02 fevereiro 2009

Castelos de cartas



A crise do sistema financeiro internacional, a derrocada estrepitosa de Bush e do seu arsenal de argumentos na luta global contra o terrorismo, as implosões grega e islandesa, a derrapagem do milagre chinês para o limiar da incerteza, a revelação da absoluta impreparação da Índia para assegurar a fixação de investimento após a tragédia de Bombaim, a confirmação do vazio da União Europeia ao longo dos últimos anos sem história; todas estas evidências demonstram que a História do futuro é uma página em branco. Acabou-se a certeza e a capacidade de construir prospectivamente cenários. Voltamos, decididamente, a encarar a passagem do tempo como palco trágico e entender a vida dos homens e das sociedades como pura acidentalidade onde tudo pode acontecer. O século XXI ainda não começou. Vivemos, desde 1991, em busca de uma viragem. Inicialmente, os optimistas viram no soçobrar do comunismo o momento dessa viragem. Depois, veio o 11 de Setembro e afirmou-se peremptoriamente que nascia o novo século. Agora, com a crise a instalar-se em todos os azimutes - não obstante alguns ricos se sentarem confortavelmente em Davos, de whisky na mão, confraternizando no bar do paquete a afundar-se - tudo surge com a grandeza de fim de ilusão. A grande ilusão: pensar que o passamento do comunismo iria permitir o fim da história. A grande ilusão: pensar que a democracia, os direitos do homem, a tolerância e a paz são objectivo de toda a humanidade. A grande ilusão: pensar que as leis e o afã legislativo, por si, mudam a natureza das coisas. São castelos de cartas. Basta uma brisa para que tudo se estatele.

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Exactamente. Na Tailândia, o sr. Taksin faz de conta que nada viu, nada esqueceu e nada aprendeu. Tal e qual como os seus "irmãos siameses" de Portugal