29 março 2009

A repetição de uma tragédia


Primeiro saiu de cena Robert McNamara. Foi em Fevereiro de 1968. A campanha de bombardeamentos indiscriminados do Vietname do Norte e do Laos não resultava, assim como não resultara o célebre Agente Laranja, a política dos aldeamentos e o controlo diurno dos arrozais seguido do recolher às bases ao entardecer. Os norte-americanos, tolhidos por um inimigo que não desarmava, faziam uma guerra de doze meses. Quando terminava a comissão, as tropas experimentadas no terreno eram rendidas e entravam mancebos absolutamente impreparados. A Ofensiva do Tet deixou a descoberto a fragilidade desse exército de cidade, ar condicionado e logística a perder de vista. Depois, chegou a vez de Westmoreland, que anunciou em Saigão o "novo plano para vencer a guerra". Corria o mês de Março de 1968. A nova estratégia para a guerra limitava-se a repetir ad nauseam a superioridade tecnológica e a colossal desproporção de forças, apostando no atrito como forma de obrigar o inimigo a desistir. Menosprezava-se o inimigo de pé rapado e teimavam em chamar-se-lhe "não convencional". A América carregava ainda o fardo da ilusão da repetição de retumbates vitórias ditadas pelo iniquilamento do adversário. Lançar carpetes de bombas, como acontecera na Alemanha, não funcionava, pois o inimigo não tinha nem fábricas nem cidades, aeroportos e portos. Daí que bombardear florestas não passava de conforto psicológico que em nada alterava o prosseguir do conflito. Como não se podia desautorizar o mais moderno exército do mundo, iniciou-se a campanha de descredibilização dos aliados. A culpa do eternizar da guerra era do governo do Vietname do Sul, estimado corrupto, bem como dos vizinhos cambojanos e laocianos, que permitiam o acesso ao seus territórios dos guerrilheiros comunistas. Em 1972 já ninguém acreditava naquela guerra. Os EUA aceitaram sentar-se à mesa com os comunistas, anunciaram o início da retirada, reconciliaram-se com os chineses e abandonaram à triste sorte os aliados.


O mesmo se está a passar no Afeganistão. Os Talibãns não desarmam, os bombardeamentos não intimidam, o governo de Cabul é alvo predilecto da campanha dos media americanos, o Paquistão é apontado como responsável pela crescente ousadia dos guerrilheiros e Obama anuncia a "nova estratégia". Sabemos qual será o desfecho. Karzai vai ser abandonado e imolado, o Paquistão vai cair e a guerra vai ser resolvida por negociações. Com esta derrota mais que esperada, que acontecerá dentro de dois ou três anos, os EUA abandonam a Ásia Central. Depois, talvez a Índia, nova coqueluche "pró-ocidental", a tão gabada "maior democracia do mundo" vai tentar conter mais um tremendo disparate que os americanos semearam e não souberam resolver. E dizem que a história não se repete !


Diana Ross & The Supremes: Stop in name of Love

5 comentários:

adsensum disse...

Acontecerá dentro de dois ou três anos, se não for antes...
Sem dúvida, Miguel, a história repete-se qual mito de Sísifo.

canoa disse...

Guardei este post para o abrir daqui a dois anos. A História não se repete mesmo que a pudéssemos rebobinar mil vezes.

Nuno Castelo-Branco disse...

E os EUA perderam uma grande oportunidade quando Zahir Shah ainda vivia. Não o quiseram. É que para esses idiotas úteis, as monarquias são coisa a erradicar da face da Terra. Zahir Shah podia muito bem ter unificado todas as facções. Aliás, conseguiu-o durante quarenta anos. Agora, apenas espero que o nosso governo não se intrometa mais neste caso.

Gi disse...

Faz sentido e é assustador.

Maquiavel disse...

Sim, Castelo-Branco, Zahir Shah podia muito bem ter unificado todas as facções... ou näo! A mania que tendes que a culpa é da República (e do outro lado, da Monarquia) e näo das pessoas que vivem no país é minimalista e deprimente.
A Finländia é uma república que vive täo bem ou melhor que a Suécia, porque nos dois países os povos pugnam pela correcçäo, integridade, respeito pelas leis; logo, näo é pelo sistema, é por quem vive dentro dele e trabalha para que ele funcione. Em Portugal tanto se esteve mal na Monarquia como na República.

Mais que isso é demagogia...