01 abril 2009

E porque hoje é o primeiro de Abril


Oferta de um amigo, abri-o e não o largo desde o passado domingo. É daqueles livros que provocam dependência e ansiedade desde as primeiras páginas, como quem revela terríveis segredos e convoca os mais sombrios pressentimentos. Trata-se da biografia de Tzu Hsi, a última imperatriz chinesa Qing, cuja vida pública transcorreu nas décadas de chumbo das agressões ocidentais, do lento apagar do Império do Meio e do nascimento da China contemporânea. Tzu Hsi foi cabeça de turco para uma certa imprensa ocidental ávida de sensações fortes, o seu nome e reputação justificaram todos os vexames à integridade territorial chinesa, a sua privacidade transformada em crónica pornográfica. Afinal, tudo o que desta mulher inteligente se disse não passava de um infindável rol de soezes mentiras e imposturas, a começar pelo sempre gabado baronete Edmund Backhouse. O impostor havia sido há muito impugnado pelo insuspeito Trevor-Roper, mas o recente acesso a abundantes fontes documentais oficiais e a leitura atenta das memórias daqueles que com Tzu Hsi conviveram exibem uma mulher tenaz, preocupada com o destino da China, hábil e sofrida. Vítima de atávicos preconceitos anti-femininos, das lutas intestinas entre os príncipes manchús e da crescente tensão entre conservadores imobilistas e reformadores, Tzu Hsi procurou restaurar a dignidade imperial e evitar o colapso. Os ocidentais, contudo, que queriam a China como Eldorado para fantásticas jogatanas e lucros, não a pouparam. Ao terminar o soberbo primeiro capítulo - Flowers in the back garden - dei comigo a estabelecer sinistro paralelo com o que se passa na Tailândia, onde se desenvolve, criminosa e cobarde, campanha contra a instituição real pela mão dos produtores de notícias globais. E porque a fúria das negociatas e do tilintante dinheiro raramente é sábia, a China cabou por ser comunista e não colónia da plutocracia. A Tzu Hsi voltaremos em breve.


PLA

6 comentários:

LUIS BARATA disse...

Mas o apoio, ainda que indirecto, que deu à Rebelião Boxer foi insensato e pago com um preço muito caro...
Fui procurar nas minhas estantes e lá encontrei uma velhinha tradução portuguesa de " China under the Empress Dowager"de Bland-Backhouse,publicada pela já desaparecida Editorial Aster. É efectivamente uma obra cheia de preconceitos contra esta extraordinária mulher que dominou o Império do Meio durante quase meio século e que tentou impedir o inevitável: a queda do império.

once disse...

espero que sim .. vou gostar de acompanhar ainda que seja para me comover.

Nuno Castelo-Branco disse...

Não me admirava nada se os "ocidentais" começassem a tecer pretensos paralelos entre a rainha e a imperatriz. Essa gente é capaz de tudo, desde que tenham as pulsõezinhas satisfeitas.

Nuno Castelo-Branco disse...

E não te esqueças de outra coisa. A campanha mediática contra a imperatriz, serve também para esconder as roubalheiras e destruições efectuadas pelos exércitos ocidentais. O incêndio e saque do Palácio Imperial, por exemplo...

LUIS BARATA disse...

Como ainda recentemente veio à baila, a propósito do leilão do espólio de Yves Saint-Laurent.

Combustões disse...

Luis:
A revolta dos Punhos Harmoniosos decorreu de um massacre cometido pelas forças britânicas acantonadas em território chinês. Foi a gota de água que provocou a revolta.