18 abril 2009

Europa mínima

Miss Pearls, incansável globetrotter, envia-nos deliciosos postalinhos de Bruxelas, a vila quase-aldeia que, de aglomerado provinciano cercado por imenso batatal se transformou na capital da Europa burocrática, codificadora e mercadora. Bruxelas é, sem tirar, o emblema de uma Europa que já não se reivindica mãe das artes, das ciências e da guerra, mas contenta-se com a abundância de chocolates, restaurantes de luxo e moradias de curta estadia para os emissários tribais vindos dos [vinte e] sete bantustões da Europa pagar o tributo de vassalagem a uma entidade acéfala.

Outrora, a Europa ia à Roma divina. Ora lá entrava de canga ao pescoço nas paradas triunfais dos augustos, ora de lá saía sobraçando os cursus honorum com as nomeações para questores, edis, pretores, governadores e censores enviados para a Lusitânia, a Mauritânia, a Mesopotâmia, a Arménia, a Britânia, a Dácia ou a Récia. Depois, Roma foi a cabeça da Res publica christiana, intermediária entre os homens e o Altíssimo. A monumentalidade de Roma era justificação suficiente para lhe renderem respeito. Quando tudo se desagregou e o continente se partiu definitivamente no século XVI, as sucessivas capitais da Europa em disputa imitaram Roma com os seus arcos triunfais, obeliscos, edifícios de Estado, paradas e cerimónias.

Hoje, a Europa é aquele Petit Julien de 60 cm a urinar torrencialmente decretos, decisões, regulamentos e directivas sobre a dimensão do carapau, a percentagem de sebo dos champús, as compatibilidades electromagnéticas das máquinas de barbear, a segurança dos brinquedos, a elasticidade dos preservativos, as medidas preventivas contra a febre aftosa, a dimensão das seringas e outras coisas da mais alta relevância. Uma Europa de fulaninhos e fulaninhas rendendo culto ao positivismo de contabilidade, sem sonho e sem luz, uma Europa do misiserabilismo que se esconde por detrás das gestões, dos marketings, das estatísticas sem estadística, das finanças sem economia, da politiquice sem Política. É uma pena, mas é a realidade que teima em cobrir de ridículo a Europa. E Bruxelas enfia como uma luva a imagem desta Europa que já não quer, já não pode e já não manda. Ali fala-se de tudo, em todas as línguas. Mau sinal, pois em Roma, do Tejo ao Tigre falava-se o latim e entendia-se o mundo conhecendo Horácio e quando chegava a ordem de Roma essa era compreendida por todos os cidadãos do império. Hoje não há ordens porque não há autoridade, e se as há, para além da torrente de decretos que encontram risos escancarados da Escócia à Sicília, nunca serão aplicados porque falta à Europa uma ideia, um sonho e um objectivo.


Respighi: As Fontes de Roma

4 comentários:

M Isabel G disse...

Ai Miguel.... soubesse eu escrever assim :)
Faz-me muita falta por aqui.
ISabel

Combustões disse...

Isabel
Goze à farta, como uma preta, do formigueiro de cinzentões e cinzentonas a brincar aos napoleões da cebola, do tomate e da máquina de bater ovos. Isso é que é a nova elite ! Isso é ké gente!

Nuno Castelo-Branco disse...

A coisa não funciona mesmo. Ainda bem!

cristina ribeiro disse...

Essa é a Europa de que não gosto mesmo nada, e para onde vão mandar alguns dos que por aqui fazem falta...