31 março 2009

Inveja e política


"A inveja é muito mais dolorosa que a fome, pois trata-se de uma fome espiritual". Não posso precisar se o aforismo é de Unamuno ou de Ortega y Gassett. Li-o algures há muitos anos e ficou-me gravado na memória, pelo que o transcrevo livremente. O mundo moderno é o império da inveja. As solenes, grandiosas e generosas proclamações, as juras de amor à humanidade, à igualdade e à justiça, a altissonante trilogia de 1789, as cartas magnas do esperanto do ilusionismo escondem - aprendi-o com a vida - o mais pequeno, mesquinho, desprezível e invisível veneno corrosivo de que se nutrem os homens. A inveja é diferente de outras emoções dolorosas. Ao contrário do ciúme, que é defeito de uma qualidade, a inveja é um sofrimento absolutamente gratuito e negativo. A inveja vive como um tumor psicológico que se compraz com o sofrimento alheio. Como não se quer reconhecer como tal, rodeia-se de escusas e fortalece-se com desculpas, tentando projectar nos outros - numa família, numa classe social, numa nação - aquilo que é atributo de um homem. Acreditei durante anos na benignidade do maior invejoso da tradição intelectual europeia (Rousseau), como muitos entre nós acreditaram na generosidade de um outro grande torturado (Marx). Não resta margem para dúvidas que um e outro tiveram um tremendo impacto sobre o pensamento ocidental ao longo dos últimos duzentos anos e que a polaridade positiva que se lhes opõem (Nietzsche) depressa caiu sob a furiosa gadanha dos horizontalizadores. Acabou o tempo dos heróis, dos grandes destinos e dos homens de missão, pois as pessoas não aceitam, não querem nem entendem que a diversidade e a riqueza da espécie dá a uns vantagem sobre os outros, que a inteligência, a lealdade, a criatividade e o esforço estão mal ditribuídos. O motto é "sejam iguais uns aos outros". Daí que não se permita a diferença que eleva e dá o exemplo. Hoje conversei com um fulano que teve a sinceridade de me confessar o cerne de todo o ódio que nutre pela monarquia neste país. Parecia culto e discorria com facilidade, sempre encavalitado em racionalidade e coerência, até que deixou cair, certeiro e implacável, o punhal sobre as suas anteriores afirmações: "eu só seria monárquico se tivesse nascido rei".
A inveja é um grave padecimento individual, mas quando se transforma em visão do mundo gera loucura colectiva (nazismo), empobrecimento colectivo (comunismo) ou, simples, comezinha e medíocre, a tirania dos homens pequenos que alguns teimam em confundir com a democracia e com a lei da maioria. Viram o retrato de família dos G-20 ? Ali está a inveja entronizada.

4 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Por cá a coisa é como uma lepra, percorrendo a correr Belém e acabando em qualquer água-furtada, depois de escalar em S. Bento :)

Maria disse...

Inveja=Maldade.
Uma parte ínfima da humanidade - a que se capacitou de que é dona do mundo - é intrìnsecamente má e exactamente porque o é, eis porque conseguiu armar-se tortuosamente de um poder e força tais que lhe permitem estar a aniquilá-la lentamente, cada vez em maior número, sem que haja um contra-poder que se lhe oponha.

A inveja é sinónimo de ódio, desprezo, cobiça, ganância. Estes são sentimentos de uma extrema baixeza moral difícil de quantificar e todos eles se encontram consubstanciados num único, a Maldade na sua forma mais cruel. E quem possui aqueles no seu mapa genético, sofre inexoràvelmente desta no seu grau mais elevado. E se se é invejoso por natureza e ainda se tem a sorte do poder mundial lhe cair nas mãos, então a humanidade está perdida. Porque a ambição máxima daqueles que são profundamente maus, dado que doentiamente invejosos, é só um, destruir o ser humano seu igual e por uma única razão: eles odeiam-se como pessoas e ainda mais o acto de terem nascido (raríssimos são os casos em que este tipo de gente não odeia visceralmente os próprios progenitores). E quem se odeia, regra geral odeia o outro. Daí não conceberem o facto de haver uma só pessoa no mundo que, diferentemente deles, para além de praticar o bem (pecado máximo na concepção de quem só admite o mal), ainda por cima ambiciona ser feliz. A felicidade dos povos, que as mentes doentes consideram simplesmente inconcebível, é a razão principal pela qual elas fomentam guerras artificiais contínuas, semeiam mais fome onde ela já é dramàticamente insuportável e provocam tragédias horrendas por todo o globo. Uma vez que não se pode matar toda a humanidade de repente, então que lhe seja provocada a máxima infelicidade possível enquanto viva - através de todo o tipo de violência, d'acidentes aéreos, marítimos e terrestres, do medo em estado latente, da instabilidade económica, dos conflitos étnicos e/ou raciais, dos assassinatos, dos raptos, dos desaparecimentos de crianças e adultos, da dor física e espiritual, da fome generalizada, do desemprego, da doença, da destruição da juventude pela droga. Aquele que é dominado pela Maldade, porque esta é produto de uma inveja corrosiva em relação a tudo e todos o que o torna numa pessoa permanentemente insatisfeita e imensamente infeliz, não suporta que o seu próximo se sinta mìnimamente feliz. O sentimento de paz e conforto que transmite bem estar aos povos, não lhes é permitido. A felicidade está-lhes pois terminantemente proibida.

Podemos apontar, um a um, aqueles que em Portugal querem a nosso Mal e por extensão a nossa infelicidade, porque sendo infinitamente maus eles odeiam-nos. Os obreiros da doença social de que o nosso país gravemente padece estão quase todos ainda vivos, eles representam a Maldade na sua mais pura concepção.
Do mesmo modo que em Portugal desde há três décadas e meia, a nível global temos o paradigma da Maldade absoluta nas personagens maquiavélicas que têm sucessivamente gerido a economia e política mundiais desde há muito mais tempo. O seu resultado cabal verifica-se observando o estado lastimoso em que se encontra o mundo desde então.

E tem toda a razão, esses da fotografia estão no seu verdadeiro elemento. Eles são os representantes efectivos do Mal no seu estado puro. Mas que não nos iludamos, antes destes os que ocupavam os mesmos cargos eram iguaizinhos sem tirar nem pôr. E os que lhes sucederem serão tirados a papel químico de todos os anteriores. Na realidade a Maldade só sobrevive no seu próprio meio, simultâneamente alimentando-se do mal que provoca e multiplicando-se contìnuamente e, tal como os vírus malignos, só desiste d'atacar quando pressente totalmente destruído o tecido orgânico saudável onde inicialmente se havia alojado. É o que tem acontecido à Humanidade. Até que se invente um potente antídoto que lhe trave a progressão.

Muitos parabéns pelo seu Blog. Finalmente consigo colocar comentários! Quase sempre concordo com o que escreve, uma vez por outra não. Mas leio sempre os seus escritos com muito interesse.
Maria

Samuel de Paiva Pires disse...

Excelente, como sempre!

E já alguém dizia que a inveja é o desporto nacional favorito dos portugueses.

Um abraço

Wegie disse...

Talvez fosse útil a essa senhora Isabel Jonet conhecer a história da American Humane Association que começou por proteger animais de abusos e tornou-se na pioneira da luta contra abusos perpetrados contra as crianças.