22 fevereiro 2009

Isto não é boutade, é o que penso


Se há coisa feliz no meio desta tremenda catástrofe financeira e económica em que o mundo mergulhou pelas artes e manhas de uma camarilha de criminosos comuns, é o colapso do ícone mais pernicioso do chamado "bem-estar". O maldito automóvel - como é extensa a sua lista de crimes - está a viver maus dias, do estreito de Bering à Califórnia, da Islândia à Suazilândia. Um automóvel é mais perigoso que um milhão de fumadores. Um só destes caixotes de lata armados sobre quatro rodas emite, em cada quilómetro, o equivalente a dez (10) maços de tabaco, mata mais gente por ano que a soma do Somme, Verdun e Estalinegrado, exige mais e mais autoestradas, pontes, túneis e circulares, devastando a natureza, contaminando-a com resíduos químicos e é a primeira causa de morte violenta e gratuita de animais. Como seria o mundo sem este nefasto reduto de "conforto" (outro palavrão que rima com obesidade e invevitável sequela de acidentes cardio-vasculares), como seriam as florestas e as cidades sem essa praga incontrolável ? Lembram-se da bela e pacata Lisboa dos anos 70, antes dos arrumadores, dos automóveis sobre os passeios, dos vinte mil acidentes anotados pelas autoridades, dos hospitais sem os centos de jovens mutilados, inúteis e acamados para o resto da vida, os milhões gastos na patética "prevenção" ? Pois, essa é a factura com que o pequeníssimo burguês pagou - com endividamento, cartões de crédito e sacrifícios inenaráveis - a entrada no mundo do "conforto" e exibição de status. Depois, olhando para as guerras do petróleo, chegamos à conclusão que o automóvel retirou ao Ocidente liberdade, obrigando-o a envolver-se mais e mais em guerras pela posse do ouro negro. Se temos um Chávez, um maluquinho nuclear no Irão, mais o vespeiro do Iraque, isso deve-se à necessidade de conforto do burguesito europeu e norte-americano.

Como seria diferente a vida sem o caixote de lata sobre rodas. Eu dele nunca precisei. Se quero ir a um sítio, apanho metro, autocarro ou vou a pé. Fui, avant la lettre, um conspirador contra o império da lata de luxo. Hoje, delicio-me com o finamento de tal monstro.
Sou lunático ? Pois, se forem a Veneza perguntem onde estão os carros e pensarão que estão loucos. Banguecoque, com os seus milhões de habitantes, também foi uma cidade quase sem automóveis. Era o velho tempo em que não havia carros e as pessoas chegavam a todos os lugares, quando hoje, todos com carro, ninguém chega a lugar algum. Ah, a minha costela anti-moderna a vir ao de cima, como sou um bom ecologista !

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Eu utilizo-o muito raramente. E o meu tem 16 anos e gasta 6 aos 100. Vale hoje uns 200 Euros?

Samuel de Paiva Pires disse...

Ah como o compreendo Miguel! Muitos amigos meus ainda se espantam com o porquê de eu já ir a caminho dos 23 e ainda não ter sequer tirado a carta de condução. Para além de não me fazer falta alguma, pois a rede de transportes públicos em Lisboa é excelente e quando saio à noite ando de táxi, ter carro é um inesgotável sorvedouro de recursos financeiros que não me parece que o alegado conforto compense. O Miguel por razões ecologistas, eu por razões de teor mais economicista (embora seja um ambientalista convicto, ou não tenha até trabalhado numa ONG de Ambiente), partilhamos da mesma opinião. E, muito pior do que para os nossos individuais seres, de facto tem toda a razão quando diz que o automóvel retirou liberdade ao Ocidente e faz-nos vergar perante ditadorzecos em posse do tão precioso petróleo.

Um abraço

Samuel

dorean paxorales disse...

Há tempos consultei uma lista que colocava Portugal no 12º lugar da loucura, com 537 carros per capita.

Cumps,
DP