26 fevereiro 2009

Quando há crise...fala-se de sexo



A receita é velha e não há quem escape à lei universal: quando há crise, ansiedade, medo e frustração, o sexo e o crime funcionam como poderosas forças de atracção e repulsa. Em sociedades transidas e sem futuro, aqueles que por ela deviam zelar - aqueles que a governam e não querem responder pelos maus resultados - inventam processos judiciários, escândalos, escandaletes e leis que distraem e mobilizam o que de pior as pessoas conseguem segregar. Foi assim no fim dos anos 20 e princípio da década de 30 após a débâcle da Wall Street. A imposição do moralão código Hays - o tal que proibia a exibição de beijos, danças sensuais e "pecaminosas", alusão ao adultério e a casais mistos, doenças venéreas, ditos e graças tidos por ofensivos aos "bons costumes" e à religião, críticas às instituições - cobria com o alvo manto da ilusão uma sociedade em que o gangsterismo produzido pela estúpida Lei Seca campeava, onde se realizavam humaníssimos concursos em que as pessoas por refeições e meia dúzia de dólares caiam mortas nas pistas de dança (lembram-se do Os Cavalos Também se Abatem ?) e a prostituição e a sífilis atingiam proporções de praga.


Foi o tempo do caso do bebé Lindbergh nos EUA, dos casos Belbenoit, Émile "Mimile" Buisson e da Cagoule em França, dos Brighton Trunk Murders e Jack "Spot" Comer no Reino Unido. Há crise ? Desemprego ? Pois, invente-se algo que preencha a sede de fantástico e a necessidade de ajuste de contas.


É em tais períodos que os moralões investem forte. Nos EUA da depressão, o Ku Klux Klan procurou criminosos colectivos - nos judeus, nos católicos, nos negros, nos sindicalistas - e fez campanha pela restauração dos grandes valores, mesmo que o seu Grande Dragão, Stephenson, fosse inculpado pelo rapto, violação e morte de uma rapariga. Na Alemanha, com Hitler, foi o que se sabe: em nome da lei natural levaram-se para os campos do Lebensborn milhares de raparigas, obrigando-as a reprodução assistida como se de coelhas se tratasse, proibiu-se que as mulheres fumassem em público, que os cabarés e o fascinante mundo musical que lhe estava associado fosse proscrito, que a música "negra" e a arte degenerada fossem substituídas por duvidosas obrinhas de consultório médico e que a literatura abandonasse o onírico e se envolvesse na promoção de uma espécie de idanovismo ao serviço da "raça". Na Itália, caiu-se nas fitas de "Telefone Branco", estórias sem história, de futilidade absolutamente imbecilizante.

Soube, com dois ou três dias de atraso, da apreensão em Braga de uma obra que exibia a Origem do Mundo, de Courbet, considerada "pornográfica" pelas eruditas autoridades pina-maniqueiras da Cidade dos Arcebispos. É evidente que o preboste que tal ordem deu desconhece Courbet, que só leu Tânias, Ginas e outros monumentos literários, que nunca entrou numa galeria de arte e até desconhece o Cantico Canticorum, essa coisa pornográfica existente em todas as igrejas. O problema nisto tudo é que o preboste faz parte da atmosfera de crise. Há fábricas em falência ? Há milhares de milhões em crédito mal parado ? Ora, invente-se um caso sexual. Assim, sim resolve-se a crise. E porque não mandar cobrir com o púdico veludo negro as escandalosas representações de sexo e violência nas telas do Museu de Arte Antiga ? Porque não criar uma talibanesca Liga dos Bons Costumes para andar pelas praias a mandar cobrir as pernas, as nádegas e os ombros das jezebéis e das madalenas ? Porque não munir de tesoura uma bibliotecária amante dos bons costumes e cortar a eito as iluminuras medievais cheias de corpos nus e demais provocações ? Por mais que queira compreender as nobres intenções de um polícia - instituição que aqui jamais ataquei - não posso concordar com a bondade e ingenuidade de argumentos como estes, pois sem darmos por isso amanhã teremos censura de volta, sobretudo daquela quase analfabeta e de galões que deixava passar o mais venenoso marxismozinho e só se interessava pelas "mulheres nuas". O mal disto tudo não está no sexo e no nu: está na cabeça das pessoas e, para mim, o maior tarado sexual está sempre escondido na pele de um moralão. São os piores: só vêem aquilo que ninguém vê. É o nosso velho gene semita vetero-testamentário a trabalhar para reprimir, punir, inibir e comprazer-se com chamas purificadoras. Esse "deus" e a sua cornucópia de medos nada me diz.

5 comentários:

once disse...

antigamente queimavam-se livros .. temo que esses tempos possam voltar.

JNAS disse...

...
Brilhante e lancinante como sempre...mas o tema é inane e num país à beira do abismo há mais para fazer do que ficar a cismar sobre a vulva que um franciu passou com mestria à tela
...
JNAS

Nuno Castelo-Branco disse...

É cíclico, nada a fazer!

Helena Branco disse...

Dexá-los lá andálos que eles calar-se-ão...se-ão-se-ão-se-ão...

o eco Canticocanticorum...um..um..um...

A Engenharia genética talvez pudesse remediar isto...mas lembra-me HITLER BELZEBU!

Daniel Santos disse...

Pelos vistos Portugal tem também uma força da moral e bons costumes, a PSP.

Temos de reconhecer que muito caso mediático que anda por ai, demasiados, entretém o povo e enche a barriga vazia do cidadão.