09 março 2009

Laos. A outra Tailândia, a das lágrimas

Pede-me um leitor deste blogue informação breve sobre um dos mais misteriosos países do Sudeste-Asiático, "um paraíso", como insiste, ainda quase livre do turismo que ameaça desfigurar outros países da região. Trata-se do Laos, que ocasionalmente aflora nas fitas norte-americanas, sempre com o ferrete de exportador de ópio. Aqui lhe deixo, como prometido, algumas notas soltas, bem como bibliografia introdutória ao conhecimento do Laos contemporâneo.



Ao olhar o mapa, assalta-nos a primeira surpresa. Um país encravado entre o Vietname, a Tailândia e o Camboja. A capital, Vientiane ("Vientjién") dir-se-ia estar colocada para receber uma agressão do outro lado do rio Mécongue, a poucas milhas de território tailandês, separada apenas pelas águas. O país não devia ter existido, pois não compagina com a ideia do Estado nação requerido pela teoria ocidental sedimentada no século XIX, nem tão pouco com a de um pólo de "poder universal" na tradição da autocefalia budista da região. Foi sempre expressão geográfica difusa na orla do Sião e do Vietname, que por ele terçaram armas e por fim estabeleceram um mudus vivendi que garantisse a paz possível entre o limes vietnamita sinizado e o mandala do Sião indianizado. Um conjunto de principados sem massa crítica demográfica e territorial, arrozais na planície trabalhados por um povo de língua e etnia thai, planaltos e montanhas habitados por povos anteriores às invasões thai. A generalidade dos laocianos guarda do passado a memória do Reino do Milhão de Elefantes - o Lan Chang - que nos século XIV e XVI foi mais um entre os reinos thais em luta pela supremacia entre cidades do vale do rio Kong (Mécongue/Mekong). Depois, encravado territorialmente, sem acesso ao comércio marítimo, foi-se partindo em pequenas unidades que se exauriam em lutas intermináveis: o reino de Luang Prabang, no norte, centro espiritual, colmeia de mosteiros e homens santos, o reino de Vientiane e, no extremo sul, o principado de Champassak. Nos séculos XVIII e XIX, finalmente, cairam na vassalidade, prestando tributo a Banguecoque. Tal como acontecia com os khmeres do actual "Camboja", os seus príncipes e reinetes eram educados na capital do Sião e seguiam para exercer a sua autoridade limitada assessorados por funcionários da corte siamesa.




Em finais do século XIX, após se apossarem do actual Vietname, os franceses lançaram mão da política de canhoneira e obrigaram os siameses, mediante sucessivos ultimatos, a abandonarem uma superfície maior que a França actual: o Laos e três províncias que hoje integram o Camboja. Foi um artifício dos franceses, logo trabalhado pelos missionários das Missions Étrangères de Paris, pelos historiadores da École Française d'Extrême-Orient e pelos administradores coloniais da Indochina Francesa. É como se um poder estrangeiro se apossasse da região de Miranda do Douro e provocasse a criação de um micro-nacionalismo local, banisse o português e dissesse aos mirandeses que num tempo muito distante haviam sido livres da opressão portuguesa. Cabia ao colonizador "protector" levar os laocianos [e cambojanos] a redescobrirem as fontes da sua outrora e esquecida liberdade. A engenharia resultou e manteve-se após a retirada francesa nos anos 50 do século XX. Ao partirem, os franceses promulgaram uma constituição escrita em francês e estabeleceram uma monarquia na família Khun Lo. O "Laos" - a expressão é semanticamente confusa, pois nunca houvera um Laos, mas um povo Lao (rao, raw), que em thai quer dizer "nós"- viveu desde o primeiro dia da "independência" de ajudas estrangeiras, apenas atenuadas pela exportação de ópio e pelas receitas da tributação fiscal que foi sendo aplicada pelo novo Estado. A herança da missão civilizadora reclamada pelos franceses foi miserável. Ao partirem, não havia quadros, licenciados nem técnicos, pelo que coube aos novos senhores da região - os EUA - forjarem uma elite urbana mediante selecção de candidatos enviados como bolseiros para universidades no Ocidente.


Nos primeiros anos da segunda guerra da Indochina (1954-1975), o Laos manteve uma neutralidade colaborante favorável aos americanos. Foram os anos dourados da ajuda a fundo perdido, das obras públicas, da chegada de hippies ocidentais em busca de um Changrilá, da revolução dos hábitos urbanos, da juventude cowboy, de botas e chapéus lembrando as fitas de John Wayne, da proliferação dos bares, bordéis e hotéis de curta estadia. A lupanarização do Laos só teve equivalente na Tailândia, onde a soldadagem americana deixou doenças venéreas, crianças orfãs e mutilou irreparavelmente o ethos local. Estima-se que a USAF, para conter a infiltração norte-vietnamita da "Pista de Ho chi Mihn" despejou tantas bombas sobre o nordeste do Laos quantas as deitadas sobre a Europa entre 1942 e 1945.

Contudo, nesses anos de fogo, graças a uma monarquia serena e realmente interessada em desenvolver económica e socialmente o território, o Laos constitui-se como um dos mais activos pólos de crescimento da região. O regime foi sempre democrático, a intervenção militar na vida política não se deu - ao contrário do Vietname do Sul - a corrupção foi limitada e a casa reinante, na figura do rei Savang Vathana, ganhou legitimidade acrescida pela boa vontade em resolver os problemas das populações. É evidente que os comunistas do Pathet Lao, o partido comunista criado por indução norte-vietnamita, força ultraminoritária e quase sem apoio, via na monarquia o grande obstáculo à propagação da demência colectivista, do boneco do poder "reaccionário e feudal" e da mentira de um poder "fantoche manobrado pelos imperialistas".

