contas, mais a economia a crescer 7% ao ano. Mas a esquerda queria distribuir, queria sonante e, sobretudo, queria poder; daí destruirem tudo, despejarem do Estado, das Forças Armadas, da Universidade e da Banca quem do ofício sabia e empurrar os meninos ricos a brincar às revoluções para o poder. Foi o que se viu. Quanto à direita, ficou como era e como é e será: absolutamente narcotizada, incapaz de abrir um livro, com sol e touros a debroar as manias de grandeza e pasmar-se perante o passado remoto que não fez ou, mais grave, não soube merecer.



Paco Bandeira: Lá longe, onde o sol castiga mais (1973)

8 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Parece uma lápide tumular sobre a "situação".

joshua disse...

Magnífico retrato que não se lê. Sofre-se.

Abraço

joshua

Joao Quaresma disse...

Muito boa análise, mas que falha por um erro de avaliação (a Direita) e numa omissão (o Povo).

Primeiro, não existe uma única Direita portuguesa, mas várias (parece uma fuga argumentativa, eu sei, mas não é).

Essa Direita de que fala, dos fados e da Feira da Golegã, das cabeleiras e das patilhas, é residualíssima e cinge-se a grupos de amigos que se armam em fervorosos monárquicos, de pessoas que agem por pura imitação e desejo de status, e onde a maioria pouco percebe de política, quanto mais arriscar formular um pensamento político.

Existe uma Direita esclarecida e sofredora porque demasiado nostálgica de Salazar, que acha que o Portugal de Dom Afonso Henriques, Dom João II e do Marquês de Pombal simplesmente acabou em 1974. E como tal não vê solução para o que se vive desde então, que se lhe afigura como uma interminável balbúrdia, um saque institucionalizado só possível porque o povo é burro e manipulável como uma criança. Essa Direita está há muito resignada, porque se sente impotente para se exprimir (e com razão) quanto mais de contrariar a maré e propor um projecto alternativo. Resta-lhe elogiar o antigamente por comparação com a actualidade, e não lhe falta matéria prima.

Há uma Direita conservadora, que se subdivide entre urbana e rural, feita de pessoas que são na maioria apolíticas, e que se limita a querer viver em paz e sossego, num país normal, pacífico e justo. Não tem nenhuma utopia, apenas desejava que Portugal fosse europeu mas respeitador da civilização latina e católica, e que o Estado baixasse os impostos e deixasse a Economia funcionar. Tem como modelo a Espanha conservadora que conhece nas férias e que segue pela TVE, mas não deixa de ser fervorosamente patriota. É moderadamente culta e é torturada pelos impostos por tentar ter alguma qualidade de vida. Apoiaria uma Monarquia se a questão se pusesse, e não comemora o 25 de Abril nem por sombras. Alguns ainda votam mas a maioria deixou-se disso depois de dar o segundo mandato a Cavaco.

E existe uma Direita liberal que se reclama de sofisticada e europeia. Esta Direita, que deu o seu grito do Ipiranga ao ser a favor do aborto, deseja simplesmente que Portugal se modernize, se reforme seguindo os exemplos - e se aproxime na medida do possível - dos países mais desenvolvidos da Europa e dos países anglosaxónicos. Conhece a História mas não tem pachorra para falar dela, para discutir Salazar (em quem reconhece virtudes e defeitos). Mas que, ainda assim e apesar de ter como referência o Reino Unido ou a Holanda, perde tempo a debater desportivamente o presente para tentar converter a Esquerda que tem referência por URSS e Cuba.

Apesar das falhas, e se for vista como um todo, esta Direita não é tão estúpida assim, e não sei se será a mais estúpida da Europa. Mas mesmo que fosse a mais estúpida à face da Terra ainda bastaria para ser mais inteligente que a Esquerda menos burra do mundo.

Segundo, o Povo: aqui é que o busilis... Não existe nenhum país desenvolvido que tenha um povo subdesenvolvido. Para efeitos de estatísticas, os Japoneses são o povo mais evoluído do Mundo. Quantos votos tem a Esquerda e o Centro-Esquerda, juntos, no Japão? 2%. Deputados eleitos na Dieta? Zero. E não é por falta de liberdade de expressão.

E neste capítulo, a nossa matéria prima é tragicamente má. Como se constata diáriamente no trânsito, nas casas de banho públicas, no "Nós Por Cá" e nas sondagens, a maioria do povo potuguês continua com um atraso quase sul-americano, e prêsa fácil de vendedores de feira (plenamente exemplificado pelo actual primeiro-ministro). Tal como em 1974, está muito pouco preparado para a Democracia (sobretudo a nível do poder local).

Se quisermos explicar o fracasso deste Portugal pós-1974 também temos de, dolorosamente, ir por aí.

Jose Martins disse...

Caro Miguel,
Porque o seu artigo, brihantemente escrito, tomei a liberdade de o inserir, juntamente com mais outros dois, num dos meus blogos.
O drama de todos que experimentaram e viveram a tragédia do 25 de Abril de 1974.
Foi a liberdade dos que fizeram a revolução e a perda da nossa.
Abraço

Nuno Castelo-Branco disse...

O que o João Quaresma diz, é por si, um óptimo texto a publicar na íntegra no Regabofe.

Joao Quaresma disse...

Obrigado pelo elogio, caro Nuno! Nestes dias, ando a conter-me para não dizer o que me vai na alma. E estes «Grândola, vila morena» permanentes não estão a ajudar.

Tenho é que não me esquecer que os turras estão no poder, e por isso é preciso ter cuidado.

Maria disse...

Excelente escrito. Como igualmente excelente e acertadíssimo (na minha modesta opinião) é o comentário de João Quaresma cujo Blog não conheço. Mas se o conteúdo vai na linha do que eu li no seu comentário, é de ser visitado impreterìvelmente. É precisamente o que farei.
Maria

Joao Quaresma disse...

Muito obrigado, Maria.

regabophe.blogspot.com

Será um prazer.

JQ