25 abril 2009

25 de Abril foi há mil anos


Carta filosófica, escrita às quatro da manhã - hora em que as Chaimite iniciaram a marcha sobre Lisboa - por alguém que nunca foi estado-novista, comunista, republicano ou qualquer outra dessas coisas; ou seja, alguém que tem setenta e tais anos de idade e ainda precisa de trabalhar porque nunca se submeteu à lei da escravidão voluntária. Esse alguém é o meu pai.
MCB
"Miguel
Acabo de ler o teu blog e gostei muito.
Tocas nas feridas e fazes o processo histórico da nossa situação que se degrada desde o triunfo liberal. Não quer dizer que o absolutismo fosse uma benção. O mal cabe, em grande parte, a dois factores que se estenderam, e ainda se estendem, como tentáculos de polvos em alargamento pelo globo onde chegou sempre, nem sei se bem, se mal, a ideia liberal: o triunfo de uma burguesia cega, gananciosa e iletrada (i.e., não preparada para dirigir e cuja prática alargou e continua a alargar a criação de lugares para criar suportes de apoio) e que sepultou uma estratificação de classes terrífica, ainda (!), porque assente num dictat em que o ouro e a pedraria comandavam o fluxo económico, em que não havia regras de humanidade, nem esperanças de mudança - ainda que se detectassem continuadamente, alterações no modus vivendi e na prática política - e que era servida por outro tipo de cegos, iletrados e gananciosos, em especial de títulos e honrarias.
Nunca houve, nem haverá, igualdade porque essa é uma miragem da filosofia política; nunca houve nem haverá um equilíbrio político e económico na Sociedade porque esses esbarram com a mais reles e diminuta ambição de qualquer um dos humanos; nunca houve nem haverá progresso físico e mental porque o humano necessita conhecer-se melhor intimamente (física e mentalmente) como Ser para ter a ousadia de crescer liquidando a animalidade com que nasce.
Ora, o Homem ainda não conhece os mecanismos do cérebro e do corpo, os principais no comando do seu quotidiano. Vão sendo descobertos pouco a pouco e não tem o realce que os Media lhes deveriam reservar, até na sua explicação aos leitores. Não queres pensar para escrever sobre isto? Fá-lo-ias muito bem, estou certo.
Como se sabe, nunca os Homens do Poder nem os chamados Homens de Deus, nem os Homens da Economia - mais culpados que todos os outros porque arrogam um Conhecimento que não têm -, nem os do Saber Filosófico, nem os da Ciência, são capazes de conduzir a Humanidade em Paz, no Bom Senso, na Harmonia e em todas as outras designações que a fertilidade do Pensamento é capaz de criar mas não de efectivar.
Desculpa estas derivantes, próprias de quem se levantou às 04H e tem que trabalhar."


João Maria Tudela: Moçambique

4 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Publiquei a "carta" na íntegra.

AB disse...

Bem haja, senhor professor Vítor Wladimiro.

Chloé disse...

Só posso agradecer a sua partilha.
Para mim, entre outros sumos, esta carta revela um homem (doce?) que vê lucidamente os desacertos do mundo. Mas não se deixa dobrar
Terei acertado?
Penso que é a primeira e a última das nossas fortalezas: que o mundo se entorte mas não ao menos não nos entorte a nós!

Carla Teixeira disse...

Apesar de certo pessimismo subjacente, é adorável ver um senhor com tais pensamentos, atualmente.
Felicito-o por seu pai.