Chegou o fatídico ano de 1972, quando Nixon, agora amigo dos chineses, decretou o abandono da presença militar americana na região, entregando amigos e aliados fiéis à triste sorte da imolação pelos comunistas. Os comunistas, sabendo que o povo [tal como hoje na Tailândia] era muito apegado à monarquia, fizeram crer que aceitavam um governo de reconcialiação nacional sob a égide do Rei. Depois, como o haviam feito na Roménia, iniciaram as manifestações "espontâneas", as greves gerais, a intimidação dos opositores, os julgamentos públicos, as ocupações, o contrlo da comunicação social - que era libérrima e isenta de censura - e decretaram a instauração de uma República Popular. Os Hmong, povo das montanhas que sempre constituira temível dique de contenção anti-comunista, sofreram genocídio, milhares de monárquicos foram abatidos sem julgamento e outras dezenas de milhares atirados para campos de "reeducação", o exército e a polícia extintos. O mais negro regresso à lei da selva imperou durante a segunda metade da década de 70 e meados dos anos 80. Os comunistas - apodados khon paa (homens da selva) pelas refinadas classes dirigentes ocidentalizadas - trouxeram o caos. Impreparados, analfabetos, fanatizados e brutais, causaram danos maiores que a guerra. Em finais dos anos 70, o Laos era um imenso campo de trabalhos forçados. O país viu então partir 15% da população com destino à Tailândia - porto de abrigo para todos os perseguidos da região - e assim se fossilizou até ao desmebramento do bloco comunista. A família real - toda a família- foi enviada para um campo de reeducação e aí abatida ou morta por privação de alimentos e assistência médica. Tal com na França, depois na Rússia e no Iraque, a morte do Rei era condição para lançar sociedades inteiras numa espiral incontrolável de morte e violência. Há dias, foi inaugurada com pompa a nova ligação ferroviária entre a Tailândia e o Laos, precedida pela visita do primeiro-ministro tailandês a Vientiane. Em suma, a rendição dos cacos do comunismo mais impiedoso - agora corruptíssimo - ao passado. Diz-se que os tailandeses controlam já 60% da economia do país e que se as coisas progredirem no sentido da satelização laociana, o próximo chefe de Estado após o colapso mais que certo do comunismo será... o Rei da Tailândia. Por outras palavras, se o Laos tiver autenticidade e for algo mais que um Estado-tampão, só tem de restaurar a monarquia para garantir a sobrevivência.


6 comentários:

manuel gouveia disse...

Terras distantes, histórias que nos remetem para a nossa realidade.

Isto só pode ter acontecido no Laos, diria eu como se acreditasse nisso. Julgo que também nós lutamos pela nossa sobrevivência e pela refundação do nosso estado, onde um centrão político nos tem afundado sem soluções de futuro.

Nuno Castelo-Branco disse...

Que tragédia...

Nuno Caldeira da Silva disse...

Só acrescentar dois pontos à muito boa descrição. O turismo está florescente no Laos, e isso deve-se á Tailândia, uma mão cheia de voos diários para Luang Prabanng, Vientiane e Pakse para além do alargamento das fronteiras e da construção das "Friendship Bridges". Segundo: Os Hmong continua a ser uma problema bastante sério com as sucessivas violações pelos tailandeses dos seus direitos. Existem dois sítios onde há campos de acolhimento, noutros tempos teriam outro nome, na Tailañdia. Petchabum e Nong Khai. Os doadores da ajuda a estes campos, UE à cabeça, estão básicamente impedidos de os visitar e sempre que tal se solicita começa o "ping-pong" enviando a bola (ou seja os doadores) de um lado para o outro sem resposta. Quando ainda há menos de um mês perguntei, directamente ao MNE tailandês se as "fraternas relações", nas sua palavras, protegeriam os Hmongs para que tivessem um tratamento condigno com aquilo que a Convenção de Genebra estabelece, a resposta foi a de que a Tailândia tem acesso aos campos quando são "voluntariamente" (nós dizemos forçadamente) repatriados. Sabendo-se a forma como são tratados quando estão deste lado da fronteira, qual será o interesse depois de serem despachados? São um povo que continua a sofrer mas do qual nunca se lê uma linha na comunicação social e isto não quer dizer que não haja bastantes países e organizações como a ONU que não lutem por isso.

Portaria ILEGAL disse...

José Eduardo dos Santos Presidente de Angola depositou uma coroa de flores na estátua do Camões não sem antes perguntar se ela estava à venda, conhecedor de como Portugal trata o seu Património o Presidente Angolano sugeriu a compra da Assembleia da Republica para lá instalar um campo de golfe, toda a comitiva aplaudiu a ideia e houve até quem emocionado aponta-se a Torre de Belém como o local ideal para a nova embaixada Angolana.

LUIS BARATA disse...

Um país, o Laos, que estou a pensar visitar juntamente com o Camboja e o Vietname. Belo texto, como habitualmente.

Beto disse...

Amigo,

Estou profundamente feliz com sua bela explanação sobre o Laos. Sempre tive muita curiosidade sobre este país. Somente vos peço que se for possível descrever com mais especificidade o que realmente aconteceu com a Família Real do Laos e se ainda há algum remanescente deles por esse mundo afora. Obrigado.