19 fevereiro 2009

Banho lustral



É facto assente que a reverência devida ao titular da chefia do Estado está ancorada no respeito durante séculos tributado aos nossos Reis. É elemento psicológico fortíssimo este que impede o mínimo reparo, crítica ou contestação às iniciativas e palavras do presidente. Em Portugal funciona, de facto, informal mas duríssima, a figura da lesa-majestade. O maior trapalhão, o mais escancarado ebencerragem sem obra e sem mérito, logo que alcandorado ao cadeirão do palácio rosado, passa a ser alvo do maior incesório, rapapés, prostrações e vénias quase bizantinas.


Infelizmente, os senhores presidentes são homens de partido, não exercem função arbitral e são parte conflitante no jogo político. São, amiúde, antigos primeiros-ministros, sobraçaram pastas ministeriais e ocuparam a presidência ou secretaria geral dos partidos. Tiveram responsabilidades, foram odiados, insultados, espezinhados enquanto políticos, pelo que parecem guardar desse tempo - que a todo custo querem fazer esquecer - secreto anseio de ajuste de contas e, até, uma ponta de crueldade pela sorte daqueles que como eles foram responsáveis pelo poder executivo.


É por isso que não os posso respeitar nem compreender no seu papel supostamente independente. Os presidentes, todos - com excepção de Eanes, que pagou cara a sua demarcação - governaram tão bem ou tão mal que hoje o país está como está. Foi durante os anos em que detiveram o poder que Portugal malbaratou milhares de milhões em jipes, montes alentejanos, cursos do FSE, alimentou camarilhas de locupletadores de bens colectivos, alienou a indústria, desmantelou a frota pesqueira e a marinha mercante, dinamitou a agricultura, negociou as políticas europeias como um general que capitula sem condições e sem um tiro, promoveu a ascensão de uma nova elite dirigente parasitária, promoveu o novo-riquismo dos favoritos do capitalismo de subsidiação. Tiveram tudo para que nos industrializássemos, tiveram todo o tempo do mundo para operar a estafadíssima "mudança de mentalidades", promover o mérito, o trabalho, a criatividade, a inventiva e o bom sucesso, não aquele dos medíocres espertos, mas o dos "experts".


Ao contrário do que muitos de curta memória repetem à náusea, o primeiro-ministro não é o responsável pela crise. Vão bater à porta dos senhores presidentes, agora tão arrogantes no apontar de falhas, e perguntem-lhes o que fizeram com o tempo em que foram primeiros-ministros !

6 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Uma evidência escondida por detrás da cortina de fumo mediática.

Nuno Castelo-Branco disse...

Já o linkei ao post sobre a comissão do centenário da dita cuja. vem mesmo a calhar.

Diogo disse...

Nunca foram independentes. Estiveram sempre mais que comprometidos com a defesa dos valores de esquerda que há 35 anos governam Portugal. E o resultado está aí, bem à vista.

Helena Branco disse...

Que bem observado!

Só um pequeno ponto sobre a Terra dinamitada...Havemos de desejar cultivá-la mas será
provavelmente tarde!...

Luis disse...

O que é que nos assemelha aos chamados países desenvolvidos?
1) Uma dúzia de autoestradas, mas no meio de milhares de picadas e carreiros de cabras...
2) Muitos prédios altos, mas de baixíssima qualidade, que ao fim de 10 anos ou menos já requerem despesas significativas de manutenção...

Digamos que temos uma fachada de civilizados. Quando a fachada ruir e chegar a hora de pagar a conta, e já não tarda muito, vamos ver que afinal não temos assim tantas diferenças com Marrocos.

E tem toda a razão: os culpados foram os antigos 1º ministros que depois chegaram a presidentes. E continua a ter razão ao dizer que não deve respeito aos PRs.

nanda disse...

Bravo!