16 fevereiro 2009

A vida e morte dos impérios


A adesão norte-americana à ideia de império data de 1899, quando o Havai foi anexado após um golpe de força dos residentes americanos nessa paradisíaca monarquia do Pacífico. Meses antes, o Tratado de Paris, firmado entre os EUA e a Espanha, havia selado o fim do império espanhol, com a entrega aos americanos de Cuba e das Filipinas. Depois, entre 1900 e 1950, foi meio século de imparável ascensão capitalizada à custa da Europa. Entre meados dos anos 50 - com a Guerra da Coreia e o início do envolvimento no conflito do Vietname - e o fim da URSS, os EUA consolidaram posições e planetarizaram o seu poder. Foram, aproximadamente, 50 anos de consolidação. Com o ataque a Nova Iorque, os EUA iniciaram a fase descendente do seu ciclo imperial. Há quem atribua a culpa do início da decadência norte-americana a Bush. Contudo, para quem gosta de exercícios de história comparativa, parece existir uma lei histórica da longevidade dos impérios que raramente falha na detecção da estrutura tricíclica de ascensão seguida de consolidação e, logo de imediato, de irreversível queda. Atendo-nos à experiência dos impérios mundiais modernos (Portugal, Espanha, Holanda, França e Inglaterra) - não contando aqui os impérios falhados, o mais curto dos quais foi o de Hitler, que durou apenas seis anos - verificamos que a lei funciona para todos os casos.


A Espanha iniciou a ascensão imperial com a conquista do México e do Perú nos anos 20 e 30 de 1500, certificando a sua categoria de potência hegemónica entre a assinatura da Paz de Augsburgo (1542) e a batalha de Lepanto (1571) - ou seja, cinquenta anos - seguindo-se meio século de consolidação, que abriu as primeiras brechas a partir de 1630, quando o curso da Guerra dos Trinta anos se voltou contra o império dos Habsburgos, o tal em que o sol jamais se punha. A fase minguante decorreu, pois, entre 1630 e 1680, com a derrota dos terços na Europa e a lenta satelização da Espanha pela França de Luís XIV, que seria confirmada poucos anos depois pela ascensão ao trono de um familiar do rei francês.


Portugal iniciou o seu ciclo imperial global em 1488, com a viagem de Bartolomeu Dias. Nos cinquenta anos que se seguiram, dominou sem oposição as costas ocidental e oriental de África e o comércio a longa distância da Ásia. Meio século depois, durante a década de 1530, sob D. João III, iniciava a consolidação, abrindo mão de posições indefensáveis no norte de África e reavaliando a sua estratégia global nos grandes espaços do Índico e Atlântico. Por fim, entre 1580 e 1640, perdeu capacidade planetária e passou à defensiva.


A Holanda teve igual sorte. De 1581 (criação das Províncias Unidas) à grande ofensiva marítima e comercial dos anos 30 de 1600 - que culminou com a tomada de Malaca aos portugueses, em 1641 - a Holanda foi predatória, assestando rudes golpes no declinante império português e esgotando a força militar dos Habsburgos numa luta sem fim. De 1640 a 1684 (fim da Quarta Guerra Anglo-Holandesa), manteve-se como protagonista cimeiro na intriga internacional e alvo da invejosa competição de franceses e ingleses. Por fim, isolada e esgotada, passou a satélite da França revolucionária.


A Inglaterra parece epitomizar a lei. Não compaginando com autores que situam o "primeiro império inglês" entre finais do século XVI e a independência norte-americana - pois tal império ocupava zonas marginais e pouco disputadas do globo - o império britânico nasceu com a derrota final de Napoleão (1815) e expandiu-se até finais da década de 60 do século XIX. Depois, entre a década de 70 e os anos 20 do século XX, lutou para manter a hemegonia em África e na Ásia. Com o fim da Grande Guerra, e até aos anos 60, foi abandonando posições para a emergente potência marítima global, os EUA, até se satelizar aos objectivos permanentes do império americano.


Estamos, pois, a assistir às primeiras décadas do ciclo imperial terminal dos EUA. Guerras localizadas, declínio do prestígio entre aliados e crescente agressividade dos inimigos, com lenta afirmação da recusa do seu modelo e visão do mundo, incapacidade para resolver crescentes tensões internas, substituição da elite dirigente, perda de competitividade comercial, todos estes factores são eloquentes na confirmação do plano declinante a que não fogem os EUA. Se tudo correr de acordo com a genética imperial, os EUA terão terminado a sua projecção de força externa planetária lá para a década de 40 ou 50 do presente século. Resta saber - eis a grande amargura - se os impérios planetários terminaram e se o poder mundial, como se desenha, será disputado entre potências hegemónicas circunscritas às respectivas esferas de influência. Se assim for, a multipolaridade, mais que um agente aplacador da conflitualidade, restaurará uma ordem internacional para a qual não mais lugar haverá para os grandes areópagos, para as cartas universais e para a ilusão de uma aldeia global onde todos os protagonistas são, teoricamente, iguais. O mundo que se aproxima será certamente pior, mais violento, imprevisível e irrefreável na vontade de poder inerente aos Estados e aos homens.


Rule Britannia

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

E parece que será isso mesmo que vai acontecer.

Jacinto disse...

Atrevo-me a dizer que é o que ESTÁ a acontecer.
Permita-me uma pergunta : não terá a "Santa Rússia" saído a ganhar,finalmente?
Recusa (repugnância) do multiculturalismo, alergia a " diálogos civilizacionais", ortodoxia religiosa inquebrantável (Nova Jerusalém oblige...)e patriotismo á prova de bala são valores de peso, no teatro europeu ,face à balbúrdia que se avizinha.