17 abril 2009

Londonistan: o inimigo dentro de portas

O livro não é novo, mas exige leitura. Confesso que o tenho lido em pequenas doses quando vou à livraria da esquina, como quem lê um seriado daqueles que os jornais de outroram debitavam semanalmente. Contudo, não se trata nem de ficção nem de jornalismo superliterário. É um cerrado libelo à incompetência das autoridades britânicas, ao criminoso desleixo quantas vezes de mãos dadas à ignorância e cegueira políticas, bem como ao complexo de superioridade que anima tanta estupidez inteligente. O terrorismo islâmico vive paredes-meias com as nossas instituições, leis e modo de viver, nutre-se de indesculpável ressentimento e de um ódio profundo inacessível ao tão propalado diálogo entre as civilizações. Os terroristas não se recrutam entre os pobres, como alguma esquerda no imediato 11 de Setembro fez crer, não são nem analfabetos nem excluídos. Provêm, pelo contrário, de casos bem sucedidos de integração social - pais com negócios estabelecidos - tiveram todas as condições para progredirem e vencerem e, até, não raro foram contemplados com bolsas de estudo. Vivem com todos os adornos de cultura material próprios das sociedades ricas do Ocidente, consomem, viajam, desenvolvem actividades que o ócio proporciona. Contudo, esta minoria religiosa foi segregando uma cultura de ingratidão e resistência face à sociedade tolerante que a acolheu, quis aprofundar a sua especificidade no quadro dos direitos contemplados pelas leis ocidentais, reivindicando esse direito à diferença para legitimar, in extremis, a destruição do Ocidente.

O grande mistério deste terrorismo é a atracção que sente pelo Ocidente. Estabelecidos, vivendo na opulência como nenhum dos seus antepassados ou sem os padecimentos e angústias dos cidadãos dos seus países de origem, encaram a Europa como terra de conquista. Os europeus, por seu turno, imobilizados pelo multiculturalismo descartável, permitiram que esse cancro progredisse. É a primeira vez na história do Ocidente que uma minoria religiosa rompe com a tácita liberdade de culto garantido pelo império das leis e pretende conquistar o direito à supremacia política, obrigando a cultura dominante a aceitar o específico como regra.

A resposta à propagação desse perigo não foi assumida, por ora, pelas autoridades democráticas. A imparável progressão de forças políticas anti-imigração parece estar a criar o campo para a mudança da paisagem política europeia. Onde falharam os governos, as leis e os políticos sensatos, estão a triunfar agitadores, demagogos e alarmistas que poderão, a prazo, ditar o colapso das instituições liberais e proporcionar o advento de uma vaga autoritária. O extremismo anti-imigração não é, assim, mais que o reflexo de políticas suicidas de destruição das regras e condições que haviam feito da Europa um oásis de tolerância cultural e religiosa. O perigo é iminente. Só não vê quem não quer, ou, querendo-o, nela identifica a possibilidade de destruir um tipo de sociedade que detesta. A aliança entre a extrema-esquerda e o islamismo militante parece estar a crescer em simultâneo com o recrudescimento de forças políticas anti-democráticas reactivas. Ao aprofundar-se, induzida, esta bipolarização de duas irracionalidades fora da tradição ocidental, está-se a matar o múnus do Estado democrático, cada vez mais separado da realidade que campeia nas ruas.
Convido também os meus leitores para a inteligente reflexão de Riaz Hassan sobre a possibilidade de conter o islamismo, fora ou dentro da Europa, pela adopção de uma clara atitude de impugnação pelo esclarecimento. Como qualquer irracionalismo, o islamismo pode ser detido pela argumentação, como foi detido o comunismo na Europa Ocidental entre os anos 40 e 70 e antes o nazismo nas sociedades democraticamente maduras no período entre.guerras.


Riaz Hassan: conferência sobre o fracasso do islamismo no mundo contemporâneo (2008)


Sura do Arrependimento

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Vais ter "os do costume" à perna, desde os louçaneiros, à Liga de Defesa dos "Animais", etc. Sabes, há gente sempre pronta a ratejar e gostosamente receber umas chibatadas na espinha. Enfim, tarados...

Luís Cardoso disse...

Caro Miguel,
Há uma tradução portuguesa publicada pela Aletheia, para quem preferir.
Cumprimentos,

Combustões disse...

Luís
A sua preciosa informação é demonstrativa da minha longa ausência. De facto, após ano e meio fora, vou perdendo o pé e a memória às coisas de Lisboa.