13 abril 2009

O estertor de Thaksin: Combustões no acampamento vermelho

Nunca me fiei nos noticiários, como também nunca fui entusiasta dos mentideros e rumores. Como dizia Frei Amador Arrais, se "Deus nos deu dois ouvidos e uma boca, tal implica que devemos falar duas vezes menos do que ouvimos". Acrescentar-lhe-ia: se "Deus nos deu dois olhos e uma boca, tal exige-nos ver antes de falar". Se os acontecimentos ocorrem em baixo da nossa janela, por que raio os seguimos pela rádio ou entregamos a nossa inteligência à comunicação social ? Ontem deitei-me e não consegui dormir. Senti, como em finais de 2008, quando os amarelos Tradicionalistas ocuparam a Casa do Governo, que tinha de lá ir ver. Afinal, estando a estudar na Tailândia a sua história e cultura, tinha história a acontecer a meia dúzia de quilómetros. Nunca me desculparia se um dia assomasse, implacável e fria, a razão por não haver ido: o medo, que se pinta e esconde amiúde com a dita prudência e, tantas vezes, se arma de argumentos para se justificar.


Montei uma motorizada e lá fui pelas longas, silenciosas e escuras avenidas que levam ao complexo de edifícios governamentais. Pelo caminho não lobriguei vivalma. Só um carro ou outro das forças de segurança e, poucos, muito poucos táxis. Chegando às imediações da versão tailandesa do Palazzo Ca'd'Oro de Veneza - foi desenhado por um arquitecto italiano nos anos 20 - desci e dirigi-me à primeira de quatro barricadas vermelhas. A segurança não foi amistosa como aquela que encontrara nas bandas amarelas. Olharam desconfiados, fizeram perguntas e por fim deixaram-me passar. Depois de voltar a casa, as agências noticiosas informaram que os estrangeiros não se deviam aventurar em tal lugar, pois a direcção vermelha anunciou ter deixado de lhes assegurar protecção.
Em torno de um palco iluminado, um ajuntamento de duas ou três mil pessoas. Na orla, exaustos, dormitando, comendo ou simplesmente ouvindo com olhar parado, homens, mulheres e crianças ali estão há dias confiando na vitória que Thaksin e seus mandatários lhes prometeram.

É povo das províncias, sem dúvida. Nos gestos, forma de falar e na posição de descanso que assumem - sentados sobre as pernas, como o fazem todos os camponeses do Sudeste Asiático - é gente de trabalho, pele escura e tisnada pelo sol, dessa gente que tanto gosto, com um sorriso que dir-se-ia fazer parte do rosto e prolonga a gentileza de um povo amável e que pouco conhece dos artifícios da população urbana. No meio deles, dando ordens, os homens de chapéu à far west - os caciques de Thaksin - destoam pelas unhas arranjadas, pelo gesto brusco e imperativo, pelo bigodinho cortado à Clark Gable, os anéis de grandes pedras nos dedos. Foi neles que Thaksin depositou a esperança de um assalto da cidade pelo campo, foram eles que organizaram milícias e lançaram o país no caos.


No palco, fazendo comício ininterrupto, a liderança vermelha, sentada em cadeiras vermelhas, vai discursando. Vozes inflamadas, palavras de ordem, apelos à resistência, ataques ao Conselho Privado do Rei, às Forças Armadas e ao governo. Como aqui dissera há dias, um discurso simples, sem elaboração e centrado no grande ausente - Thaksin Shinawatra - que todos os dias apela ao seu povo algures de parte incógnita para oferecerem as vidas pela sua causa. Entre os discursos, entoam-se marchas nacionalistas thais dos anos da ditadura de Phibun e reparo não haver foto, bandeira alguma ou a mais pequena alusão ao Rei. É a velha tensão entre a monarquia e o nacionalismo thai, que atravessou a primeira metade do século XX e foi resolvida, em finais da década de 50, pelo compromisso de um desenvolvimento económico que a todos premiaria sob o manto da concórdia e união proporcionada pela monarquia.

O nacionalismo thai, com invocação da lei da maioria, parece encerrar não só uma profunda contradição nos termos, pois as minorias [étnicas e religiosas] são quase 20% da população e a minoria social que se recusa submeter a Thaksin constitui o segmento da população responsável pelo inegável progresso a que o país assistiu nos últimos quarenta anos. Se o Estado tailandês fizesse tábua rasa da realidade multétnica e multireligiosa do país, reeditando a tragédia dos anos 30, surgiriam de imediato regionalismos recalcados. Afinal, os vermelhos são vítimas do desenvolvimento e instalação do capitalismo, da economia de mercado e da sociedade de consumo de atingiu de forma desigual uma população tradicionalmente austera.

Os vermelhos serão, assim, as vítimas da lógica da instalação de um modelo económico que eliminou uma a uma as estruturas sociais do mundo rural thai - a aldeia, as comunas, o consumo de subsistência, a entreajuda dos vizinhos, a família extensa - e acreditou no salto para uma sociedade indústrial que asseguraria ipso facto limiares de riqueza e bem estar próprios das economias desenvolvidas. O paradoxo desta fronda de caciques dominados por Thaksin utilizando o poder moral facultado pela lei da maioria, mas aplicado sobre um corpo eleitoral domesticado por chefes locais, é que Thaksin não é, como eles, nem um camponês nem um proletário. É dos homens mais ricos da Ásia e tudo aquilo que representa, nas crenças e valores que propala, é uma incongruência que só se salva pela velha e persistente crença thai no homem providencial e no líder carismático.


