12 março 2009

Fé menina


Ontem fez um calor de ananases, 36 graus à sombra, uma brisa de fornalha, as pedras ardendo. Passei pelo colégio católico para entregar a um padre amigo um convite para a conferência sobre Portugal que aqui em Banguecoque terá lugar em finais de Março. Época de provas e exames. Um silêncio de supulcro, aqui e ali cortado pela repetição de mnemónicas que alunos agrupados em torno de mesas no recreio repetiam à exaustão. Os asiáticos são estudantes sofridos. Aguentam oito, nove, dez horas lendo, relendo, recitando. A um canto, aos pés da Nossa Senhora, dois rapazes de joelhos e suados, rezavam. Ali estiveram quase um quarto de hora desfiando o rosário. São os católicos tailandeses, fruto da nossa presença. Haverá em Portugal algum miúdo que se ajoelhe durante um quarto de hora sob um sol inclemente pedindo a protecção da Virgem para os exames que se aproximam ? Estas coisas deixam-me a um tempo perturbado e cheio de alegria. Afinal, no mundo, ainda há espaço para a espiritualidade e para o valor teraupêutico da oração.

6 comentários:

Luís Palma de Jesus disse...

não, não há gente assim. muito impressivo.

Helena Branco disse...

Sim! experimento também o valor terapêutico. Sempre que oro reponho a confiança e só depois em Paz me entrego à espirutualidade.

A sua experienciação ajuda muito...
Obrigada

Nuno Castelo-Branco disse...

Sabes, Miguel, eu não sou propriamente um crente. No entanto, quando fui a Ayutthaya e vi as ruínas da missão portuguesa destruída pelos birmaneses, reparei num pequeno altar tipicamente siamês, que continha uma imagem de Cristo e outra da Nossa Senhora. Mesmo ao lado, bem visíveis, os esqueletos dos portugueses que ali morreram há séculos e que estavam impecavelmente preservados pelos nossos mais velhos aliados no Oriente. Foi instintivo: ajoelhei-me e recitei as únicas orações que conheço. Por Portugal

João Amorim disse...

Os "miúdos" urbanos não sabem rezar, não têm fé e os que têm sofrem da vergonha social em o assumir. Tanto ouvem obre a Igreja que preferem a terapêutica da novela ou da gasosa com Gin.

manuel gouveia disse...

Seria seguramente uma imagem insólita. Vivemos numa economia de meios e de ampla fruição as coisas boas da vida. Espiritualidade? Talvez um dia a Coca-Cola a promova.

João Pedro disse...

EU costumava rezar na capela da minha antiga faculdade antes dos meus exames (sobretudo das minhas orais), mas protegido dos elementos exteriores, jamais ao sol abrasador.