21 fevereiro 2009

O dilema da liberdade



Mais uma história de escroqueria a somar à admirável ousadia criminosa de Madoff. Stanford foi apanhado e aguarda-se que outros discípulos de Charles Ponzi venham a cair nas malhas da lei; em suma, a clara demonstração pelos factos que aos homens não se pode dar absoluta liberdade, pois amiúde só a sabem utilizar para enganar o próximo. Para aqueles que acreditaram piamente na iniciativa privada sem baias, num Estado mínimo e numa sociedade dirigida pelas misteriosas "leis do mercado", esta crise vem exigir do liberalismo o retorno àquele tempo em que os liberais - flagelados entre o desejo de se ser escravo dos socialismos de signo negro ou vermelho então emergentes e o sonho irrealizável de uma "sociedade antiga", autárcica, estamentária e bucólica - pediram ao Estado o papel subsidiário e regulador. O Estado existe porque a liberdade dos indivíduos contraria a segurança colectiva. Não há teoria sobre a origem do Estado que não aponte essa anarquia primeva em que os homens foram lobos do próprio homem, até ao momento em que estabeleceram em pacto transferir parte da sua liberdade para o Estado. E porque os homens são incorrigíveis, há que os vigiar, saber o que fazem, por onde andam, com quem se dão e o que dizem. É isto que assusta, pois ao fazê-lo, inventam um Estado muitas vezes mais criminoso que os criminosos que são apanhados, pois ao Estado ninguém pode apanhar, dado ter consigo as leis, os códigos, os tribunais, as polícias e as prisões.

1 comentário:

Duarte Meira disse...

«O Estado existe porque a liberdade dos indivíduos contraria a segurança colectiva. Não há teoria sobre a origem do Estado que não aponte essa anarquia primeva em que os homens foram lobos do próprio homem, até ao momento em que estabeleceram em pacto transferir parte da sua liberdade para o Estado. E porque os homens são incorrigíveis, há que os vigiar, saber o que fazem, por onde andam, com quem se dão e o que dizem. É isto que assusta, pois ao fazê-lo, inventam um Estado muitas vezes mais criminoso que os criminosos que são apanhados, pois ao Estado ninguém pode apanhar, dado ter consigo as leis, os códigos, os tribunais, as polícias e as prisões.»

O "Estado" não é composto de indivíduos que é preciso, por sua vez, vigiar? Por quem? Pelos indivíduos cuja "liberdade contraria a segurança colectiva", o que teria dado "origem ao Estado"?...

Como sair do círculo?

Outro ponto: a "anarquia primeva" hobbesiana não é tão fantasiosa como a de Rousseau?