16 março 2009

A inveja serve-se com grosseria

Parece apenas um tema lateral destinado a esse pequeno mundo a que só temos acesso quando vamos ao dentista e somos obrigados a folhear as revistas ditas do coração. Mas não, é algo bem mais sério, pois repercute os sonhos e aspirações das pessoas ditas comuns num mundo que perdeu a magia e se deixou tragar no vórtice do mais estreito egoísmo plutocrático. Não, os príncipes e princesas, reis e rainhas não são, decididamente, figuras do jetset, das revistas cor-de-rosa e das croniquetas sociais. Os príncipes e reis que sobram serão, juntamente com os líderes espirituais - Papa, Dalai Lama, Patriarca Ortodoxo - e muitos sacrificados activistas das ONG's, os mais sérios, empenhados e incansáveis defensores das causas justas. Um homenzinho recusou ontem encontrar-se com o Príncipe Carlos, que desenvolve périplo na América do Sul em defesa da floresta, das espécies animais em vias de extinção e dos últimos vestígios da natureza ainda não conspurcada. É evidente que tal recusa, que contraria todas as regras elementares da boa educação, se deve a preconceito ideológico e social.
Os reis e príncipes não são, bem entendido, líderes políticos, não ocupam as suas funções em resultado de golpes de Estado, chapeladas eleitorais e conúbio com os endinheirados. São, até, inimigos naturais dos aventureiros, dos ditadores, dos homens de negócios sem escrúpulos. O Príncipe Carlos que o diga, pois não há figura mais perseguida, insultada e caricaturada que o herdeiro britânico. O seu desassombro perante os magnatas, a defesa que teima em fazer publicamente do desenvolvimento sustentado, da arquitectura tradicional, do património natural e paisagístico tornam-no objecto de um ódio de estimação dos horizontalizadores, dos falsos igualitaristas, dos manobradores e fabricadores de ilusões. Os plutoctratas - como no passado os comunistas e os fascistas - sempre os quiseram eliminar, reduzir a figuras decorativas ou, simplesmente, fingir que para eles não existia lugar no mundo moderno.
As recentes lições que Madoff teve a gentileza de proporcionar aos cegos destes mundo provam o contrário: os reis e as monarquias são o sal da diferença. Sem eles, a rédea solta do plutocrata analfabeto e dos "negócios primeiro" acentuariam ainda mais o tom espectral de uma humanidade alienada na lei da gamela, do consumo e da depredação. Aqui na Tailândia, como no Reino Unido, a realeza é o precioso elo que ainda teima em defender a civilização dos assaltos dos novos bárbaros. Tivessemos nós um chefe de Estado dinástico e não se teria cometido em Portugal um décimo das tropelias e vergonhas que o falso desenvolvimentismo cavaquiano perpetrou contra a integridade da paisagem portuguesa ao longo desses dez anos em que patos-bravos da construção, da comunicação e do "ensino" cometeram atentados irreparáveis contra o ethos do povo. É por isso que não querem ouvir falar em monarquia: querem, sim, umas barbies tolas, uns banqueiros a brincar ao fino, umas charutadas em casinos, umas vilas estilo D. João V, muito popó de alta cilindrada. São, no fundo, os pirosos, os atrevidos, os imbecis e os alarves que também sonham, à sua maneira, em ser reis de qualquer coisa. Só que essas realezas compradas são, sempre, inimigas das pessoas comuns.



Príncipe Carlos, BBC, Março de 2008, declaração de guerra à plutocracia

8 comentários:

Helena Branco disse...

É como muito bem diz meu douto Miguel só um Estado dinástico nos salvaria desta Sodoma mas para se operar a mudança, teríamos que nascer de nôvo!

Duarte Meira disse...

Estimado Compatriota:

Convém não cofundir as pessoas comuns - as que deviam partilhar um senso comum que já foi bom senso - com pessoas ordinárias.

Parabéns pela bela homenagem a um Príncipe que é um dos mais limpos espelhos da Nobreza que resta.

Infelizmente, por este andar, não sei se ainda o veremos - como devia ser há muito tempo - como rei.

Luis disse...

Gostei muito deste post, principalmente da parte final. Já tinha reparado que as nossas "elites" actuais consistem numa caricatura horrível da aristocracia, mas não consigo expressar os meus pensamentos tão bem como você o fez: saloios que gostam de chamar uns aos outros Sr. Dr. e Sr. Eng., títulos que substituem o Conde e o Duque, e que gostam de se arrear com albardas de marca, não dispensando a respectiva arreata; bestas que gostam de se refastelar com pratos e vinhos que não sabem apreciar; patos-bravos especialistas em pintura e arquitectura (coisas realmente tenebrosas e pirosas), etc, todos eles contribuindo à sua maneira para este carnaval perpétuo das nossas cidades. Na sua ânsia de emular a nobreza esquecem-se de um pequeno pormenor: noblesse oblige.

joshua disse...

Subscrevo em absoluto. Os portugueses precisam de ver alguém absolutamente livre de amarras, alguém independente e íntegro Patriota: o amor a Portugal não se conjunga com esta caterva de reles em funções delicadas de Estado.

Há um Homem de Estado nestas condições derradeiras? Há!

Karocha disse...

Muito bom post.

como sempre, plenamente de acordo consigo joshua!

Cumprimentos
Manuela Diaz-Bérrio

manuel gouveia disse...

Eu quase me sinto tentado a concordar... mas depois olho para a vizinha Espanha e vejo os Mario Conti e os Gil e Gil foram varridos pela sociedade civil através dos seus políticos eleitos. Um rei não é um Messias. Se um povo não fizer a sua caminhada estará irremediavelmente condenado à barbárie.

Maria Teresa Lopes disse...

Descobri este espaço de blogue em blogue, como tanta vez acontece neste mundo cibernáutico. Não me lembro onde comecei. Também não interessa. E embora tenha algumas opiniões divergentes, não podia deixar de manifestar o meu apreço pela seriedade e pelo interesse que este espaço me proporcionou.
Voltarei.

Teresa

Maquiavel disse...

Príncipe näo é Rei, assim como Vice-presidente näo é Presidente. Estäo em igualdade de circunstäncias, säo os 2.os na linha de autoridade. Qual é o problema.

O "homenzinho" foi eleito democraticamente, enquanto o príncipe teve a sorte de nascer em berço de ouro. O segundo até tem mais dever em mostrar o que vale, porque o primeiro teve já de o fazer, ou näo ganharia o lugar. Que, como se sabe, näo é eterno.

Mais respeito pelas decisöes do povo.