11 março 2009

Defender a sociedade dos indivíduos

Disse aqui há semanas que as pessoas devem ser vigiadas, seguidas, escrutinadas e inspeccionadas. Pois bem, numa escola na Alemanha, um jovem armado acaba de imolar dezasseis numa assentada. Dirão alguns que o culpado é o "mundo moderno", a "anomia incontrolável", a "juventude sem baias", os "jogos de computador", o "culto da violência", a "crise dos valores" e outras frases sem ponto de aplicação que tudo explicam e que nada querem dizer. A violência sempre existiu, assim como os comportamentos anti-sociais, a tentação da infracção e do risco absoluto. O problema não é de hoje, pois a literatura romana e até os papiros egípcios estão carregados de recriminações contra os "jovens de hoje, que já não querem trabalhar e até chegam a casa a horas proibitivas". O problema não é cultural, nem geracional, nem de género. O problema é o homem; o problema da violência é um antropema que se funda na profundidade das pessoas, que estimamos domesticadas, mas à primeira oportunidade dão largas à torrente de instintos primitivos que jamais valor algum conseguiu erradicar. A solução, bem entendido, preventiva ou punitiva, é sempre paliativa. Impedir uma criatura de violar, estrangular, roubar, queimar, torturar é tarefa vã dos policias, dos sociólogos, dos educadores e toda meia humanidade que profissionalmente se entrega a sarar ou evitar que a profundidade animal se instale. O que é elemento de toda a evidência é que as pessoas são perigosas e que se não sentirem, pendendo sobre as cabeças, a espada da retribuição dura, tentarão. Isto aplica-se aos governantes [naturalmente tentados à corrupção], aos militares e policias [naturalmente tentados a usar as armas que o Estado lhes entregou], aos médicos [naturalmente seduzidos pelo poder de vida e morte sobre os pacientes], aos legisladores [a quem é dado poder quase divino sobre a sorte daqueles que caiem sob o império das leis]. É por isso que as "sociedades autoritárias" tendem a não tornar-se Estados totalitários, como tendem, habitualmente, a não permitir excessos dos indivíduos. Na génese da violência estão culturas permeáveis à infracção, ao desprezo pela autoridade e à recompensa pelo acto atrevido. No fundo, o liberalismo foi sempre uma miragem optimista: quando se dá aos indivíduos rédea solta, salta um Madoff, um "médico da morte", um Landru ou um atirador sobre alvos em movimento. A autoridade, qualquer que seja, é sempre melhor que a falta dela. Portugal que o diga.

4 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Há dois dias, mais um tiroteio em Lisboa. Por enquanto, não morreu fosse quem fosse. Mas, na próxima vez, como será?

joshua disse...

Caríssimo Miguel, outros dirão que uma sociedade repressiva e sexualmente complexada, para além da disciplina e da autoridade coesiva e organizadora no seu seio, também favorecerá estas explosões de insanidade sanguinária.

Nada digo. Penso apenas que a violência imotivada é imprevisível e inantecipável. Deverá haver, sirva isto como rudimentar explicação, porventura um magma de desafecto, aridez emocional, além de complexas características de disfunção endógenas, bloqueios hormonais e metabólicos, que conduzem à derradeira explosão.

Nada mais dissimulado que o verdadeiro e violento sanguinário. Ninguém mais misterioso e recatado também. Do bipolar Aquiles ao triste Tim K..

Jorge Ferreira disse...

Caro Miguel,

Parabéns pelo post! Aproveito para te agradecer antecipadamente a correcção do link para o Tomar Partido:)))

Abraço

JF

manuel gouveia disse...

Entre a perda da liberdade e o risco, prefiro o risco. Acredito em autoridade sem autoritarismo e sem um estado ameaçador, que envia a polícia de véspera intimidar putativos manifestantes!