10 fevereiro 2009

Estendal de erros: precisa-se um Dalgado, imediatamente



Às vezes, no revolto mar de estupidez iluminada que estadeia pelos amplos espaços da chamada comunicação social, dou comigo a testar a exemplaridade de Leites de Vasconcelos e outros gigantes do estudo e da erudição, os tais que devendo ter lugar cativo na estante e mesa de trabalho de qualquer pessoa que se considere civilizada, tão esquecidos andam no afã "corta-cola" de alguns dos nossos jornalistas.

Lendo as notícias que os principais diários portugueses vão debitando graciosamente em linha (nunca "on-line") nos seus sítios internet (nunca "sites") , lanço as mãos à cabeça, tamanho o estendal de erros semeados a eito.

Se nos referimos a Berlim e não Berlin, Moscovo e não Mokba, Munique e não München, por que insistimos em cometer erros facilmente evitáveis ? É Burma em vêz de Birmânia; é o Mar de Andaman em vez Andamão; Beijing em vez de Pequim; Kwangzu em vez de Cantão; Yangoon em vez de Rangun; Aceh em vez de Achém; Sorabaya em vez de Surabaia; Molucas em vez de Moluco; Mombay em vez de Bombaim; Taiwan em vez de Formosa; Bangkok em vez de Banguecoque; Seychelles em vez de Seicheles; Guyana em vez Guiana; Muscate em vez de Mascate; Oman em vez de Omã; Ammam em vez de Amam. Este tremedal anda a reboque da chamada "cultura americana", da ilusão de um prontuário universal, já sem arrimo no latim, no grego e no sâncrito - as línguas universais da sabedoria - e sem qualquer respeito pela etimologia, a ciência do rigor sem a qual não se pode pensar.

Para os nossos pródigos inventores do já inventado, recomendaria como instrumentos de consulta obrigatória o Glossário Luso-Asiático, de Monsenhor Sebastião Rodolfo Dalgado, À margem dos Lusiadas: alguns nomes geográficos, de Pedro Augusto Pinto e o monumento que dá pelo nome de Glossário Toponímico da Antiga Historiografia Portuguesa Ultramarina: nele se identificam os reinos, províncias, distritos, cidades, portos, vilas, aldeias, lugares, serras, mares, rios, lagos, esteiros, etc: designados, em impressos e manuscritos da antiga historiografia portuguesa untramarina, 3 vols. , do Visconde de Lagoa.



O grande problema do nosso tempo é o do improviso, da falta de método, da dissolução das categorias formais que estabelecem a comunidade do conhecimento. Toda a gente, investida sei lá por que direito, julga que pode pensar e escrever livre do arbítrio da gramática, do dicionário, do prontuário, dos conceitos e dessa coisa com um nome tão pomposo a que agora dão o nome de metalinguagem, mas que os antigos chamavam, simplesmente, de lógica. Quem não sabe português não pode escrever nem pensar. É por isso, na onda da fuga para o vazio que campeia, que as teses universitárias se vão alargando em títulos "pós-qualquer-coisa" que ninguém percebe (está aí o segredo), que o são latinório deu lugar a umas coisas americanas tiradas a ferro das pobres ciências da computação, dos marketings, das gestões e outras filhas bastardas do conhecimento.

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Então, é melhor nem assistires ao Canal de História. Alguns exemplo:

Dizem Canal Inglês, em vez de canal da Mancha)

Dizem Lufte-Ueife (parece uma bolacha :), em vez de pronunciarem correctamente Luftwaffe

Nos episódios dos Grandes Palácios do Mundo, o Condado Portucalense, é fundado por um tal Henrique de Burgundy (!)

A dinastia de Avis soa a "Eivis" (tal e qual como soa o nome da empresa de rent a car...)

Os Habsburgos soam invariavelmente Héps-bârg.

Os nomes alemães são o que se sabe e as traduções literais, do estilo Estreito de Escagerraque (Skagerrak), aparece, nem se imaginando o corrente nome de Estreito da Jutlândia.

... e podia continuar até ao fim de semana. Hilariante.

cristina ribeiro disse...

Ó Nuno, já assisti a alguns desses episódios: de estarrecer!

Tino disse...

Pior é ainda a confusão regional.

Falando por exemplo de Israel ou da Palestina, num jornal espanhol ou francês o acontecimento ocorre no Próximo Oriente.

Na comunicação social portuguesa, o mesmo evento ocorre no Médio Oriente.

Alguém consegue ensinar aos jornalistas portugueses onde fica o Próximo Oriente e o Médio Oriente?

Se os ingleses e os americanos confundem Médio com Próximo Oriente é lá com eles.

Qualquer pessoa que tenha feito o 7.º ano de escolaridade ouviu falar no Próximo Oriente Antigo. Penso eu...