03 março 2009

Um país de cultura e não de merceeiros e peixeiros

A Embaixatriz de Portugal e a Directora da Orquestra Metropolitana de Banguecoque
A última Feira da Cruz Vermelha, inaugurada em Banguecoque no passado sábado, mais que um evento de natureza social e caritativa, constituiu oportunidade única para os diplomatas exibirem e promoverem a imagem dos países que representam. Coube à nossa embaixatriz, Maria da Piedade Faria e Maya, a honra de pronunciar o discurso de abertura numa cerimónia de grande estadão que contou com a representação da Casa Real na pessoa da Princesa Real Maha Chakri Sirindhorn - depois do Rei a figura mais popular e querida dos tailandeses - e de largas centenas de convidados do corpo diplomático, instituições governamentais, fundações, câmaras do comércio, adidos e imprensa.

Confesso que me surpreendeu o ar de grande supermercado e o aguilhão de fazer dinheiro sem olhar a meios que a quase totalidade dos pavilhões apresentava: de salpicões a chouriços, detergentes e desentupidores de canalizações, de cremes anti-escaldão e pastas de dentes a vinhos e má qualidade, tudo estava impregnado do espírito de peixaria e 7-11 (lojas de conveniência aqui abertas 24 horas por dia) que não poupava representações diplomáticas cuja natureza requer outros cuidados. Fiquei absolutamente consternado ante um enormíssimo stand da Santa Sé que faria as delícias de um qualquer pregador calvinista: calções, cuecas, sardinhas, vinhos e vinagres, queijos, chocolates, latas de conservas e perfumes. O mesmo espírito de vende-tudo nas Franças, Espanhas, Bélgicas, Rússias e Chinas. O mais sórdido capitalismo vende-tudo e fazer dinheiro com tudo exprimia, afinal, o sinal destes tempos em que se inverteram todas as categorias outrora respeitadas pelos Estados. Hoje, a palavra de ordem é negociar, "rentabilizar"e "fazer negócio"; em suma, os Estados transformados em vendedores ambulantes. A plutocracia no seu melhor !

Três excepções naquele mar de vulgaridade: o stand do Butão, promovendo a imagem de um orgulhoso reino budista, enclave de tradição, protecção ambiental, vida serena e frugal ancorada numa forte determinação em manter a diferença; o stand do Japão, promovendo os arranjos florais nipónicos, verdadeiras peças de filigrana saídas das mãos de fina sensibilidade e o stand de Portugal, com produtos de alta gama do melhor que produzimos: vinhos de reserva, azeites, cristais e porcelanas e alguma doçaria tradicional.

Estive presente e reparei que a Princesa Real se deteve longamente ante tais produtos, gabando-lhes a beleza, fazendo elogios à qualidade e até surpreendendo-se pelo facto de termos, nos Açores, uma das mais belas reservas marítimas do mundo, com as grandes baleias que demandam protecção. Depois, a prenda oferecida pela nossa embaixada - em baixela dourada, como exige o protocolo - foi recebido com enorme sorriso de agradecimento. Foi um dia importante. Portugal não seguiu a onda que vai conspurcando o mundo, apresentou-se como é ou como devia ser: a de uma nação antiga, quase milenária, que é uma nação de cultura e não de bufarinheiros. Os portugueses que se habituem a viver com parcimónia, mas com honra e com o sentido da sua excepcionalidade na história mundial. Antes assim que transformados em vendedores de feira. Os siameses, que sabem o que é respeitar a História, compreenderam-no.



เพลงเทิดพระเกียรติ

6 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Pelos vistos, a representação diplomática que aí temos, é bem diferente daquilo a que nos habituámos. Ainda bem. Finalmente!

Nuno Caldeira da Silva disse...

O Bazar da Cruz Vermelha é, aliás como o do YMCA, uma feira do mais barato que existe pelo mundo com toda a porcaria despejada em Bangkok através das reprsentações diplomáticas. Correcta as excepcções que o Miguel aponta, embora talvez se pudesse igualmnete aí incluir alguns outros países como Marrocos, Turquia e a nossa (Comissão da UE)barraquita que nada mais vende do que camisolas e afins. É uma tristeza ver países que tanto se batem contra a contrefacção e a favor da sanitarização dos produtos a vender tudo aquilo que havia em stocks há anos, prazos e gostos passados, como se os tailandeses fossem uma espécie de caixote do lixo. O problema é que tudo se vende em "segundos". No stand da Espanha inclusive foi necessário chamar a polícia devido ao facto de tantas serem as pessoas que partiram o stand. vendia-se embalagens de Heno de Pravia e cremes para o corpo para aí produzidos nos anos 60. Agora conheço muitas pessoas e de cultura e estatuto social elevado, que compram visto ser estrangeiro e barato. Os vícios consumistas estão impregnados nos tailandeses mas as Missões poderiam ser mais cuidadosas e em vez de os explorar vilmente, educá-los quando fosse caso disso. Só dois comentários mais. A Santa Sé (????) tinha duas e não uma, barracas onde tudo era vendido, e a nossa Embaixatriz teve o previlágio da palavra visto a Presidente das Mulheres Diplomatas, a Embaixatriz Simona Velasco, em virtude de um problema familiar, ter estado ausente, mas Maria da Piedade representou o corpo diplomático e Porugal com nota 20/20.

Nuno Castelo-Branco disse...

O que estraga a foto é o trapeco horrendo que a lata de alguns se atreve a chamar de bandeira. Vale o que está no centro. Enfim, não se pode ter tudo.

LUIS BARATA disse...

Vá lá, um motivo de orgulho nacional nesse stand na distante Tailândia.

Helena Branco disse...

Que bem haja quem nos represente com a dignidade que merecemos ainda que em reinos distantes...

Bic Laranja disse...

Fico orgulhoso. Mas não divulgue muito. se o malfadado intrujão topa uma janela de oportunidade, carrega a carroça de Magalhães e desgraça-nos a todos.
Cumpts.