16 abril 2009

Há que saber ouvir os trabalhadores

Portinari: o cafeeiro (1939)

As revoluções e as rebeliões não nascem do nada. Se encontram quem lhes dê rosto, uma ideia condutora ou uma justificação, os motivos profundos que as desencadeiam não são acidentais nem se prendem com a vontade de poder e a estratégia de um só homem ou de um grupo. Há que saber ouvir o povo chão, compreender a revolta daqueles que se sentem ultrapassados, repelidos ou humilhados por uma dinâmica que não conseguem acompanhar. Para os poderosos e para as elites que jamais tiveram fome, problemas de emprego e angariação de subsistência, que não sabem o que é penar para reunir o mínimo para manter a dignidade, há que encontrar o termo adequado que permita a uns dormir descansados e aos outros não acordarem em ira cega e destruidora. Saber mudar a tempo, saber abrir generosamente a mão do supérfluo para manter o essencial, não acreditar, jamais, que a vantagem de hoje é caução para todo o sempre; eis o segredo de um sistema justo. É certo que o acto de governar desenvolve-se em esferas diversas. Se visa manter o Estado e os grandes princípios que fazem de uma sociedade uma unidade de destino, deve também preocupar-se com a soma das coisas pequenas que justificam a cidadania, o estar em sociedade e o viver em conjunto por uma ideia de justiça e felicidade que a todos deve premiar. Se aos trabalhadores não cabe governar, cabe ao Estado e à elite no poder governar prioritariamente para os trabalhadores. Aprendi isto há muito: quem pouco tem, contenta-se com pouco, conquanto sinta que por ele se compadecem e abeiram os poderosos. É este o segredo da arte de governar. O acto de governar é um acto de caridade. E se de tal se rirem as elites, há que dizer-lhes que os trabalhadores, quando exasperados, são coisa terrível à solta.

Sem comentários: