19 março 2009

Ilusões capitalistas

O bazar


É de manifesta evidência a impreparação da generalidade dos nossos empresários para arrostar com serenidade os desafios. A ausência de uma cultura de risco calculado, a crença nas árvores pataqueiras e nos manás chovendo graças celestiais na 25ª hora, o chupismo do subsidiarismo, o eterno recuso ao Estado que já foi Casa da Guiné e da Mina, Casa da Índia e até o Entreposto-holding que até dava emprego a muito imbecil que saía da metrópole e chegava às áfricas com adamanes de reinete. Em Portugal só houve economia de transporte, a indústria e os ofícios sempre foram olhados como estranhos à natureza dos portugueses, o Estado viveu sempre paredes-meias com as famílias que fizeram a banca, os seguros e a bolsa, a agricultura nunca passou de actividade de subsistência.


É estranho, pois, que os nossos capitalistas, agora tão euro-dependentes como outrora Estado-dependentes, se reivindiquem de um pensamento liberal que nunca vingou, pois a empresários destes sempre foi necessária a muleta do proteccionismo, do monopólio e do amiguismo que ganha concursos, que sufoca a competição e perpetua o medo dos pequenos em avançarem para o terreno do mercado. O pequeno, logo que reune meia dúzia de cobres, ora faz uma casa, ora abre um café ou uma retrosaria; tudo coisas importantes. Quando se fizer uma história do empresarialismo português afundar-se-ão todas as pequenas e grandes mentiras sobre o tão propalado como inexistente "capitalismo em Portugal".


Tudo começou com meia dúzia de homens sem escrúpulos que dizimaram o património do Infantado e das Ordens Religiosas, dividindo-o como saque no fim da guerra civil de 1832-34. Depois, essa dúzia de famílias, abriu portas ao capital inglês que comprou tudo o que havia para comprar no rectângulo e nas colónias. Nos anos de 20, dos telefones aos químicos, do carvão aos combustíveis líquidos, dos vinhos aos minérios, das ferrovias às madeiras, tudo era "anglo-português": ou seja, Portugal era, de facto, uma colónia económica britânica. Foi necessária a crise global de 29, o recuo da Albion e o ascenso das tendências autárcicas para extirpar tal dependência. A entrada de Portugal na Europa - que data do século XIX e não da adesão à EFTA ou da entrada aos empurrões na CEE - nunca beneficiou a generalidade do povo português. Beneficiou, sim, sempre e apenas, as tais "famílias" que, cansadas do controlo que Salazar exercia sobre os negócios e fortunas - que queria devedoras do paternalismo estatal - se viram de repente nas sete quintas do tudo poder fazer sem freio e sem contas a prestar.


E o que fizeram essas famílias com a oportunidade de ouro que lhe caiu nas mãos ? Mostraram capacidade de inovação, empenharam-se na mudança da cultura empresarial, criando um mercado competitivo, diversificado e agressivo voltado para o exterior ? Não, fizeram mais bancos, contraíram empréstimos a bancos estrangeiros, impuseram ao português inconsciente a ilusão do crédito - da habitação, do automóvel, da tv, do computador, das férias nas Caraíbas, da segunda casa - e hoje estamos endividados até aos gorgomilos. Com a ilusão de uma sociedade avançada, Portugal terceirizou-se, o rural quis-se fazer colarinho branco, o marçano técnico de informática, a bordadeira doutora.


Agora, a crise já não é só crise: é coisa para ficar para muitas décadas. Alguém responde por isso ? O causador desta coisa sem saída é só Sócrates ? Onde estão os "jovens agricultores", os "jovens empresários", os mangas arregaçadas que viveram todo este tempo dos milhões dados por um regime que seguiu com canina fidelidade as más lições do passado ? Onde estão os magos do economês, do marketinguês, do gestanês e toda essa geringonça de artifícios que não gerou uma marca, uma empresa reconhecida internacionalmente, um grande banco, uns reles ténis ou até uma descascadora de batatas made in Portugal ? A culpa é só de Sócrates ? Não, não é. É um estado de espírito. Leio que os gregos conseguiram comprar aos cubanos o segredo da confecção dos puros Havanos e passam a maiores produtores do mundo do cobiçado charuto milionário. É assim. O verdadeiro espírito capitalista não é parasitário, apela ao atrevimento. Mas dizê-lo aos nossos liberais é coisa tão estranha como explicar a um bosquímano que a garrafa de Coca Cola é apenas uma garrafa !

4 comentários:

Diogo disse...

Não será essa a prova de que só vamos lá com um regime do tipo Estado Novo, devidamente adaptado aos dias de hoje? Face às característigas do português aqui (bem) descritas e face aos diversos períodos em que podemos catalogar a história de Portugal, que outro período que não o do Estado Novo se mostrou mais compatível com o géne português?

Nuno Castelo-Branco disse...

ehehehehehe, desculpa-me por comentar assim. Não possuo o teu talento para me exprimir assim, mas tenho andado a tentar dizer a mesma coisa há que tempos! E no entanto, "eles" insistem!

Helena Branco disse...

Nem me falem em Estado Novo...mas que precisavamos de um Novo Estado não tenho dúvida alguma!

Manuel disse...

então a receita para incentivar o atrevimento dos capitalistas é...
Estado?

a receita para acabar o parasitismo é...
Estado?

meu caro, o que cada um faz com o seu dinheiro é da íntima responsabilidade. enquanto liberal, estou preocupado com as minhas contas e as contas do dinheiro publico, isso sim promotores de parasitismo.

quanto ao decreto-lei de 1834, não fosse o caciquismo dos grandes generais da revolução, e teria sido uma Land Reform com poucas houve. antes de 1834 já cá estavam os ingleses há muito tempo,, o suposto liberalismo trouxe os barões. ao mesmo tempo, e apesar de tudo, o fim das companhias monopolistas económicas retomou o crescimento economico que ja se adivinhava do reinado de Maria I, claramente um reinado quase-liberal no que toca à economia.