01 fevereiro 2009

Do Deus mesquinho


Como aqui disse mais de uma vez, as pessoas mais malsãs e desequilibradas que conheci ao longo da vida padeciam de monomania religiosa. Quanto mais invocam "valores", mais atento fico à carteira; quanto mais invocam mandamentos, resguardados no vazamento das suas pequenas fúrias justiceiras e medos infantis, certifico-me que a religião - tal como a vivem - é arrimo para a maldade, o preconceito e a estupidez. No fundo, as pessoas vêem o mundo que a sua inteligência permite e criam um deus à imagem das suas necessidades. Se repararem, aquilo que concita maiores efusões de energia nas pessoas ditas "religiosas" são coisas de somenos, ou antes, coisas perigosamente insignificantes: porcofobia ente judeus e muçulmanos; aceitação da fatalidade do suposto desígnio de Deus em deixar morrer pessoas e recusar a concorrência da ciência que as poderia curar; a ameaça de flagelos e danações vetero-testamentárias só igualáveis pelo gore de Carpenter, em vez do amor, da compreensão e da solidariedade; a grotesca obsessão pelo sexo, mais sexo e ainda sexo, que deixa transparecer inexistência de vida íntima. Isto para não entrar em matéria de sangue, como excisões, lapidações, pena de morte e outras maravilhas que se cometeram e cometem em nome da religião. Não aceitando trocar a religião pela sociologia da religião, chego a dar razão Christopher Hitchens , o novo Voltaire, que de François-Marie Arouet não tem a graça nem a divina chama provocatória.


Ontem assisti a esclarecedor debate entre um praguejador mosaico, missionário protestante ao serviço dessas seitas-empresa que prosperaram nos EUA de Bush, e um monge budista. Foi revelador. De um lado, de Bíblia em riste, um homem histérico, ameaçador e carregado de ódio, lendo consecutivamente passagens dos protocanónicos (mas esquendo-se, claro, dos sapienciais), invocando os profetas maiores e menores, mas evitando Cristo. Do outro, uma mente límpida, que conhecia de trás para a frente os textos da Antiga Doutrina, mas possuia também vasta cultura bíblica, um doutoramento em Filosofia (ocidental) e exprimia-se num inglês que invejaria os Imortais de qualquer academia de letras. O doido do deus pequeno só falou de sexo, de pecado, de luxúria, condenação. O sereno monge budista ria-se e perguntou se estavam ali para trocar informação sobre prazer solitário, contracepção, problemas de compensação de ego ou para tratar de matéria magna. É claro que a vil criatura não compreendeu e dali não saíu. Foi confrangedor assistir ao esmagamento público de um cristão perante uma assistência budista. Atrás de mim, uma senhora, que julguei ser professora universitária, ria-se a bandeiras despregadas sempre que o furibundo moralista tomava a palavra. Não resisti e virei-me. Era uma europeia. No fim, trocámos breves impressões e disse-ma: "olhe, acreditei naquelas patranhas durante décadas. Depois, tornei-me budista e sinto-me livre". É o maior insulto a uma religião que se afirmou no pressuposto da sua universalidade, mas que insiste em não renunciar a coisas pequenas saídas dos medos de "antropófagos do deserto", como Voltaire chamava aos seguidores de Moisés.

5 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Por mim, fico-me por isto:
1. O Pai Nosso e o Avé Maria de cor e perfeita compreensão daquilo que transmitem.

2. No seguimento do ponto 1, o impecável respeito pela esfera pessoal do outro, inviolável como o próprio domicílio.

3. O respeito pela Igreja como conformadora - para o bem e para o mal - daquilo que somos, como portugueses e europeus.

4. A total rejeição de fixações de ordem pretensamente milenar, estabelecidas em determinados períodos da história e que têm sofrido avanços e recuos, dependendo de modas. Este nosso tempo é bem o exemplo disto mesmo.

5. Sendo as religiões ocidentais - cristianismo, judaísmo e islamismo - meros pastiches ou adaptações do atonismo akhenatoniano, relativizo certas fúrias. Uma breve leitura do Hino a Aton, resolve o problema, se é que existe qualquer possibilidade de controvérsia. E não vale a pena perdermos muito tempo com estas coisas, porque a simples representação de Ísis com o Menino Hórus é por si só, o padrão.

Helena Branco disse...

Aparentemente do nada que somos ou temos dentro eis que surgimos alguns pelo fio das palavras a ilustrar os nossos redutos interiores a mostrar claramente o que pensamos...distinguindo, ser, estar...de utopia.

Fico aqui se mo permitir ligada como mais um pequeno ramo da sua tree de pensador que muitíssimo me tocou pela verdade cósmica natural com que se nos apresenta e acrescenta saber. Sou alguém que deriva também de um cativeiro mental religioso católico que me impuserem em criança...do qual me libertei pelo exercício da lógica do entendimento das coisas e pela observância dos resultados nefastos , sempre submersos em tabus das religiões.Sinto-me livre
humildemente somando entendimento. Por isso me perco ainda na frágil tentativa de me dar a conhecer no blog http://lostrails.blogspot.com/ abrindo ao diálogo os meus receios mas também a minha grande capacidade de amar pelo amor de fazer parte de um todo complementar e complexo.Estou contente por ter encontrado aqui um elo.OBRIGADA de HelenaBranco

joshua disse...

Estou com o Nuno e os seus pontos nesta matéria. Acrescento, no meu caso, um certo misticismo cristão sem radicalidades condenatórias, mas cheio de uma mansidão calorosa, convivial, aceptante do Outro e dos Outros tais como são.

O Coração de Cristo não é tacanho e lamento que Se reveja mais na sabedoria plácida de um seguidor de Buda que num histérico esbracejante da Palavra como marreta ideológica e fábrica de terrores, não de uma libertação inteiror completa.

Combustões disse...

Sim Joshua:
Fiquei envergonhado com o papel que o pobre, rotundo e vermelhudo homem branco afivelou até ao último minuto. No fundo, de canalha dessa está o nosso Ocidente cheio, verdadeiros repelentes do sagrado e fazedores de ateus. Os asiáticos riam-se como se estivessem num filme do Mr. Been e compreendo, finalmente, por que o cristianismo não conseguiu mover um grão da montanha da sabedoria oriental.

Horácio disse...

“Fiquei envergonhado com o papel que o pobre, rotundo e vermelhudo homem branco afivelou até ao último minuto. No fundo, de canalha dessa está o nosso Ocidente cheio, verdadeiros repelentes do sagrado e fazedores de ateus.” É bem verdade o que diz, Caro Miguel. Porém, se em vez da criatura provinda das profundezas do Texas prontificasse um Jesuíta não haveria galhofa nem ridículo. Em todo o caso, sobre a importância do Cristianismo no oriente, tenho o atrevimento de lhe sugerir o depoimento de Dinesh D´Souza. Aqui: http://fora.tv/2008/12/07/Dinesh_DSouza_Credits_Indias_Success_to_Christianity