Um dos líderes vermelhos que ouvi atentamente, chegou a extremos oratórios raros numa língua que se caracteriza pela evitação da violência. Pediu a morte do primeiro ministro, o caos generalizado, o assalto aos ministérios, a paralização de toda a actividade económica.

Enfastiado, fui à procura de gente. A um canto do recinto, um altar exigia o incenso e orações dos manifestantes. Espanto. Não era um altar budista, mas um altar nacionalista, do género de "altares cívicos" que se popularizaram na Europa de Oitocentos. Ali rezava-se ao general-rei Taksin, não o Thaksin vivo, mas o homem que em 1767, após a queda de Ayuthia, antiga capital do Sião, dirigiu o seu povo na luta de resistência contra os birmaneses. Esse rei Taksin, que fundou Tonburi, hoje a margem oposta de Banguecoque, governou os siameses durante quinze anos. A sua conduta foi-se alterando com os anos e dizia-se merecedor de respeito igual ao do Buda, pelo que a crescente loucura de que dava sinais, a extrema violência da sua conduta e o perigo que constituia ter no trono um homem de comportamento errático exigiram a sua deposição. No fim, um golpe de Estado militar afastou-o do trono. Após julgamento sumário, foi executado. A similitude dos nomes Taksin/Thaksin não deixa de ser espantosa. Thaksin teve tudo, mas quis mais: quis destruir o equilíbrio político e hoje parece inclinar-se para o impronunciável. E como hoje já não se fazem novas dinastias, parece ter querido insinuar a república, coisa considerada abominação pela esmagadora maioria dos tailandeses.

Ali perto, um grupo olha com ansiedade a pantalha da tv que dá conta do primeiro assalto das forças governamentais ao perímetro exterior, a dois ou três quilómetros. Uma mulher diz-me que saia, pois os militares são "uns assassinos". Não me convence. O exército tem sido boníssimo e de uma tolerância quase budista. Onde outros dissseram haver desorganização das forças da ordem, vi cuidado extremo em evitar derramamento de sangue. Onde outros quiseram ver desagregação iminente do Estado e o poder na rua, vi a mão do primeiro-ministro que, após a crise, surgirá, contra Cassandras e sempiternos angariadores de cenários de catástrofe, como a grande revelação política tailandesa.

Começa a amanhecer. Um cheiro nauseabundo a excrementos humanos e lixo acumulado ao longo de dias invade o terreiro da Casa do Governo. Tenho de sair e transponho uma a uma as barricadas.

Há por todo o lado autocarros sequestrados pelos vermelhos, pneus furados e atravessados ao longo das avenidas. Contei mais de trinta, um caso raro de destruição de património público para evitar o inevitável. Os tanques e carros blindados do governo ultrapassarão tal barreira sem esforço.

A última linha. Ao longe em Ding Deng, ouve-se o disparo de armas do exército e o fumo branco do gás lacrimejante. As centenas de homens armados de paus, bastões de ferro e pistolas não poderão deter a arremetida do exército. Ao olhar pela última vez para trás, só lhes desejei sorte, que abandonassem as catanas e as barras de ferro e voltassem para as suas famílias.

Uma carrinha da polícia, abandonada anteontem aos revoltosos, assinala o fim do pequeno reino de Thaksin no coração de Banguecoque. Volto a casa. Daqui assistirei aos últimos episódios desta louca aventura de um homem que quis que milhares de tailandeses se oferecessem em sacrifício aos seus desígnios de mando. Abro a televisão e o hino do Rei toca. Parece que acabou o pesadelo. Thaksin está a horas de acabar. A Tailândia vai agora recobrar a unidade perdida. Só a monarquia é capaz de realizar essa necessidade. Que as reformas sociais necessárias sejam aplicadas para bem de todos e pelo futuro da Tailândia.


Hino real tailandês
Fotos de MCB
PS: Desculpas aos leitores pelo tom desalinhado do texto, escrito de jacto e sem leitura posterior.

4 comentários:

João Mattos e Silva disse...

Se não pudesse ler o que o Miguel escreve sobre o que é e se está a passar na Tailândia, nunca entenderia nada. A imprensa portuguesa, fazendo-se eco, aliás, da imprensa ocidental, distorce as notícias para emparelhar com os revoltosos. O vermelho continua a ser muito atractivo para alguma esquerda burguesa que seria a primeira a fugir a sete pés se ela, por cá, fosse uma ameaça e não apenas folclore.

Jose Mexia disse...

Caro Combustões,
Obrigado por nos ir informando do que se vai passando aí. Como diz o comentador anterior:
O nosso jornalismo é de uma pobreza franciscana.
Cumprimentos

Bruno Faria Lopes disse...

De um jornalista em Lisboa – de um diário a lançar em breve - segue um abraço de parabéns pelo belo trabalho. Bruno Faria Lopes

Nuno Castelo-Branco disse...

Esta crise tem sido gerida pelo "murdochismo" internacional, de uma forma clássica: agitar, omitir e frequentemente inventar. Na Tailândia não me parece ser uma estratégia de sucesso. Lá não está um Sampaio qualquer para fazer o frete.