07 fevereiro 2009

Inflacção de religião


Folheio o DN e dir-se-ia regressarmos aos dias mais exaltados de Oitocentos: um excelente texto de Fernanda Câncio, com quem raramente concordo, mas que tem o condão de não deixar um morto indiferente; um texto da mão do director do jornal; mais um sobre o escândalo desencadeado por um bispo integrista sobre a inexistência das câmaras de gás e, finalmente, um textozinho sobre um sacerdote hindú a braços com a justiça. A religião volta em peso, ora servindo de desculpa para todos os males e dores do mundo, ora como tábua de salvação e justificação para os mais desvairados assuntos em que não deveria intervir. No fundo, essa sede de absoluto que cracteriza o homem, animal religioso por excelência - criador e assassino de deuses - manifesta-se até na forma como alguns tentam negar o sobrenatural, que substituem por outras crenças que, lutando ingloriamente contra o imanentismo e o trancendentalismo - conceitos contrastantes ou convergentes - mais não fazem que exibir a sede de sentido da existência.


O grande debate que consumiu a história intelectual dos séculos XVIII e XIX volta à ribalta, mas vai assumindo contornos precupantes porquanto, se no passado recobria apenas teorizações extremas e opostas, tratadas com propriedade por filósofos, hoje situa-se cada vez mais num meio termo que convida, com a impunidade da invocação do falacioso argumento de que "tudo o que aos homens diz respeito por eles deve ser discutido" a uma desbragada e atrevida manifestação opinativa sobre questões que são, a um tempo, matéria filosófica, teológica, científica e até política. Ora, esta laicização opinativa vai contaminando e destruindo as possibilidades de qualquer debate e permite a infiltração no foro da especialidade de um crescente número de analfabetos. Um padre, pelo simples facto de o ser, não pode opinar sobre medicina ou astronomia, como um cientista, pela mesma razão não pode intervir em matéria sobre a qual não possui aptidão. Esta de misturar gente diferente, que não domina a metalinguagem e conceitos operativos comuns, que desconhece em absoluto o método e meios de decantação da certeza e da verdade em cada área do conhecimento, está a destruir todo o saber por atacado, entregando-o, em última instância à plebe.


Ainda chegaremos ao dia em que se convocarão referendos para perguntar ao vulgo se a origem do universo foi o Big Bang ou outra, se o homem descende do macaco ou de Adão, se Cristo existiu ou foi criação da mãe do imperador Constantino, se há vida ou não após a morte, se o amor é um artifício literário do impulso sexual ou não. As pessoas, com o respeito que lhes é devido, não devem ser chamadas a discutir aquilo que não pertence ao seu foro de preocupações correntes. Que devem opinar e votar sobre a política fiscal, sobre o partido ou ideias que melhor servem o interese da Cidade, se o ordenamento territorial é o mais acertado, se as políticas urbanísticas, o modelo económico, o serviço de saúde e educação são aquilo por que anseiam, tudo bem, concordo que devem opinar. Se até no ordenamento constitucional há questões que não podem ser sequer formuladas sob pena de dura sanção - se o país deve existir, ou colocar-se na dependência de outro - por que raio não se respeitam os limites de separação entre o conhecimento e a opinião infundada, impreparada, desconhecedora e atrevida ?


Era o faltava ter um biólogo em cada templo, fazendo de censor do púlpito, ou um sacerdote em cada laboratório exarando autorização ou proibição sobre cada acto clínico ! E como as pessoas, sobretudo as mais estúpidas, são potencial ameaça à segurança física das outras, ainda voltarão as velhas inquisições para cobrar o imposto de sofrimento, tortura e morte aos homens e mulheres que consagram toda a existência ao saber e ao conhecimento, posto que a dos ignorantes vive derrancada na pequena moral cega, nos futebóis e na comida.

4 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Que heresia.... Vais contra tudo aquilo que nos andam os barbaças a impingir há décadas! É que daqui a pouco, regressamos ao mito do "bom selvagem" que aliás, já manda em tudo e em todos. Pelo menos, de forma platónica.

Helena Branco disse...

Achei embora empolgada...lúcida e lógica a dissecação filosófica do Miguel!

Dizem (entre amigos) que me expresso como um Budista.Sou pela contemplação pelo ascetismo convivencial e dôo-me pela agitação desvairada. Em reconhecimento á sua missão aqui deixo-lhe umas palavras nas escadas de um templo...no meu blog

Sem Poder nenhum que lhes compre a morte...

Francisco Múrias disse...

«mais um sobre o escândalo desencadeado por um bispo integrista sobre a inexistência das câmaras de gás»

Não é isto que o Bispo diz.

O que ele diz é que nunca morreu nenhum judeu nas camaras de gás
Francisco Múrias

Ritinha disse...

Nem percebo porque é que nos maçam a votar a eleições.
Os politólogos que escolham os políticos.

E anda muita a gente por aí a postar sem ser especialista de blogs.