24 fevereiro 2009

Santa nostalgia


Anda por aí um aceso debate sobre o conteúdo dos manuais escolares. É assunto velho, tão pergaminhado como caduco que sobre tal matéria não mais me pronunciarei. Da negociata verdadeiramente veneziana que ronda os manuais sobressai a rendição do Ministério da tutela às editoras, com os seus lóbis, pressões, amiguismos e favores. É nauseante, cansa e desilude qualquer professor que ainda alimente uma réstia de fogo educativo saber que os manuais servem para enriquecer as editoras, para impingir matérias que jamais serão leccionadas, tão manifesta é a falta de tempo para as leccionar mas, sobretudo, a total incapacidade dos alunos delas poderem retirar algum proveito.


Falando com a liberdade de quem de fora se encontra, lembraria que durante décadas, até à chegada de Veiga Simão e do experimentalismo rebenta-quarteirões, os alunos foram educados -dos caboucos da escola primária aos liceus e escolas técnicas - a ler, escrever e contar através de manuais que eram (e ainda são) modelos de clareza, precisão e rigor. Ao acabar a escola, qualquer que fosse o grau, o aluno sabia escrever uma carta, ordenar ideias e argumentos, argumentar e destrinçar o nível de língua requerido. Depois, com o preparatório e o liceu, a cultura e informação desenvolvia-se em espiral cumulativa no conhecimento da História de Portugal e Universal, na Filosofia, na Literatura e nas línguas vivas e mortas (sim, o latim e o grego, sem os quais não se pode aspirar às humanidades). Abro, ocasionalmente, os manuais de literatura de Maria Ema Tarracha Ferreira, os manuais de Matoso pai e até a sempre jovem História de Portugal de Oliveira Marques. Ali está um programa: clareza didáctica, pilares sólidos, português escorreito e sem rodriguinhos pós-qualquer-coisa.


Passaram quarenta anos de teorias e "ciências da educação", formatação ideológica, relativismo e demolição. Se a "desconstrução" deu cabo das faculdades, a "desconstrução" nas escolas e liceus e o seu afã de negatividade e crítica gratuita estropiaram para todo o sempre jovens - hoje adultos com trinta, quarenta ou mais anos de idade - ao ponto de se terem transformado em maus profissionais e maus cidadãos. A cultura respondona, o desprezo pelas fontes da autoridade, o quase criminoso vandalismo anti-português, em suma, a arte de matar o amor pátrio e de o substituir por coisa alguma [europeia] são hoje dados incontornáveis. Pois, acabe-se com essa pirâmide perdulária, reinstitua-se o livro velho, quase eterno, deixem as famílias descansadas livres do imposto revolucionário sugado ano após ano e voltem a ensinar as crianças a ler, escrever e contar, mais as dinastias portuguesas e cronologia indispensável, ensinem os miúdos a saber localizar os Açores ou Macau no mapa, a conhecer a fauna e a flora, mais uns versos, os contos populares, canto coral, os exercícios de redacção e a tabuada. O mais virá com o tempo. Esta é a nossa santa nostalgia, mas que deu frutos.
Eu até faria mais, mas não o digo, pois sairiam de imediato a terreiro os habituais vociferadores, quiçá os mesmos que um dia - se é que não foi ontem - apanham um tabefe ou um encontrão de um aluno. Criámos monstrozinhos e agora é difícil ensinar-lhes que não se esmurra um professor, não se grafitam as escolas nem se fumam charros no intervalo !


Perhaps (Deanna Durbin, 1939)

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Se a isto que propões acrescentarmos o uniforme obrigatório que identifique a "mitragem" na rua em horas de escola. DSisciplina, manuais duráveis e claros; escolas técnicas como antes. Desta forma, talvez acabe a doutourite e recomece o ciclo Escola Pública e Nacional.

Quanto ao que se passou, recordo-me bem de quando aqui chegámos em 74, na António Arroio falarem do Infante, de Vasco da Gama, dos Albuquerques ou de D. Carlos, como "primórdios do colonial-fascismo". É esta "gente intelectua"l que ainda manda!