09 abril 2009

O cartão de visita


Todos temos nos bolsos dos fatos pendurados no armário, espalhados por livros fazendo de marcadores de leitura, nas gavetas da escrivaninha, na carteira de documentos ou no porta-moedas esse estranho papelucho rectângular chamado cartão de visita. É adereço tão fundamental como os sapatos, as meias e a gravata, mas nunca pensámos verdadeiramente o que significa. Os asiáticos deles jamais se esquecem e o jogo social não funciona sem que um fulano que se preze os tenha sempre à mão para iniciar uma conversa, por mais anódina que seja.

O cartão de visita diz pouco, quase nada, mas está lá tudo o que interessa, o demarcador de estatuto (a profissão) e o status que o indivíduo pensa deter ou que os outros lhe poderão dar pelas funções que desenvolve. Há cartões de visita absolutamente excêntricos, como aquele que um espanhol um dia me ofereceu com os dizeres "español por la gracia de Dios y franquista hasta la muerte". Nos cartões de visita não estão nem a religião nem as crenças do portador. Está, apenas, o lugar que o proprietário ocupa num qualquer sistema: médico, advogado, professor, general, Papa, vendedor, ministro.

Um tolo australiano ria-se há dias da prática asiática de por tudo e por nada se oferecer um cartão de visita. A ignorância tem por hábito rir-se do que desconhece, pelo que o descendente mais que certo de um cardador de lãs ou lenhador não ver no cartão de visita mais que uma bizarria.
Ora, o simples cartão de visita tem historial longo no Oriente sinizado. No sistema confuciano, alicerçado num ideal de ordem, hierarquia, respeito e clareza nas relações entre subordinados e superiores, cada um sabia ou devia saber o lugar exacto que lhe cabia na ordem social rigidamente estratificada do topo à base. O poder do Filho do Céu descia da Cidade Proibida à mais recôndita aldeia da China rural através da omnipresente burocracia. Teoricamente, o sistema funcionava plenamente, sendo possível a um mero regedor fazer chegar a sua voz ao trono, ou inversamente, colocar em contacto o Imperador com o mais humilde dos seus servidores. No Vietname, que foi e é uma realidade chinesa adaptada ao Sudeste-Asiático, o imperador podia e sentia necessidade de manobrar e estabelecer relações de mando pessoal sobre os seus burocratas, pelo que qualquer burocrata, para além de se submeter a provas de destreza intelectual, era obrigado, pelo menos uma vez na vida, a encontrar-se com o seu Filho do Céu.
Acresce que lhe era exigido que tivesse sempre à mão uma caderneta de bolso em papel vermelho contendo o sumário da sua vida em não mais de trezentas palavras: ascendência e historial de serviço dos seus antepassados à coroa, funções desempenhadas, punições e louvores passados. Ao abeirar-se de um superior, retirava a caderneta do bolso e nada dizia até que lhe fossem colocadas questões pelo superior. Estes "cartões pessoais" não podiam ser escritos segundo a fórmula literária, mas deviam ser claros. Era o bilhete de identidade do servidor do Estado. Aqui está o segredo que o australiano não compreende. Por detrás de cada gesto há centos de anos. Para quem não tem história é difícil compreender estas "chinesices" !


Mostra-nos o Caminho (China)

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Pois, imagina o "pedigree" do dito australiano.
Neto de presidiário, bisneto de presidiário e trineto de um condenado á forca em Tyburn. Achas que lhe convém lembrar uma estória destas?

Pedro disse...

E que mal tem ser isso tudo? Conhecem o homem de algum lado? Que presunção!

E que mal tem rir-se dos costumes tailandeses? Eles nao se riem dos nossos? Deve haver alguma coisa na Tailandia que ache absolutamente detestavel. E' normal numa pessoa vinda de um pais completamente diferente e que tem orgulho na sua cultura.

No blogue le-se "aqui nao se diz mal de Portugal", mas devia ler-se "aqui nao se diz mal da Tailandia."

Combustões disse...

O Pedro é demais. Não, este não é um país perfeito. Tem, até, muitos defeitos. O que queria dizer era que as pessoas riem-se imenso daquilo que tem uma explicação. Olhe, os tailandeses só comem com faca e garfo por imitação. É-lhes tão difícil como para os portugueses comerem com pauzinhos, mas fazem-no por parecer "chique". Outra coisa que fazem e para nós surge-nos como completamente estranha é o de jamais beberem uma gota de água durante as refeições. Isso soa a barbaridade, pois a comida é picante e temos de a aguentar até ao fim.
O homem, o australiano, é um desses missionários protestantes que por aqui andam a impingir doutrina falsificada. Diz-se pastor, mas nunca lhe vi rebanho algum. Diz-se cristão, mas só o vejo condenar os "idólatras" e a invocar castigos do céu. Em suma, o retrato típico dessa sociedade estranha que é a Austrália.