20 janeiro 2009

Sabemos mas não dizemos


Um dos mais precupantes sintomas do paulatino apagamento da consciência crítica das pessoas manifesta-se em coisas tão simples como o evitar falar de questões tidas por inoportunas, desagradáveis, fomentadoras do atrito. Em suma, não se fala de religião, de política, de arte, de costumes, pois tudo isso recobre matérias delicadas, sensibilidades feridas, paixões e animadversões subjectivas que importa respeitar.


É preciso encontrar temas do tal consenso que tanto se proclama mas ninguém sabe o que é. O pensamento único, com as suas frases-feitas pronto-a-dizer e a converseta redonda, ao invés de representar o triunfo da concórdia, do bom senso unificador, parece transportar a anulação voluntária, a invisibilidade, a diluição do sujeito. O medo de opor, o terror de ofender, a paralisia de opinar, julgar e criticar leva-nos a perder a faculdade essencial da língua que é o acto de comunicar com os outros.


Dizem que o homem pode viver numa masmorra, corpo enjaulado e encadeado, mas permanecer livre no espírito. Esse sofisma, de que se serviram sempre os totalitarismos para contornar a sua monstruosidade, ou os medrosos que a eles jamais se quiseram opor, não tem valimento. Ninguém é livre se não se sentir liberto de constrangimentos, se não disser o que pensa, se não lhe for dada voz quando chega o momento fatal em que tem de exibir a sua diferença. Sei, de experiência, que a generalidade das pessoas não quer essa liberdade para nada. Troca-a, de bom grado, pela segurança e pela aconchegante sensação de estar com outros, de cantar o mesmo salmo, repetir o mesmo estribilho, agitar a mesma bandeirola. No fundo, até desconfio que a maioria das pessoas não possui vida interior, tão esgotada fica no rescaldo do acatamento que a ordem sobre elas exerce. Com tanta inquisição , com tanto tribunal do pensamento, tanta censura e tanta inibição, acabámos por semear o carácter de armadilhas, alçapões, arame farpado, trincheiras e paredões.


A Europa, outrora ufana e orgulhosa ao ponto de se proclamar rainha do pensamento, transformou-se neste deserto que sabemos. O embotamento tem o seu preço. Hoje, tão iguais uns aos outros, deixamos de ter razões que nos levem a estar uns com os outros, pois nada há a tratar com quem não quer, não deve nem pode falar sem medo de represálias. É preciso sair longe dessa atmosfera para recobrarmos o direito natural de falar, razonar e contrapor.


Há anos tive uma experiência desagradabilíssima. Participava, a convite do Miguel Esteves Cardoso, numa das suas actividades de campanha para o Parlamento Europeu. O lugar ao lado do meu fora reservado ao João Aguiar, cuja obra me havia interessado superficialmente num certo período do fim da minha adolescência. Eu ali estava como dirigente da Nova Monarquia, que era, de longe - e ainda o é, pois nunca mais movimento monárquico algum lhe chegou aos tornozelos - e ele estaria como monárquico. Ora, quando se apercebeu que me tinha como companheiro de circunstância, levantou-se sobressaltado como se estivera sentado ao lado de um leproso e debandou pedindo "quero um outro lugar, que horrrrror".


Hoje tive uma experiência inversa e a todos os títulos gratificante. Em torno de uma mesa de jantar, falámos, meia dúzia de pessoas civilizadas, sobre política portuguesa e tailandesa, sobre arte, cinema e história sem que jamais aflorasse um silêncio. Não éramos todos iguais; éramos todos diferentes: monárquicos e republicanos, de direita e de esquerda, críticos e defensores dos governos (de cá e o daí). Prevaleceu aquilo a que os espanhóis chamavam de oposiciones, essa saudável prática de esgrima que trata de colocar sem máscara as razões de cada em cima do tampo da discussão. Ora, que me apercebesse, ninguém saíu melindrado. Sinto, até, que depois de defenderem a sua visão do mundo, as pessoas se tornam, de novo, mais libertas para o aprofundamento de tudo aquilo que as pode aproximar. Esta é a verdadeira pedagogia da liberdade. Porque os homens não são ilhas e possuem espírito e inteligência, há que lhes restituir essa humanização que o estreito ideologismo e a falsa uniformização perverteram.


The Japanese Sandman (Artie Shaw, 1936)

4 comentários:

LR disse...

Nem mais.
Mas você está farto de saber o que isso significa: insegurança e provincianismo.
No fundo, uma demostração de falta de autonomia (intelectual e comportamental) como outra qualquer.

Ou a 'radioactividade' do preconceito...

cristina ribeiro disse...

Mais um texto a reter.
Muito bom, Miguel

Margarida Pereira disse...

Pronto. Deve ser do (mau) tempo.
Agora fui às lágrimas; ai!...

Nuno Carvalho disse...

Sempre existiram pobres de espírito. A diferença é que estes hoje têm poder, quando no máximo deveriam ser empregados de quarto. O pensamento dominante em Portugal é abjecto - dá vontade de emigrar.
Um texto magnífico.