09 fevereiro 2009

Qualquer dia dirão que "Portugal nunca existiu"


Fábio Pestana Ramos afirma o que já se sabia desde os anos 50 do século passado: a Escola de Sagres nunca existiu e é confabulação do romantismo nacionalista português de Oitocentos. Vai daí, o afã revisionista lança-se em furiosa catilinária contra tudo o que lembre aos nossos irmãos brasileiros o facto de Portugal haver criado o Brasil. Depois da revoada castelhanista que precedeu a celebração dos quinhentos anos do achamento da Terra de Vera Cruz, em que se quis a todo custo esquecer Álvares Cabral e atribuir o feito a Vicente Yáñez Pinzón, veio o debate de signo indigenista sobre a semântica da "descoberta", pois que inspirada pela desconsideração do "Outro" (como detesto a pedante expressão), o que quer dizer que Portugal conquistou e subjugou violentamente os povos aí existentes. Mas falamos do Brasil, não no império Inca. Falamos de uma extensão imensa de terra, povoada aqui e ali por comunidades recolectoras sem contacto umas com as outras [ou em furiosa luta umas com as outras], de grupos e línguas distintos e de completa ausência daquela uniformidade institucional e cultural que, somadas, produzem a civilização.


Fábio Pestana vai mais longe. Afirma que o Brasil foi tido pelos portugueses de Quinhentos como uma terra do Demo, um purgatório destinado ao sofrimento de lançados e criminosos. É estranho que o insigne historiador se esqueça do texto fundador da historiografia brasileira, a Carta de Vaz de Caminha, ou do impressionante documento que dá pelo nome de A História da província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, de Pero de Magalhães de Gândavo, de 1576. Aí o Brasil, ainda sem o nome confirmado mas com o projecto de terra da promissão, é entendido como o paraíso luxuriante de riquezas e encantos que excedem a capacidade de entender a felicidade dos europeus quinhentistas, habituados a fomes, pestes e rudeza quase dóricas.


Há cerca de trinta anos, antes da fase indigenista, uma certa historiografia brasileira quis exercitar a possibilidade de uma história do Brasil, mas sem Portugal. Foi o tempo de ouro do "Brasil holandês", com hinos e incensório a Maurício de Nassau, ainda persistente entre alguns retardatários. Sim, os holandeses estavam no Brasil para implantar a industrialização avant la lettre, promover a difusão do conhecimento científico, aplicar tecnologias que libertariam o escravo negro do brutal regime da sanzala. Se assim fosse, por que razão haviam tomado S. Paulo de Luanda, porta de saída da mão de obra escrava destinada ao Brasil holandês ? A mesma perspectiva volta contraditoriamente à carga na análise da guerra entre "brasileiros" e holandeses, a qual terminou nos Guararapes (1648). O facciosismo quis ver nessa vitória a certidão de nascimento do Brasil e da "brasilianidade". Coubera aos "brasileiros" reconquistar a sua terra ocupada pelos próceres da VOC e nessa empresa não precisaram nem do Rei de Portugal nem de soldados vindos da Europa.


A verdade que querem esconder é que se houve Brasil, essa foi obra portuguesa, não obra do acaso e das errâncias e feitos de homens duros, como os Bandeirantes, mas de um escopo legislativo que produziu e conformou o imenso espaço a uma unidade irreversível que se veio a realizar com a independência do país. Das capitanias hereditárias às capitanias gerais e aos municípios, aí viveram portugueses e não "brasileiros", pois era essa a designação que ostentavam. Havia "portugueses de Angola", "portugueses de Macau", "portugueses da Índia", divididos entre reinóis (nascidos na Europa) e nascidos no território, mas todos portugueses. O que aqui aflora é, somada à ignorância, a vontade de minorias recém-chegadas em imporem a sua "brasilianidade", nomeadamente os italianos, os alemães, os judeus e até os libaneses e japoneses. Não sendo agentes de construção do Brasil, mas imigrantes que foram ganhando protagonismo e riqueza ao longo das últimas décadas, querem a todo custo impor a sua primazia na fabricação da identidade e do Estado.



Brasil: hino

6 comentários:

Jose Martins disse...

Absolutamente Portugal daqui a uns anos será um país do passado.

Se abandonaram a história, se se europalizou, o passado deixou de pertencer ao presente.

Até eu que parte da minha vida foi dedicada à história de Portugal na Tailândia estou a desinteressar-me dela e virar-me para outros caminhos.

Nuno Castelo-Branco disse...

Subscrevo o teu texto na íntegra. Já agora, que MAGNÍFICA versão do hino brasileiro, a melhor de sempre! Já a ouvi 4 vezes seguidas.

Helena Branco disse...

Pouco sei...mas aqui venho aprender.Receio bem que a Portugalidade seja já a reverberação de um Povo em extinção...

Dom Velasco disse...

O revisionismo que actualmente apaga e desmoraliza a lusitanidade do Brasil é um reflexo da tomada do mesmo pelas ideias revolucionárias que, guiadas por generosos fundos internacionais, vão levando o país à indigência intelectual e ao complexo de inferioridade que se afirma na constante indagação: Se o Brasil não tivesse sido colonizado por portugueses, seria um país melhor?
A pergunta, para além de insultuosa aos nossos antepassados, é estúpida. Outra coisa lá existiria se assim fosse, e tendo em conta o que espanhóis, ingleses, franceses e holandeses construíram em terras com características semelhantes (veja a Venezuela, a Guiana, a Guiana Francesa e o Suriname), não creio que o resultado seria melhor. O Brasil (a América Portuguesa) tem condições para ser tornar uma civilização sofisticada e poderosa, coisa que não pode ser dita de nenhum dos outros países, simples feitorias. Infelizmente, é nisso que estão a transformar o Brasil.
De resto, não dê muita importância a este Fábio. Depois de Gilberto Freyre a academia brasileira foi tomada por mosquitos.

Saudações de um bandeirante.


P.S: Caro Miguel, teria muito prazer em compartilhar consigo algumas informações que julgo serem importantes. Se estiver interessado, poderei lhe enviar alguma coisa por e-mail.

filomeno2006 disse...

Los hermanos Pinzones, eran unos mari....neros, que se fueron con Colón, que era otro mari....nero.......(Canción popular)

Bic Laranja disse...

Somos nós portugueses que anulamos a nossa identidade. Nisso o Brasil permanece bem um reflexo português.
Cumpts.