10 abril 2009

Combustões na operação policial no Monumento à Vitória


Telefonema às quatro da tarde. O meu vizinho, oficial da polícia, diz-me: "Khun Miguel, vamos limpar os vermelhos que estão deste anteontem a impedir o trânsito no Monumento da Vitória. A operação vai começar dentro de uma hora." Desliga. O Anusawari Chai Samoraphum (อนุสาวรีย์ชัยสมรภูมิ) fica a poucos quilómetros de minha casa, distando a três estações pelo Metro de superfície. Apanho o BTS e lá estou um quarto de hora antes da hora indicada. Desço da plataforma com vista sobre o obelisco que exalta os feitos do exército siamês na sua guerra contra a França em 1940 e dirijo-me aos vermelhos. Não são muitos e tudo indica não serem de Banguecoque, pois não os compreendo na sua fala dialectal do Issan, região do nordeste da Tailândia. Esta gente está a impedir o tráfego desde anteontem e provoca engarrafamentos a perder de vista, criando raiva entre a população. Ontem ouvi uma mulher idosa dizer: "se isto continua assim, é preciso que o exército reponha a ordem".


Quem são estes vermelhos ? Não me parece gente de militância política. Há, entre eles, uns senhores com ar provinciano, chapéu de cowboy e bem vestidos, que dão ordens e em torno dos quais se concentram homens trajando fardas militares. Dizem os Amarelos [monárquicos] que esta gente é paga e trazida para Banguecoque para fazer confusão. Pois, os tais homens com toques de country thai serão os famosos caciques da quadrícula que Thaksin mantém em algumas zonas do país. Pelo tom e modos, são homens duros - eventualmente trabalhadores agrícolas - que destoam da população urbana, mas não me pareceram perigosos como aqueles que anteontem vi e fotografei na mesma área. Pelo contrário, parecem muito interessados nas objectivas dos jornalistas, mandam-me parar para os fotografar e até querem saber quando "vai sair a notícia". A gente do Issan é proverbialmente gabada pela simpatia e pelos gestos quase infantis com que dá largas à sua simplicidade. É uma população de pele escura-avermelhada e são muito parecidos com os khmeres do Camboja. Foram incorporados no Mandala siamês em finais do século XVIII, no período da restauração da independência thai face aos birmaneses. Na década de 1820, os principados laocianos revoltaram-se contra Banguecoque. O Rei Rama III enviou uma expedição punitiva e após os derrotar, transferiu-os de região e deu-lhes terras de cultivo no actual Issan.


Entre a pequena multidão identifico um outro grupo regional muito apegado a Thaksin. É gente de fisionomia diferente, de fala arrastada, carácter fleumático e indumentária própria dos "povos da montanha". É gente do extremo-norte da Tailândia, o outrora La Na, que foi reino tributário de Banguecoque até inícios do século XX e considera-se uma entidade distinta no quadro étnico thai. Thaksin é originário dessa região e possui aí forte votação.


Aos camponeses fardados juntam-se taxistas e mototáxis, grupo profissional muito "vermelho" e responsável pelos últimos incidentes em Banguecoque. À mistura, como quem brinca, miudagem exibe-se em gincana com as suas motorizadas, cerram punhos, gritam "fora o governo" e pouco mais. Parece um fim de festa, pois já terão recebido a intimação para não oferecerem resistência à polícia que entretanto começa a descarregar efectivos de camiões colocados no extremo oposto da grande rotunda.

De repente, uma sirene anuncia o início da operação de limpeza. Os polícias avançam sem cuidados e dão ordens aos manisfestantes para saírem da rua. Uma dúzia de guardas remove cartazes e faixas pró-Takhsin, enquanto outra dúzia inicia a desmontagem das tendas instaladas em plena via pública. Não há resistência e os homens de chapéu à cowboy dão ordens aos seus para evacuarem o local. Um circo de motorizadas montadas por dois ou três homens inicia o cortejo de saída da praça. Não há incidente algum. Em poucos minutos, o gigantesco tráfego volta a tomar de assalto o asfalto do Monumento à Vitória. Depois, chegam as brigadas de limpeza da municipalidade. Acabou a barricada e agora os vermelhos conglomeram-se em torno da sede do governo. Parece que o último fôlego de Thaksin não deu os resultados previstos. A sua gente não parece ter a fibra dos Amarelos que visitei em Dezembro e tudo soa a uma divertida desorganização que só o dinheiro que vai chegando de fora consegue disfarçar. No fim, só e esquecido, ficou um cartaz artesanal com os dizeres raw rak Thaksin ("Nós amamos Thaksin), que ninguém se atreveu remover. Os thais não são gente de ódios mortais. Na televisão, os dignitários do governo e até os mais radicais entre os amarelos continuam a referir-se-lhe como Khun Thaksin. Khun é o equivalente thai ao khan mongol e durante séculos foi exclusivo dos reis e grandes senhores. Hoje, democratizado, todos os thais são khun. Assim, por que razão Thaksin não pode ser, também ele, tratado com o distintivo khun ?


Fotos de MCB

2 comentários:

António de Almeida disse...

Chegam cá poucas notícias, a mais devenvolvida até agora, mas que continua sem dizer nada de especial, é esta sobre o adiamento da cimeira do ASEAN:

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1373728&idCanal=11

Nuno Castelo-Branco disse...

Talvez tenha sido uma manobra de diversão, porque o ataque principal foi na cimeira da ASEAN, em Pataya. Enganaram o governo!
Os brancos "bota abaixo" do costume devem estar todos satisfeitos. Já podem faricar mais umas notícias de catástrofe iminente. o problema é que não há maneira do "sanguinário governo" metralhar os "pobres proletários do milionário chinês". Que chatice, não é?
Bah, vamos lá até Patpong tomar um Sangh Thip on the rocks1