05 março 2009

Tudo liga com tudo

Arte lixo de luxo

Museu Nacional da Tailândia. Buda de Ayuthia

Deparei há tempos com uma observação absolutamente pateta de Hegel a respeito da arquitectura. Dizia o autor da Filosofia do Espírito que a arquitectura é uma manifestação apagada do espírito, pois coloca matéria a mais no acto de execução do plano do artista que aquele [o espírito] acaba por se submeter à pedra. Não deixa de ser curioso que o espírito se manifeste mais na sua integral capacidade na arte e não no pensamento filosófico, havendo porém quem afirme que uma e outra - e mesmo um axioma matemático - sejam obras de arte. Sobre a Filosofia da Arte muito se escreveu desde o século XVIII, não havendo vestígios que tão aturado exercício alguma vez tenha realizado um décimo dos resultados da sociologia da arte, sempre desprezada e olhada como mera curiosidade. Porém, o efeito que a sociedade exerce sobre as formas, a vivência do belo e a sua decantação nos objectos como na música, na literatura e até nas artes ditas "menores" permitem-nos mergulhar nas profundezas da visão do mundo de quem as cria ou delas necessita.

Museu das Barcas Reais de Banguecoque

Apercebi-me, finalmente, que as culturas são diferentes e desiguais, tal como os homens e as sociedades em que se integram. Há-as amantes da brutalidade, do grosseiro e até do reles - aquele estado que não se contentando com o desprezo pela subtileza, vai ao ponto de gabar a excelência do horrendo - como as há que compreendem que o sentido da vida só pode ser entendido se envolto na beleza das formas que o espírito constrói como a segunda natureza do homem. Uma cultura que produz o Mc Donnalds é evidentemente inferior a uma cultura que transforma a necessidade comer em arte, assim como um indivíduo que vive derrancado na preocupação de fazer dinheiro é inferior a um outro cuja existência é inteiramente consagrada ao estudo. A arte, qualquer que seja a sua expressão, é o mais curto e directo elemento de identificação de quem a cria ou dela usufrui. Sei agora que os americanos são espiritualmente muito mais grosseiros, tacanhos e obtusos que o mais ignaro camponês laociano ou birmanês, que aquilo que se "produz" para as galerias, mais que um negócio e uma impostura perfeitamente integrada na promoção de produtos para consumo, é a imagem da sociedade e do tempo em que vivemos.

Músico clássico tailandês

O "espírito das formas" (lembrando o já clássico de Gillo Dorfles) desce em cascata do templo à terrina ou travessa que nos servem no restaurante, da ideia de Estado e comunidade política às mais pequenas manifestações da vida social. As comunidades que se organizam e teimam em preservar uma visão integral do mundo - do seu mundo universalizado, bem entendido - criam um Estado melhor, uma sociedade mais tolerante e pacífica e indivíduos mais sãos. As outras, que deitaram tudo na fornalha do apetite, da inveja, da iconoclastia, criaram sociedades impacientes, reivindicativas, feitas de pequenos nadas absolutizados e não raro inexistentes, indivíduos frenéticos, possessivos cheios de direitos e cheios de amuos. Compreendi, finalmente, o "sorriso thai", como compreendi, finalmente, o ar maniento, impertigado e carregado de nervos da generalidade dos ocidentais com quem me vou cruzando.


Chefe de Estado ocidental: a maior potência

Chefe de Estado budista: o mais pequeno país da Ásia


เพลงเฉลิมพระเกียรติ

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

O que ri... Aliás, parece-me que quanto a este tema, já chegámos ao "rei vai nu", tais as patetices arvoradas em arte que por aí se visitam. De boca aberta e abanado aprovadoramente a cabeça, os excursionistas de instalações e garatujas, não querem parecer "incultos e tacanhos". Assim, fazem as delícias dos aproveitadores do costume. Já entrei em "museus" e "colecções", dos quais não retiraria uma única peça para levar como recordação. Pelo menos, as "envernizagens" (como espantosamente escutei há tempos) servem para tomar uns copos e comer uns pastelinhos. Bem bom...

Combustões disse...

Pois, Nuno, os artistas que não estão envolvidos no negócio dos "críticos de arte" e os que sabem fazer um risco contínuo são vistos com desdém pelos fazedores de lixo de luxo. Esta não é a estéril polémica da "arte moderna v. arte antiga", pois sempre houve "arte moderna": é o choque entre o que fica e o que se vende.

manuel gouveia disse...

Não me parece plausível que seja possível julgar as pessoas pela sua aparência e muito menos o seu intelecto. Pode alguém com uma deficiência motora ser inteligente? Os que sofrem de deslexia corporal podem ser inteligentes?

Somos mais do que uma pose para uma foto de estado. Mas julgo que o autor deste blog sabe muito bem isso, mas o efeito Bush é realmente poderoso! Nunca percebi o fascínio pela criatura.